Chegaram as férias. O pai da Anita instalou a caravana no parque de campismo do Pinhal Grande.
Anita reencontra as suas amigas Cristina e Matilde.
àquela hora da tarde, o parque está deserto.
- Que se passa? - pergunta Cristina ao voltar do banho.
- O pai disse que vai haver um desfile de bandas de música na cidade. Vêm connosco?
- Despachem-se! Vamos chegar atrasadas! Onde estão as bicicletas? Depressa! Todos para a festa!
Os curiosos apinham-se. Esperam que o desfile comece. Vêm de todos os sítios: da cidade, das aldeias vizinhas, do campo. Os passeios são invadidos pelos turistas. Uns conversam. Outros impacientam-se.
Como encontrar lugar no meio desta multidão?
- Venham, meninas - diz uma senhora idosa. - Daqui podem assistir à parada.
Os metais brilham. Ressoa a música. Começa a festa.
- Que quer aquele? - pergunta o Pantufa… - Parece que me está a fazer sinais.
A banda desfila. As tubas e os trombones de varas abrem a marcha. Oiçam os tambores que batem a compasso, os pratos que ‘aplaudem,
os bombos que atroam os ares. (Bum, bum, bum!)
Todos fazem boa figura nos seus uniformes de gala.
O cortejo pára. Faz uma pausa. As crianças rodeiam os músicos e as majoretes:
- Que instrumento esquisito! O que é? - É um trombone.
- é perigoso? - pergunta o Pantufa.
- Claro que não. Tens cada pergunta!
- Para que serve este funil?
- É uma corneta de caça.
- Uma corneta de caça!… Para caçar coelhos?
Na verdade, o Pantufa não percebe nada de música.
- Emprestas-me o teu clarim? - pergunta Anita. - é fácil, o clarim. Basta soprar lá para dentro.
-Sim, mas é preciso saber como!…
… O violino é melhor. Ou talvez o violoncelo?…
- Gostas assim tanto de música? - pergunta a monitora das majoretes. - A minha prima Isabel é violoncelista. Toca no concerto que vai
começar daqui a bocado. Tenho dois convites. Vem comigo. Anita vai ao concerto, conforme o combinado.
- Onde está a tua prima?
- É a rapariga de vestido branco… Estás a vê-la?…
- Chiu!… Não se fala durante o concerto!
No intervalo, Anita é apresentada a Isabel.
- Como se chega a violoncelista?
- Vem terça-feira a minha casa que
eu explico-te. Temos tempo. Estamos de férias.
- Adorava - diz Anita.
- Não te esqueças de avisar os teus pais… Está bem?
- Está bem. Eu falo com eles.
Terminado o concerto, Anita apressa-se a
voltar para o parque. Faz-se tarde… A festa
acabou…
Ainda não. Aqui vêm os alegres acordeonistas que não querem outra coisa senão divertir-se ainda um bocadinho.
- Se quiseres, tocamos-te o Baile dos Passarinhos.
- Tenho que ir para casa - diz Anita. - Já são horas.
- Vá lá! Nem todos os dias são de festa.
O pai e a mãe, preocupados e zangados, esperam a Anita diante da caravana.
- Vens atrasada. Que te aconteceu? Caíste da bicicleta?
- Não. Está tudo bem. Fui apresentada à Isabel.
- Isabel?… Quem é a Isabel?
- É uma nova amiga… Conheci-a no concerto. Toca violoncelo. Está disposta a ensinar-me… Posso ir a casa dela na terça-feira?
- Vais incomodar essa gente!
- Não vou. A Isabel é muito simpática. E ela disse que, como estamos de férias… Deixas-me ir?…
O pai da Anita telefonou para casa da Isabel.
É o avô dela que atende:
-Se estamos à espera da Anita? Com certeza! Pode vir visitar-nos sempre que queira. A Isabel falou-me… Incomodar? Que ideia! A minha
neta já me disse que terá muito prazer em poder ajudá-la…
O pai concordou: a Anita pode ir a casa da sua nova amiga.
- Vamos começar por fazer uma experiência, para ver se tens bom ouvido - sugere Isabel. - Deitamos água nestes copos. Neste até metade. Naquele até três quartos. Mais outro até aqui.
- E depois? - pergunta Anita.
- Faz tilintar este copo… Escuta aquele… Notas a diferença?… Há sons agudos, graves e intermédios. Os compositores transcrevem os sons em papel de música por meio de sinais chamados notas… Agora, tenho uma surpresa para ti.
- Comecei a tocar violoncelo quando tinha a tua idade - diz a Isabel. - Fiquei muito orgulhosa quando recebi o meu primeiro instrumento.
- E que lhe fizeste?
- Fiquei com ele. O avô disse: “Guarda-o. Um dia ficarás contente por o teres conservado.”
- É este? - pergunta Anita.
- Esse mesmo. Tenho a certeza de que te vai dar jeito. É ainda um pouco grande para ti. Mas deve dar.
- Posso experimentar?
- Claro que podes, mas antes disso é preciso arranjá-lo.
- O que é que estás a fazer? - quer saber Anita.
- Estou a substituir as cordas partidas. Depois vou afinar o instrumento.
Em poucos dias, Isabel e Anita tornaram-se excelentes amigas. Anita espera com impaciência cada lição.
- Porque fazemos deslizar os dedos ao longo das cordas?
- Isso diminui o comprimento da corda. As diferentes notas são obtidas conforme a posição dos dedos.
- Gostava de tocar qualquer coisa.
- Então experimenta executar correctamente uma escala puxando as cordas. Ouves como elas vibram?… Outra vez… No próximo dia ensino-te como deves pegar no arco.
Duas ou três vezes por semana, Anita vai a casa da
sua amiga. Aprende montes de coisas.
- Faz deslizar o arco sobre as cordas.
- Ai, como range!…
- Não estejas tão tensa. Descontrai-te!
Anita decifra ainda com alguma dificuldade uma partitura. Não é fácil! As notas passam voando como moscas. O arco, os dedos, o compasso, que quebra-cabeças! Há duas semanas que ela pratica com verdadeira aplicação.
Nessa noite, todos dormem na caravana e Anita tem um sonho estranho. Toca violoncelo diante de uma paisagem montanhosa. Anita experimenta uma sensação maravilhosa.
De repente, um dedo atravessa-se na escala. Uma corda chora. É uma nota desafinada.
- Uh! Uh! Mau!… Mau!… é a voz do Pantufa.
No dia seguinte, Anita chega a casa de Isabel, preocupada.
- O que é que tens?… Conta-me.
- Acho que nunca conseguirei tocar violoncelo. É muito difícil. Até tenho pesadelos.
-Que ideia! Não te deixes desencorajar por um sonho mau. Ao princípio não é fácil. É preciso paciência.
-Vamos - diz o avô -, venham lanchar.
Os dias passam. Quando o tempo está bom, ficam no jardim. Isabel tem razão: Anita faz progressos. O avô é da mesma opinião. Mas há uma coisa que incomoda a Anita: o fim das férias aproxima-se.
- Porque é que te afliges assim? - preocupa-se Isabel.
- Nunca serei uma violoncelista - responde Anita. As férias foram
muito curtas; ainda sei tão pouco e o meu pai não vai querer matricular-me no conservatório.
- Porque não?… Tem de haver uma solução. Vou falar ao avô. Ele tem sempre excelentes ideias.
O avô decide ir falar com o pai da Anita.
Quando o avô chega ao parque de campismo, o pai já está a preparar o carro para o regresso de férias.
Convida o velho senhor para conversar dentro da caravana. O pai e a mãe interrogam-no sobre os progressos da Anita.
- Venho justamente por esse motivo. Anita tem jeito para o violoncelo.
- Sim, sim. Acreditem. Era pena que não continuasse.
Porque não a matriculam no conservatório?
- Está bem, no conservatório! Mas e o violoncelo?
Quanto ao violoncelo, vamos resolver isso.
No regresso, o avô anuncia:
- O teu pai está de acordo em matricular-te no conservatório, Anita.
- Sim, mas que fazer sem violoncelo?
- Empresto-te este, o tempo que for necessário - propõe Isabel. Já está muito pequeno para mim… Fico triste se não aceitares.
- Oh! Obrigada - diz Anita, corando de prazer. Assim terminam as lições de violoncelo … e as férias!
- Voltaremos a ver-nos, não é, Isabel?
- Claro, Anita. Voltaremos a ver-nos.
FIM DO LIVRO
