Via-se no alto do céu uma nuvem imóvel. Ali estava de sentinela para
evitar que deslizasse o mais insignificante raio de sol para a terra. E
que os habitantes da terra, os homens, se tinham tornado novamente maus,
e, para castigo de seus crimes e pecados, Deus resolvera privá-los
durante quatorze dias do calor e da luz do sol. A tal nuvem era de cor
cinza-prateada, vaporosa e fina, e tinha o feitio de um elegante veado.
Disso ela ficava muito vaidosa, sobretudo quando comparava suas formas
com as formas grosseiras de suas colegas, as outras nuvens, com seus
ventres inchados que pareciam cúpulas de igreja, e suas trombas de
elefante. Pois bem: transcorridos os quatorze dias, ela teve de voltar
para o seu lar, a casa das nuvens, e ali esperar que a chamassem para
fazer nova guarda. Pelo caminho se encontrou casualmente com uma
calhandra que, como fadas as calhandras, estava alegre e cantava uma
canção muito divertida, lá em cima, na solidão do ar. - Como é possível
- disse a nuvem - que alguém cante tão alegremente, se a vida é tão
atrozmente aborrecida? - Aborrecida? - replicou a calhandra. Nada disso,
querida nuvem; compreendo, não resta dúvida, o teu aborrecimento,
obrigada como és a permanecer no mesmo local, e sempre à espreita; mas
eu. . . eu passeio, voando e revoando, vejo e ouço coisas muito bonitas
e muito divertidas. Não podes imaginar o quanto é bonito o mundo, e como
podem ser bons e amáveis os homens. . . Tão bons e tão amáveis, que eu
me sinto muito feliz de estar no meio deles, e todas as tardes dedico
dois gorjeios a agradecer a Deus por ter-me deixado enxergar todas as
coisas. Eh, vem comigo, boa nuvem, e faremos uma viagem em boa
companhia. Deste modo reconhecerás, acho eu, que a vida não é tão
aborrecida como dizes. - Ai, que pena tenho dos homens, amiga calhandra!
- replicou a nuvem. - São todos iguais, todos fazem a mesma coisa:
comem, bebem, dormem e finalmente morrem! Não me digas que isto não é
deveras enfadonho! - Oh, coitadinha de ti, nuvem! - disse com um belo
gorjeio a calhandra. - Que sabes a este respeito? Dos homens depende a
dita e a felicidade de todos os outros sêres que povoam o mundo; eles
são tão bons, que quando me ouvem preludiar uma canção alegre, olham
para o céu agradecidos, e seus rostos se tornam brilhantes e luminosos
como o sol. Então
meu coração salta de contentamento, dentro do peito. Outras vezes, eu
entôo o hino do desejo, e então eles arregalam muito os olhos e olham
para longe, como perdidos; esquecem repentinamente suas tarefas diárias
e sentem a presença do que é grande e terno. E eu, que lhes dou este
prazer, desfruto as delícias de quem faz o bem. Pergunto agora: pode
isto chamar-se aborrecimento? A nuvem refletiu e disse: - Ah, se eu
também pudesse fazer isso!. . . - Claro que podes - replicou a
calhandra. - Basta que empreendas uma viagem comigo. - Está bem, -
assentiu a nuvem - sairei contigo. Tenho três semanas de folga, que é
exatamente o tempo daqui até a próxima guarda. Quando partimos? - Agora
mesmo - disse a calhandra. - Eu guiarei e tu me seguirás. Puseram-se a
andar - a voar, quero dizer. Depois de algum tempo ouviram embaixo um
grande rumor. Olharam e viram um homem deitado no chão, enquanto o outro
apoiava em seu peito um dos joelhos, com uma grande faca na mão. - Sê
generoso e não me tires a vida, - implorava o que estava no chão - tenho
em casa seis filhos que sustento com o trabalho de minhas mãos. Se me
matares, eles morrerão de fome; perecerão miseravelmente; tem compaixão
deles. - Não, - respondeu o ladrão, pois era um ladrão, o que queria
assassiná-lo - tens de morrer, porque senão vais denunciar-me. Só os
mortos não podem falar. - Então - insistiu o outro - deixa-me ao menos
fazer
uma pequena oração, porque não quero chegar à presença de Deus sem me
haver preparado. - Está bem, - disse o ladrão - faz tua oração, se
queres; concedo-te o tempo de chegar aquela nuvem cinza-prateada que vês
lá em cima, e que parece caminhar em nossa direção. No momento em que
ela chegar, te matarei. Trata de apressar-te, portanto. A nuvem, que
tinha ouvido esta conversa, foi espalhando-se devagarinho, até se tornar
um fino vapor transparente, de modo que na terra quase não se via nada
dela. O ladrão largou o homem, e lhe saltaram lágrimas dos olhos. - O
dedo de Deus está aqui - exclamou ele. Deus quis convencer-me do quanto
sou mau e desprezível. Perdoa-me, bom homem; daqui por diante serei fiel
e honesto. Achas que posso ser assim? - Sem dúvida! - respondeu o outro.
- E eu te ajudarei a conseguir isto. Resolve-te a trabalhar, que é a
primeira condição para ser homem honesto, e se quiseres, poderás
trabalhar como criado na minha própria casa. - Oh, como és bom, como és
nobre! - replicou o bandido, e beijando as mãos do outro, acrescentou: -
Hoje começo vida nova! Ambos seguiram o mesmo caminho, palestrando como
bons amigos, quase felizes com aquela amizade. Dali a algum tempo se
detiveram, puseram-se de joelhos, levantaram as mãos para o céu e
exclamaram: - Mil vezes te agradecemos, amável nuvem: a ti devemos a paz
e a vida; nunca te esqueceremos.
A nuvem sentiu que penetravam em seu íntimo as palavras daqueles homens,
e elas lhe causaram um efeito semelhante ao que sentiu quando pela
primeira vez recebeu o beijo do sol. Dirigindo-se à calhandra,
disse-lhe: - Tens razão. O mundo realmente não é tão aborrecido como eu
imaginava. As viajantes continuavam seu caminho, quando ouviram um leve
cochicho na terra. Espiaram, e viram um rapaz e uma moça que, de mãos
dadas, andavam vagueando por campos e outeiros. - Meu amor! - ouviram o
rapaz dizer. - Vamos casar amanhã? Já estás adiando demais este
casamento! - Sabes muito bem que não pode ser - respondeu a jovem. -
Titia, que conhece muito bem o futuro, nos disse, lembra-te bem, de que
só se consegue a felicidade e uma vida de venturas num dia de céu limpo
e de ar claro e transparente. Vês aquela nuvem cinza-prateada lá no
firmamento? Temos de esperar que ela desapareça; é preciso paciência. .
. Ouvindo isto, a nuvem subiu, até chegar ao mar do sol. Este mar fica
no céu, e nele o sol, ao voltar depois do seu passeio diário, se olha e
se limpa da poeira da caminhada. Nesse mar mergulhou a nuvem, e no mesmo
instante se tornou cor-de-rosa. Ao vê-la, o rapaz se alegrou e disse: -
Olha, meu amor, não vês lá em cima a nuvem cor- de-rosa? O dia está
amanhecendo claro e cheio de sol. Vamos casar amanhã? - Sim, amanhã está
bem - respondeu enlevada a jovem, e lançou-lhe os braços ao pescoço; os
dois se beijaram e continuaram o caminho, felizes e
abraçados, até chegarem em casa. - Tinhas razão, querida calhandra, -
disse a nuvem - há muita variedade e muita alegria no mundo. Como
resposta a calhandra saltou um trinado que ressoou pelo ar afora,
demoradamente. No dia seguinte as duas viajantes ouviram uns fortes
passos, ressoando na terra. Olharam e viram um pelotão de soldados, que
entrava como inimigo no país. - Hurra, pessoal! - dizia o que os
mandava. - Vêem lá em cima aquele castelo? Nele há ouro e prata, assim
como grande quantidade de provisões. Vamos assaltá-lo! Faremos
prisioneiros o conde e a família dele, os prenderemos e os levaremos ao
nosso rei. De fato, lá ao longe brilhava, como uma mancha branca de
neve, o castelo. O conde, com sua linda esposa e dois filhos, estava no
terraço, contemplando o horizonte, quando chegou a tropa. O conde
olhou-a sombrio, porque pressentia a sua desgraça. A condessa ficou com
os olhos cheios de lágrimas, e as duas crianças se esconderam correndo
no colo da mãe. Então a nuvem desceu à terra e se estendeu, como uma
impenetrável neblina, diante dos inimigos, que, perdendo o caminho,
andaram de cá para lá, sem direção, e não tiveram outro remédio senão se
retirarem. A nuvem, em forma de compacta névoa, permaneceu na terra até
os soldados desaparecerem à distância. Depois subiu de novo para o ar. E
ouvindo como riam e tagarelavam as crianças, se voltou para a calhandra
e disse: - É bonita a vida, calhandra; que bom, fazer
o bem! Como os homens o agradecem! A seguir passaram por cima de um
campo, onde viram um lavrador que, triste e pensativo, olhava para longe
sem ver nada. Dizia de si para si: “Tudo inútil. . . Estou esperando há
tantas semanas, e daqui a pouco já será tarde. . . O trigo está
crescendo, o solo queima e o resseca, de modo que não pode amadurar. . .
Pobre, infeliz de mim! Se não encher os celeiros, não poderei pagar
juros nem impostos. . . Teremos de abandonar a casa e ir embora para o
estrangeiro. . . teremos de emigrar! Por que será que mereci tamanha
desventura?” Mal acabava de pronunciar estas palavras, lhe caíram no
rosto umas pesadas gotas. No mesmo instante se viu a nuvem se enrolar,
encolhendo-se, e deixar cair uma chuva copiosa e fecunda, que regou os
campos. O lavrador levantou as mãos para o céu e exclamou: - Oh, nuvem,
minha boa nuvem! Só a ti devo ter escapado da miséria! - Irmã calhandra,
- disse então a nuvem - como me fizeste feliz, e como saio contente da
tua companhia! Os homens são realmente como nós os queremos! A
felicidade deles é a nossa felicidade, os sofrimentos deles são os
nossos sofrimentos. Nunca mais hei de achar o mundo aborrecido!
