Qua
21
Mai

A Irmã do Inocente

9:11
Imprimir Imprimir

Lá estava ela, a tia Thibaut, deitada na cama, pousando o olhar triste sobre a filha, chamada Carolina, que se atarefava a rematar um vestido, que devia entregar nessa tarde à Sr. a Delmis, esposa do presidente da Câmara.

Sentado ao pé do leito, Inocente, moço de 15 a 16 anos, esforçava-se por colar as folhas soltas de um livro velho e sujo. Trabalho inútil, porquanto, mal colava a folha, logo a puxava sem esperar que secasse. Inocente recomeçava o serviço sem irritação, com uma paciência digna de melhor resultado.

- Ó Inocente - disse-lhe a mãe -, como queres segurar as folhas, puxando-as dessa maneira, sem dar tempo a secarem?

INOCENTE - Que remédio têm elas! Para verificar se estão seguras é que puxo por elas. Se puxo pelas outras e não vêm, por que razão não há- de suceder o mesmo a estas?

MÃE - É porque estão soltas, filhinho…

INOCENTE - Precisamente por isso, é que as quero colar. Preciso de um catecismo, não há que ver. Foi mesmo o Sr. Abade quem mo disse; disse-mo também a Sr. a Delmis… A Carolina deu-me o dela; mas como não é novo, quero pô-lo como tal.

MÃE - Se queres que as folhas fiquem seguras, dá tempo a secarem as que vais colando.

INOCENTE - Que faz ao caso?

MÃE - É que assim nunca mais se despegam.

INOCENTE - Se assim é, sempre as vou deixar

até amanhã, para ver o efeito.

Tendo colado todas as folhas soltas, o Inocente foi pousar o livro na mesa onde a irmã colocava a obra e os papéis.

INOCENTE - Não haverá meio de acabares com isso, Carolina? Estou com uma fome… Bem sabes que são horas do jantar.

CAROLINA - Mais cinco minutos; são mais dois

botões para coser… Assim! Pronto. Ora cá está! Vou levar o vestido, mas volto num pulo a preparar tudo. Não saias do pé da mãezinha, para lhe chegares o que te pedir.

INOCENTE - E se não me pedir nada?

CAROLINA (a rir) - Nada lhe darás.

INOCENTE - Nesse caso, prefiro ir contigo e tomar um pouco de ar. Estou aqui fechado há tanto tempo!…

CAROLINA - Mas é que a mãe não pode ficar

só… doente como está… Olha… Parece que tu é que podias ir levar o vestido a casa da Sr.a Delmis… Vou embrulhá-lo bem, põe-lo debaixo do braço, e leva-lo a casa dela; perguntas pela criada e entrega-lo da minha parte. Entendeste bem?

INOCENTE - Se entendi! Meterei o embrulho debaixo do braço, vou com ele a casa da Sr. a Delmis mando chamar a criada, e entrego-lhe o vestido do teu mando.

CAROLINA - É assim mesmo. Agora, vai num pé e vem noutro, pois, à chegada, já tens o caldinho na mesa.

Inocente pegou no embrulho e lá foi a correr. Chegado ao destino, perguntou pela criada.

- Procure-a na cozinha, meu rapaz; naquela primeira porta à esquerda - foi a resposta que recebeu de um carteiro que ia a sair.

O caminho da cozinha era bem conhecido de Inocente. Saudou à entrada, e apresentou o embrulho à Rosinha.

INOCENTE - Rosinha, aqui tem um presente, que lhe manda a minha irmã; um vestido que ela mesma arranjou. Para o ter prontinho agora à noite, teve que lhe dar.

ROSA - Um vestido para mim? Ó que gentileza a da boa Carolina! Ora mostra cá, que tal é ele?

Rosa desatou o embrulho, desenrolando um lindíssimo vestido de musselina cor-de-rosa e branco. Soltou um grito de admiração e, em agradecimento, presenteou Inocente com um beijo e com um pedaço de pudim. Subiu depois ao quarto, para experimentar o vestido, que lhe ficava como se tivesse sido feito para ela.

Muito satisfeito pelo bom desempenho do recado, Inocente deitou a correr para casa.

- Lá dei o recado, Carolina. A Rosinha ficou contente; beijou-me e deu-me este pedaço de pudim. Não me faltaram ganas de me atirar a ele, mas preferi guardá-lo para te dar a ti e à nossa mãe.

CAROLINA - Foi uma acção muito linda, Inocente; muito obrigada. Mas a sopinha está na mesa; vamos a ela.

INOCENTE - Que é o jantar?

CAROLINA - Um caldo de couves e toucinho, e

uma salada.

INOCENTE - Ora bem; gosto do caldo de couves

e da salada também; o pudim fica para o fim.

Sentaram-se ambos à mesa. Antes de começarem

a comer, teve Carolina o cuidado de servir a mãe, que

não podia sair da cama, pois sofria de paralisia geral. Inocente atirava-se à comida, como esfaimado que estava. Ninguém falava. Chegada a vez do pudim, Carolina perguntou a Inocente se fora a Sr. a Delmis quem lho dera.

INOCENTE - Qual o quê? Se nem vi tal senhora! Disseste-me para perguntar pela criada, e eu assim fiz.

CAROLINA - Então, nem ao menos sabes se a senhora ficou contente com o vestido?

INOCENTE - Verdade seja que nem nisso pensei.

Mas que nos importa que ela esteja ou não satisfeita? Foi a Rosinha que recebeu o embrulho, e foi ela que achou bonito o vestido, e que se ficou a rir e a dizer que eras uma rapariga muito amável.

CAROLINA (com surpresa) - Uma rapariga muito amável! Não fiz favor nenhum em enviar o vestido à dona!

- Disso não sei nada; repito apenas o que ouvi à Rosinha.

Carolina ficou bastante admirada com a satisfação da Rosa. E mais admirada ficou ao ver chegar o afilhadito da Sr. a Delmis, chamado Colas, todo esbaforido, à procura do vestido que ficara de ser entregue nessa mesma tarde.

CAROLINA - O vestido já para lá está há uma

hora; até foi Inocente quem o levou.

COLAS - Como a senhora o manda buscar, parece que o não recebeu.

CAROLINA (para Inocente) - Não o entregaste à

Rosinha?

INOCENTE - Sim, foi mesmo a ela que o entreguei, como tu recomendaste.

CAROLINA - Então, foi a Rosinha que se esqueceu de lho entregar. Corre depressa, Colas, e diz à senhora que o vestido já lá está, em poder da Rosinha, há uma hora.

O pequeno lá foi a correr; mas Carolina não deixou de ficar inquieta, pois receava qualquer tolice de Inocente; ele, porém, respondia a todas as perguntas invariavelmente o seguinte:

- Entreguei o embrulho à Rosinha, como tu mandaste.

Carolina pôs-se então a preparar tudo para se deitarem. Havia cinco anos que a mãe, enferma, não saía da cama, muito menos podendo ajudar a filha nos arranjos da casa; mas Carolina chegava para tudo; activa, laboriosa e ordenada, mantinha sempre a casa num estado de asseio, que fazia sobressair os velhos móveis. Com o trabalho, supria às necessidades da família, da mãe especialmente. Inocente tinha muita vontade de a ajudar; contudo, por falta de capacidade, a irmã só lhe podia confiar o serviço que fizessem em conjunto. O nome dele era Babylas; mas, tendo-se um dia metido até aos joelhos num regato abrigado por uns chorões, a fim de, no seu entender, se abrigar da chuva e evitar de molhar um fato novo que nesse dia vestira, foi alvo de grande troça dos companheiros, que lhe passaram a chamar Inocente, por, para não se molhar, se ter metido na água. A partir de então, só o trataram por Inocente, nome que lhe ficou e pelo qual até os membros da família o começaram a tratar. De rosto meigo e regular, aspecto apatetado, boca levemente entreaberta, estatura e modos desajeitados, tudo dava nas vistas e denotava um certo desarranjo mental, embora inspirando simpatia e interesse. Estava ele a ajudar a irmã a limpar e arrumar tudo, quando Carolina estremeceu ao ouvir na porta uma pancada forte.

- Entre quem é! - disse ela, perturbada.

Rosa empurrou a porta, com força, e entrou por ali dentro, de rosto afogueado pela cólera.

- De futuro, menina - disse, dirigindo-se a Carolina, espero que não voltará a repetir essa brin cadeira de mau gosto, e fazer-me zangar com a minha senhora, talvez para tomar o meu lugar.

CAROLINA - Que é que a Rosinha quer dizer? Não sei que razões de queixa possa ter de mim; nunca pensei em indispô-la com a sua patroa.

ROSA - Foi talvez para ela ficar contente comigo, que Carolina me enviou, como se fosse para mim, um vestido que era para ela, pois lho tinha dado a fazer, e de que estava à espera, não? Visto-o muito inocentemente, cuidando ser uma agradável surpresa sua, e eis senão quando me vejo interpelada pela Sr. a Delmis, minha patroa, que estava a ver não sei já quê à janela. Ao reconhecer o vestido dela, prega-me uma descompostura mestra em plena rua, e faz-me voltar para casa, a fim de despir e entregar-lhe o vestido, que Carolina me enviara de presente! Tola que fui: ainda gratifiquei com um pedaço de pudim o parvo do seu irmão, esse cúmplice da sua maldade!

CAROLINA - Muito me admira o que me conta, Rosinha. O vestido que mandei levar à Sr. a Delmis pelo meu irmão, era, naturalmente, para ser entregue à senhora, por seu intermédio; podia lá supor que a menina o ia considerar um presente de uma pobre rapariga, que mal angaria com que alimentar a família? O meu irmão também não merece recriminações pois desempenhou-se bem do recado que lhe dei.

ROSA - Bem, bem, menina! Avenha-se lá como entender, mas esteja certa de que, se pretende fazer- me despedir da casa onde estou a servir, para tomar o meu lugar, desde já a previno de que não ficará lá muito tempo. A patroa é caprichosa e avarenta; paga mal e não perde nada de vista; ralha por tudo e por nada; dá por conta as achas e as velas; fecha o açúcar, o café, os doces, o vinho, tudo, numa palavra: é uma casa de fome, de balbúrdia. E depois, com crianças sempre de um lado para outro e a incomodarem-nos constantemente… Pode lá aturar-se? Digo-lhe já, para saber com o que tem a contar.

CAROLINA - Não tenho vontade nenhuma de ir servir para casa da Sr. a Delmis, garanto-lhe. Bem sabe a Rosinha que tenho a meu cargo mãe e irmão, que não posso abandonar. Todavia, se a casa é assim má, como é que já lá está há um ano, e porque parece tão zangada só por imaginar que eu a quero fazer sair de lá? Sempre me pareceu a Sr. a Delmis boa para todos e especialmente para consigo, Rosinha; tratou-a muito bem na sua doença, cuido eu; mandou-a velar três noites, e não lhe recusava o que lhe podia ser bom e agradável. Deve-lhe gratidão, e não é falando assim dela que lhe prova o seu reconhecimento.

ROSA - Não preciso das suas lições, menina, bem sei o que devo dizer e fazer. Já vejo que sabe lisonjear a Sr. a Delmis para lhe apanhar o dinheiro; mas saberei desmenti-la e arranjar-me para, de futuro, lhe não saírem tão bem os seus vestidos. Ora espere, que pouco tempo há- de durar a sua reputação de boa costureira.

CAROLINA - Porque não haviam de ficar tão bem como dantes os vestidos, tendo eu sempre com eles os mesmos cuidados? Trabalho o melhor que sei e Deus abençoa o meu trabalho; não me retire Ele a Sua bênção, e nada mais receio.

ROSA - Pois sim, amorzinho, conte com isso; no momento próprio saberei dar-lhe uma ajuda: tesourada aqui, prega acolá, e verá para onde vai a sua reputação.

CAROLINA - É lá possível, Rosinha! Não quero crer em tal maldade!

INOCENTE - Que te quer ela fazer, irmãzinha?

Ora diz-mo, que eu saberei impedi-la.

ROSA - Era mesmo o cretino que vinha impedir-me de fazer aos vestidos o que bem me parecesse! Vê lá se és capaz, meu pateta!

INOCENTE - Há mais senhoras na terra sem ser a Sr. a Delmis, sua velhota; e creia que chegarei para você, se fizer mal à minha irmã.

ROSA (furiosa) - Velhota, eu! Que queres dizer com isso? Velha, eu que já recusei mais de vinte casamentos, e…

INOCENTE - Ora venham lá os nomes; sempre quero ver se me apresenta um só que seja.

ROSA - Ora, os nomes! Posso cá lembrar-me agora!

INOCENTE - Ao menos, um!

ROSA - Lá vai: o Taillochon, do moinho.

INOCENTE - O marreca? Ah ah ah, Com uma corcunda maior do que ele, pernas tortas, focinho de macaco Ah ah ah Ora aí está um rico marido. Sr. a Taillochon! Ah! ah! ah! Está-lhe a matar!

ROSA - Foi por isso que o não quis, seu estúpido! Mas há mais: o merceeiro Bursiflo.

INOCENTE - Merceeiro de pataco, com o nariz torto, a face direita do tamanho da cabeça, bêbado a toda a hora! Ora aí está outro que tal! Se forem todos dessa força, era melhor não falar neles… Bursiflo! Francamente! E e ntão Taillochon Ah ah ah. É muito boa!… Entre os dois venha o diabo e escolha.

Irritada ao rubro pelas observações de Inocente, a Rosa atirou-se a ele, na intenção de lhe fazer sentir o valor do seu punho; mas Inocente, que previra o ataque, agarrou numa cadeira, com a ligeireza própria dos quinze anos, e colocou-a entre si e a assaltante, no momento em que esta, de braço lançado, lhe ia aplicar um bofetão monumental. Está bem de ver que não foi ele o ferido, mas Rosa, cujo braço, batendo na cadeira, caiu sem movimento. O grito de dor soltado por Rosa cruzou-se com o grito de triunfo soltado por Inocente. Agarrando-o pelo casaco e puxando-o para trás, Carolina colocou-se de permeio, evitando que eles se agredissem. Mas Rosa estava vencida, a cólera era-lhe abafada pela dor. Os gemidos que soltava mostravam bem quanto dolorosa tinha sido a pancada dada pelo braço na cadeira, braço agora amparado pelo outro. Deixou Carolina examinar a ferida e friccionar com pomada a parte dorida. Saiu depois disso, sem dizer palavra e fechando a porta violentamente.

A promessa de Carolina

Durante a cena precedente, a tiaThibaut conservou-se imóvel, embora muito agitada. Depois da Rosinha partir, chamou o filho e perguntou-lhe:

- Ó Inocente, porque é que a Rosa julgaria que a tua irmã lhe fizera presente do vestido da Sr. a Delmis?

INOCENTE - Eu sabia lá que o vestido era da Sr. a Delmis? Não fiz mais do que repetir à Rosinha o recado de Carolina.

MÃE - Mas que foi que tu disseste? Ora repete lá as tuas palavras.

INOCENTE - Já não me lembro. Penso que disse: Menina Rosa, aqui está um vestido que a minha irmã fez para você, e que me mandou embrulhar e entregar-lhe.

MÃE - E a Rosinha julgou que era para ela?

INOCENTE - Naturalmente, pois até eu assim pensei. Ora, se eu assim o entendi, porque não devia ela entendê- lo também?

CAROLINA - Já compreendo agora a razão da sua fúria: supôs que eu me tivesse querido divertir à custa dela e levar a patroa a ralhar-lhe.

MÃE - Para que dás recados desses ao Inocente? Não sabes que ele é…

CAROLINA - Muito prestável, e esforçando-se

por se desempenhar o melhor possível das incumbências, bem o sei, minha mãe; só está contente quando me presta algum serviço!

INOCENTE - Na verdade, bem quisera eu, boa Carolina, estar sempre a prestar-te serviços, mas não sei como isto é; em vez de te auxiliar, prejudico-te. Bem sabes que é sem querer.

MÃE - Para que te metes então nos serviços dela, se reconheces que não os consegues fazer bem?

CAROLINA - O minha mãe, às vezes é-me de muita utilidade.

INOCENTE (tristemente) - Deixa lá, minha boa Carolina; ainda há pouco impediste a mãe de me chamar parvo. Bem sei que o sou, mas não tanto como se julga. Terei a inteligência necessária para te vingar da Rosinha, podes estar certa disso.

CAROLINA - Proíbo-to, Inocente; nada de vin ganças, meu amiguinho; é preciso ser bom e caritati vo, perdoando aos que nos ofendem…

INOCENTE - Não me importo de perdoar aos que me ofendem a mim; agora, aos que te ofendem ati, isso nunca! Tu, uma bonacheirona, que não fazes mal a uma mosca!

CAROLINA - Não penses mais nisso, Inocente, peço-te. Defende-me, não me importa, como fizeste tão valentemente há pouco, mas não penses nunca em vingar-me. Olha - acrescentou ela -, lê esta passagem da vida de Jesus Cristo: verás como Nosso Senhor te dá o exemplo do perdão. Trata de O imitar.

Inocente pegou no livro e pôs-se a lê-lo com atenção, enquanto a mãe chamava a filha e lhe falava assim:

- Filhinha, que será deste infeliz quando eu deixar de viver? Enquanto for viva, vale-nos o rendimento do primo Lérot pelo aluguer do quiosque; mas eu não estou para durar muito; sinto que as forças me abandonam de dia para dia; as mãos começaram a sofrer da paralisia das pernas; prende-se-me, às vezes, a cabeça; fez-me muito mal a cena de há pouco. Que será de ti, querida filha, a braços com o Inocente, que é incapaz de ganhar a vida e te impedirá de arranjares uma boa colocação? Infeliz Inocente!

- Peço-lhe, mãezinha, que não se incomode por minha causa - disse Carolina, abraçando-a ternamente -; a mãe bem sabe que não trabalho mal e que não me faltará que fazer; posso ganhar facilmente a minha vida e a de Inocente, que tratará da casa e fará os recados, ajudando-me o melhor que puder. Além de que a mãe está longe de se encontrar doente como imagina; há-de viver muito tempo ainda, querendo Deus; e dentro de alguns anos o mano será um bom operário, igual a qualquer outro.

MÃE - Duvido muito, filhinha. O meu pobre Inocente há-de ser sempre o que é agora, causando-te arrelias e embaraços.

CAROLINA - Arrelias, não, minha mãe. Embaraços, talvez; mas conto com a protecção de Deus e aqui lhe faço a promessa solene de nunca abandonar o meu pobre irmão, haja o que houver.

MÃE - Obrigada, querida filha, muito obrigada. Contudo, se vires que ele é um obstáculo à tua vida, vê se o colocas em casa de alguma alma piedosa e caritativa, que o receba por amor de Deus. Consulta para isso o Sr. Abade; bem sabes que ele é bondoso e está sempre disposto a auxiliar-te.

CAROLINA - Creia, minha mãe, que nunca

abandonarei o meu pobre irmão.

MÃE - Nunca… nunca… obrigada… nunca… Ó meu Deus! Nem sei onde estou… nem já posso pensar… Minha pobre cabeça… Tudo acaba… Ah!…

- Inocente, ó Inocente, vai depressa chamar o Sr. Abade! - exclamou Carolina, precipitando-se para a mãe, que perdera os sentidos.

INOCENTE - Se o encontrar, que lhe hei-de dizer?

CAROLINA - Trá-lo aqui, depressa; diz-lhe que a mãe está muito mal.

Saindo precipitadamente, Inocente foi, a correr, chamar o abade.

- Olá! Inocente! - disse o pároco, num sorriso afável. - Que te traz por cá, meu rapaz! Precisas de mim?

INOCENTE - Venha depressa, Sr. Abade; a minha mãe está muito mal. A Carolina manda dizer que fosse já, já.

O pároco ergueu-se, pegou no chapéu e no bordão, e lá foi com Inocente, sem mais palavra. Poucos minutos depois, estavam à porta da tia Thibaut; o pároco entrou à frente, indo encontrar Carolina, ajoelhada, a rezar aos pés da cama da mãe; sentindo entrar o pároco, ergueu-se, fazendo-lhe sinal para se aproximar.

A tia Thibaut abriu os olhos e tentou falar, mas só pôde articular palavras entrecortadas:

- Minha filha!… Pobre Inocente!… Deus… não abandonará… Morro… Pobres filhos… Obrigada… Perdão.

O pároco mandou sair Carolina e Inocente, pôs-se de joelhos junto do leito da tia Thibaut, e falou em voz baixa; ela compreendeu por certo, pois o rosto voltou à sua calma; tentou fazer o sinal da cruz e juntou as mãos, elevando os olhos para o crucifixo, que estava na sua frente. O pároco foi continuando a falar e a orar, respondendo-lhe ela por sinais e palavras entrecortadas, e prolongou bastante esta conversa, que parecia consolá- la. Receoso de cansar a pobre enferma, quis o pároco afastar-se, mas o olhar suplicante, que ela lhe lançou, reteve-o junto do leito. Chamou Carolina, que chorava com Inocente na sala.

- A mãezinha está muito mal, minha menina; acaba de ter novo ataque. Que foi que o médico disse para fazer neste caso?

CAROLINA - O médico já cá não vem há muito tempo, Sr. Abade. Quando do primeiro ataque de que resultou a mãe ficar paralítica, disse ele que nada se podia fazer; que em caso de novo acidente, o que se devia era mandar chamar o Sr. Abade; e foi o que eu fiz.

ABADE - Receio, pobre menina, que o médico

tenha razão. De facto, não vejo que remédio a possa aliviar. Como sempre, ela está bem calma, muito resignada e conformada com a vontade divina; prometi-lhe que não vos abandonaria, e antes vos consolaria e ajudaria nos embaraços, que fatalmente ides ter. Bem conheço a coragem e a piedade de que a menina tem dado provas. Porque sempre teve confiança em Deus, Ele não a abandonará, como não abandonará o seu irmão.

Carolina só respondeu com soluços; ajoelhada aos pés do abade, recebeu deste uma bênção paternal e as melhores palavras de conforto, à mistura com lágrimas.

Inocente continuava a soluçar na sala onde se refugiara; mas as suas lágrimas eram mais por ver chorar a irmã, do que pelo estado da mãe, cuja gravidade ele não atingia. O pároco foi ter com ele e, passando-lhe afectuosamente a mão pela cabeça, aconselhou-o a não chorar para não agravar o desgosto da irmã.

INOCENTE - Sr. Abade, eu choro por vê-la chorar; não chorava se a visse satisfeita, pois não vejo outro motivo de choro. Mas, sempre queria saber porque é que estamos a chorar.

ABADE - A tua irmã chora por saber que a vossa mãe está mal, muito doente.

INOCENTE - A mãe está como sempre esteve, na cama.

ABADE - Mas cuida que ela vai morrer esta

noite, e é o que entristece a tua irmã.

INOCENTE - Não há motivo para tristeza. A mãe está sempre a dizer: Ai! Senhor, se me quisésseis levar desta vida! Que feliz eu não seria se morresse! Já não sofreria mais! Além disso, a mãe também me disse que, depois de morta, iria ter com Nosso Senhor, com a Santíssima Virgem, com os anjos… Até eu queria ir também. Sinto-me aborrecido quando a Carolina trabalha, e a mãe diz que lá no Céu nunca a gente se aborrece. Diga à Carolina que não chore; peço-lho, Sr. Abade; ela é-lhe tão obediente…

Sorrindo tristemente, o pároco aproximou-se de Carolina, à qual transmitiu as palavras do Inocente, e pediu-lhe que fizesse o possível por não chorar enquanto o pobre rapaz não estivesse a dormir.

Carolina olhou para a mãe e para o crucifixo, comprimiu as mãos cruzadas sobre o coração como para reprimir os sentimentos, e, indo de rosto calmo ter com Inocente, abraçou-o com muita ternura.

CAROLINA - Sou eu então a causa das tuas lágrimas, meu pobre irmão? Perdoa-me, que eu não torno a chorar. Olha, não vês como já estou calma… não vês?… Já não choro.

Inocente olhou para ela com atenção.

INOCENTE - É verdade; então já estou contente também. Não me posso conter! Tenho de chorar quando tu choras, e rir quando tu ris. Garanto que isto é superior a mim. É que gosto tanto de ti! Tu és tão bondosa!

CAROLINA - Obrigada, muito obrigada, meu amiguinho. Mas não achas que é já tarde? Deves estar cansado; são horas de deitar.

INOCENTE - E tu?

CAROLINA - Também me vou deitar, mas depois de preparar alguma coisa para a mãezinha.

INOCENTE - Falas a sério? Não vais ficar a péY

Não tornas a chorar?

CAROLINA - Podes estar descansado; vou dormir até às cinco da manhã. Vai, Inocente, vai, meu irmão; faz a oração da noite e deita-te.

- Não te esqueças de rezar pela nossa mãeacrescentou ela, abraçando-o.

Assim confortado, Inocente, que se sentia fatigado dos trabalhos do dia, seguiu os conselhos da irmã, indo para a cama, onde, minutos depois, dormia a sono solto.

Morte da tia Thibaut

Ao voltar para o quarto da mãe, Carolina encontrou o pároco a orar pelo descanso eterno daquela alma que acabava de comparecer diante de Deus, para receber a recompensa da sua piedade, do seu longo sofrimento e resignação. Esses padecimentos tinham durado alguns anos; mas a felicidade agora era para sempre.

Vendo a mãe sem vida, Carolina abafou um grito que se lhe escapava do peito e, caindo de joelhos, deu livre curso à dor e às lágrimas, que o seu sofrimento exigiam. Entendendo conveniente deixá-la expandir a sua dor, o pároco tomou-lhe a mão, depois de os soluços começarem a acalmar, e, fazendo-a ajoelhar diante do crucifixo que recebera o último olhar da mãe, disse- lhe com voz cheia de doçura e piedade:

- Querida menina, dê graças a Deus por terem acabado os sofrimentos da sua mãe; peça-lhe coragem para lutar contra o isolamento e as privações. Lembre-se de que Deus, tão bom, não a abandona e que, se lhe envia sofrimentos, é para resgatar as suas faltas e melhor recompensar a sua resignação, obediência e devoção.

CAROLINA - Bem sei, Sr. Abade, bem sei Mas, minha mãe, minha pobre mãe! Fico sozinha no mundo.

ABADE - Não, a menina não está só. Resta-lhe um dever, grande dever a cumprir; aquele que sua mãe lhe legou. A menina é agora o único amparo de seu irmão… A tarefa é dura; mas Deus a ajudará.

CAROLINA - Ah É verdade Resta-me o meu

irmão. O meu irmão. Deus me ajude, pois sinto-me fraquejar.

ABADE - Deus há-de protegê-la, minha filha. Nunca duvide da sua bondade e, sem discutir, aceite e agradeça o que ele lhe enviar.

CAROLINA - Assim farei, Sr. Abade. Faça-se a Sua vontade soberana e não a minha.

Depois de se ter esforçado por animar Carolina, disse-lhe o bom pároco:

- Querida menina, vou chegar depressa a casa, para lhe mandar aqui a velha Anica, visto a menina não poder ficar sozinha junto de sua mãe. Ela está habituada a velar e a vestir os defuntos. Voltarei cá de manhã cedo, e não precisa de se incomodar com o funeral, pois tomarei isso a meu cuidado. Não se inquiete com nada; ore por ela e por si e confie na misericórdia do Todo-Poderoso. Adeus, querida menina, até amanhã, Deus a abençoe, bem como a esta casa!

Lançando de novo a bênção à mãe e à filha, o abade saiu.

Ao ver-se sozinha, Carolina já não procurou conter- se. Não obstante a sua resignação à vontade divina, deixou-se arrastar pela violência da dor. Os gemidos e soluços acordaram Inocente, embora ela tivesse a precaução de fechar a porta. Ouvindo a irmã chorar, Inocente levantou- se, vestiu- se à pressa, entreabriu a porta de mansinho e viu Carolina dobrada sobre os joelhos, de rosto banhado em lágrimas, os olhos no crucifixo e as mãos juntas nos joelhos.

- Ó Carolina! - disse em tom de censura. Sem se levantar, Carolina enxugou precipitadamente os olhos.

- Enganaste-me, Carolina! Eu dormia por confiar na tua palavra… Carolina, tu estás desgostosa! Porque choras?

A irmã indicou-lhe com o dedo o corpo inanimado da mãe e disse em voz abafada:

- Morreu.

Inocente chegou-se à cama e olhou atentamente para a mãe, dizendo depois:

- Já não sofre, não! Não sofre… olha o seu rosto calmo… Tinha razão… Quando eu morrer - dizia ela - hei-de ser muito feliz; irei ter com Nosso Senhor, com a Santíssima Virgem e os anjos… Já vejo que é feliz… Olha, até parece sorrir.

E Inocente correspondeu ao sorriso que julgava notar, depois do que, voltando-se para a irmã, perguntou:

- Qual a razão do teu choro, se ela é feliz? Não gostas que o seja?

CAROLINA - Ó irmãozinho, pensa que nunca mais a veremos, nem lhe ouviremos a fala e já nada podemos fazer por ela.

INOCENTE - Podemos rezar, como disse no outro dia o Sr. Abade. Não tornaremos a ouvi-la gemer nem queixar- se, como também a não veremos sofrer mais. Preferes então poder olhar por ela do que sabê-la feliz?… É estranho! Cuidava que gostavas muito dela.

CAROLINA - É por gostar dela que choro a sua morte.

INOCENTE - É um amor bem curioso! Chorar porque a mãe é feliz sem ti! Chorar por ela já não sofrer ao pé de ti!

CAROLINA - Não é por nada disso, Inocente. Se me acontecesse morrer, tu não choravas por mim, lá por eu ser muito feliz junto de Nosso Senhor?

Depois de reflectir um pouco, Inocente respondeu:

- Talvez chorasse um bocado… talvez… mas a satisfação de te saber feliz e a certeza de ir um dia ter contigo serviam-me de consolação, enquanto esperava a minha vez de morrer.

- Este pequeno tem mais juízo do que nós todos, minha pobre filha - disse uma voz forte, que fez voltar Carolina e Inocente.

Era a Anica, que entrara havia pouco e se detivera a escutar a conversa de Inocente com a irmã.

- Tens razão, meu menino, lá isso tens; contudo, é bem triste nunca mais tornarmos a ver as pessoas da nossa afeição. É precisamente como um remédio; mau de tomar, mas de efeitos benéficos. E agora, vai para a cama, meu amiguinho; não temos que te dar a fazer, e estorvar-nos- ias em vez de nos ajudares.

INOCENTE - E a Carolina?

ANICA - Eu cuidarei dela; não te aflijas…

INOCENTE - Não a deixa chorar?

ANICA - Ah! Se te parece! Ainda queria ver se ela era capaz de chorar, depois do que tu lhe disseste!

Tranquilizado pelas palavras e pelo todo resoluto de Anica, Inocente, ainda mais satisfeito pela momentânea calma da irmã, beijou-a umas poucas de vezes e rogou a Deus que tornasse a mãe feliz.

- E a mim também, Senhor - acrescentou -, fazei-me feliz, bem como à mana Carolina e ao Sr. Abade, que é tão bom. Dessa forma seremos todos felizes, e a Carolina não terá razão para chorar.

Voltou para a cama, adormecendo tranquilamente.

Ao despertar, de manhã, foi ter com a irmã, e viu o quarto cheio de gente: espalhara-se a notícia do falecimento da tia Thibaut e acudiram as vizinhas, umas com pena, outras por bisbilhotice, mas bem poucas por caridade. A filha passara a noite em oração junto da mãe, que a Anica amortalhara num lençol branquinho.

Pálida, extenuada, triste e prostrada, Carolina recebia reconhecida, mas sem dar resposta, os testemunhos de verdadeira ou fingida simpatia das vizinhas. Umas falavam com volubilidade; outras só a irritavam com as consolações que apresentavam.

- Que vai agora fazer ao seu irmão? - perguntou uma dessas mulheres. - Ele vai estorvá-la na vida. Se o metesse no asilo?

- Isso nunca! - respondeu Carolina, pondo-se de pé junto ao leito da mãe, ao qual se apoiava.

- Nunca! Prometi a minha mãe que nunca abandonaria o meu desditoso irmão, e não conto faltar à promessa.

- É muito lindo, na verdade - replicou a Anica, com ar descontente -, mas agora, como se há-de arranjar para o alimentar? Podem viver ambos com o fruto do modesto trabalho de Carolina?

- Deus proverá, e a mãe não deixará de pedir por nós.

- A moça é cabeçuda - disse a mulherzinha -, mas veremos como se há-de arranjar.

- Nem sempre há-de ser com o trabalho - disse alguém, que fez voltar a cabeça a Carolina e a Ino cente.

- Por que motivo não há-de ser sempre pelo trabalho que a minha irmã há-de arranjar a sua vida?

- perguntou Inocente, avançando para Rosa, pois fora ela quem proferira tais palavras.

- Vai perguntá-lo à Sr. a Delmis, se o queres saber, meu garoto.

Carolina já não ouvia; voltara a ajoelhar-se junto ao cadáver da mãe.

Inocente, porém, algo intrigado com as palavras da Rosa, olhou uns momentos para a cara falsa e maliciosa dela e, deslizando para a porta, entreabriu-a e desapareceu. Indo a casa da Sr. a Delmis, pediu para lhe falar. Mandaram-no entrar para o quarto dela.

SR.a DELMIS - Então, que desejas, meu rapaz?

- perguntou ela, interessada.

INOCENTE - Venho perguntar à senhora o motivo por que minha irmã não poderá viver do seu trabalho.

SR.a DELMIS - Não compreendo, Inocente.

torna a dizer. Porque me vens fazer tal pergunta? INOCENTE - Foi a Rosinha que me disse para o

vir perguntar à senhora, pois, se assim não fora, eu não me permitia vir aqui incomodá-la.

SR.a DELMIS - A Rosinha? Que ridícula brincadeira! Onde está a Rosa? Onde a viste?

INOCENTE - Está em nossa casa, minha senhora;

está lá com todas as velhotas do bairro.

SR. A DELMIS - Porque têm lá uma reunião de

velhotas?

INOCENTE - Vieram ver o que faz e diz Carolina

junto ao cadáver da mãe.

SR.a DELMIS (surpresa) - Junto ao cadáver? Então… a tua mãe morreu?

INOCENTE - Morreu esta noite, minha senhora.

SR.a DELMIS (sempre admirada) - E não sentes pena com a morte de tua mãe?

INOCENTE - Sinto, sim, minha senhora; mas por

outro lado até estou satisfeito.

SR.a DELMIS (indignada) - O que tu dizes é

abominável! Pois quê? Não gostavas de tua mãe, tão boa para ti?

INOCENTE - Peço desculpa, senhora; é justamente por gostar muito dela que me sinto contente por não mais a ver sofrer e a saber feliz.

SR.a DELMIS - Mas não a tornas a ver!

INOCENTE - Peço desculpa, senhora, mas vê-la-ei no outro mundo. Ouvi dizer que nos tornávamos a encontrar depois da morte para nunca mais nos deixarmos, sempre felizes, sem mais sofrimento de espécie alguma. Já vê a senhora que seria bem ingrato da minha parte afligir-me com a felicidade da mãe. Quem me dera ir ter com ela!

SR.a DELMIS (em ar pensativo) - Pobre criança…

Talvez tenhas razão… E Carolina?

INOCENTE - Sinto dizer-lhe que Carolina ficou a chorar… Não lhe deve querer mal por isso; talvez ela não tenha bem a certeza de que a mãe é feliz… Bem sabe a senhora que Carolina, sempre a trabalhar, não tem grande tempo para reflectir. Além de que lá estão aqueles diabos das bisbilhoteiras a zumbir-lhe não sei o quê aos ouvidos. E o Sr. Abade ausente e a Rosinha a dizer-lhe das boas!… Nem me lembrava! Deixa-me correr em socorro de Carolina. A Rosinha tem medo de mim; bem sabe que eu não me fazia rogado para lhe dar uma bofetada, se incomodasse minha irmã.

SR. A DELMIS - Espera por mim, Inocente; quero acompanhar-te. Não sabia da morte da tua pobre mãe.

E seguiu com Inocente para casa de Carolina, onde deu com Rosa, a tagarelar num grupo de mulheres; acercando-se dela, perguntou se ali é que era o mercado.

ROSA - Vim dar os pêsames à Carolina, minha senhora, em vista deste triste acontecimento.

- Bonitos pêsames! - exclamou a velha Anica, indignada. - Não dizia senão tolices, e até a ameaçava de lhe tirar as freguesas!

ROSA - Eu? É lá possível! Jesus Senhor!

ANICA - Tanto é possível, que assim é. Está para aí há meia hora a dizê-las de tal calibre, que nem sei como a maldade lhe não secou ainda a língua. Mas não é você, sua malvada, quem prejudicará uma menina piedosa e honesta como Carolina.

ROSA - Espero que a senhora não dê ouvidos às falsidades desta velha.

ANICA - Velha é você! Ora a atrevida a lançar o veneno aos outros! Tem para dar e vender, minha linda! Mas não é a mim que ele há-de fazer mal. Comigo não pega.

SR.a DELMIS - Por favor, cale-se, amiga Anica!

Discutir dessa forma no quarto da morta! É demasiada crueldade para a infeliz Carolina. E tu, Rosa, põe-te já a andar e não voltes a pôr aqui os pés.

ROSA - Respeito demasiado a senhora para deixar de cumprir as suas ordens. Não tenho vontade nenhuma de vir fazer as papas do idiota nem de limpar as lágrimas da irmã.

- Meu irmão, meu pobre irmão! - exclamou doridamente Carolina, segurando Inocente, prestes a arremeter contra Rosa.

- Saia já! - disse autoritariamente à criada a Sr. a Delmis, agarrando- a por um braço e levando-a para a porta.

Não se atrevendo a resistir à patroa, Rosa foi-se embora.

- Sinto muito o que acaba de se passar, querida Carolina - disse a Sr. aDelmis, tomando-lhe as mãos. - Chegando a casa, passarei à atrevida um severo raspanete. E, se a tornar a ofender, ponho-a na rua.

CAROLINA - Suplico-lhe, minha senhora, que

lhe perdoe; a pobrezinha ainda estava irritada por uma altercação que teve com Inocente, mas no fundo não há ali maldade; foi um repente, que lhe há-de passar… Peço também à senhora que me continue a favorecer com as suas ordens, para a senhora e para os meninos.

SR. A DELMIS - Mas com certeza, minha querida Carolina; acabo de adquirir vestidos de verão e estou

a contar com Carolina para mos fazer, o mais breve possível.

- Vou dar-lhes começo, uma vez acabada a cerimónia do enterro, minha senhora - disse Carolina, a limpar as lágrimas irreprimíveis -, e pode contar com toda a minha aplicação.

Chegava o abade. Depois de ajoelhar junto do cadáver, foi ter com a Sr. a Delmis, suplicando-lhe que continuasse a proteger os dois órfãos, e ficando a conversar uns segundos com ela. A Sr. a Delmis quis levar consigo Carolina, que se opôs tenazmente a abandonar a mãe, enquanto lha não viessem tirar para sempre.

Dispersou a multidão. Para evitar as visitas importunas dos curiosos, Carolina fechou a porta, ficando apenas com Inocente e Anica, que a ajudaram a pôr a casa em ordem. Após uma noite dolorosa, de vela ao cadáver da mãe, aimda tiveram, Carolina e Inocente, de assistir à impressionante cerimónia do enterro. De volta à casa deserta, Carolina chorou deveras, não podendo o próprio Inocente impedir-se de chorar também. Contudo, foi ele quem animou a irmã, repetindo os argumentos da véspera.

- Temos bastante serviço, irmãzinha - disse quando a viu mais serena - roupa a lavar, coisas da mãe para arrumar; e depois… os vestidos da Sr.a Delmis para arranjar.

Vingança de Rosa

A obra ficou pronta no fim da semana. Carolina foi entregá-la à Sr. a Delmis acompanhada por Inocente, que era portador do embrulho. A primeira cara que viram foi a de Rosa, que lhes disse em tom de voz seca e impertinente:

- Que desejam? Que vêm pedir? A senhora não dá mais esmolas; tem muitos pobres a quem as dar.

CAROLINA (com brandura) - Nós não vimos pedir esmola, Rosinha; o meu irmão vem ajudar-me a trazer os vestidos que a senhora mandou fazer. Tenha a bondade, menina, de a prevenir de que os venho trazer, e que desejava provar-lhos, a ver como lhe ficam.

ROSA (em tom brusco) - Deixe ficar isso aí; a senhora está agora ocupada e não precisa da menina para ver como lhe ficam os vestidos.

CAROLINA - Quando posso vir receber, Rosinha?

ROSA - Tem muita pressa, já vejo. Supõe-se então a única pessoa a receber?

CAROLINA - Não, mas é que tive de pagar as despesas do funeral de minha mãe, com o que gastei todas as economias que possuía.

ROSA - Ora vejam no que dá o orgulho! A

menina quis fazer de rica; muitas velas, missa cantada, tudo à grande, e agora, sem pão para comer, lembrar-se de vir bater à porta dos patrões, sem

mesmo lhes dar tempo de ver como ficou a obra.

Carolina não deu resposta; chamou pelo irmão

abriu precipitadamente a porta e afastou-se a passo

rápido, supondo-se seguida por Inocente; mas este

irritado pelos modos insolentes de Rosa e tendo lido

no rosto contraído de Carolina que a irmãzinha fora

gravemente insultada, em lugar de a acompanhar, pegou num balde de água gordurosa que ali estava, e, chegando-se a Rosa, que lhe voltara desprezativamente as costas, enterrou-lho na cabeça, encharcando-a de água suja da cabeça aos pés. Depois desta façanha, abriu rapidamente a porta da cozinha, sem estrondo, e foi ter com a irmã a correr.

Quase sufocada pela água, Rosa conseguiu libertar-se do balde, e olhando à sua volta, espantada e

raivosa, encontrou-se sozinha. Correu e abriu a

porta, mas não viu ninguém. Julgando que o seu

algoz se tivesse escondido em casa, encetou logo as

suas buscas, correndo de quarto em quarto, até que

chegou à sala de visitas, onde se encontravam os

patrões com alguns amigos a conversar.

À vista de Rosa enfurecida, encharcada, a escorrer água gordurenta e fétida, levantaram-se todos, perguntando com certo terror:

- Então que foi? Que aconteceu?

ROsA - Que bandido! Que miserável! Ando à

cata do malandro, desse patife que me encharcou.

Onde está ele? Viram-no por acaso? Onde se escondeu? Procurei-o em vão por toda a casa.

SR.a DELMIs - Endoideceste, Rosa? Em que estado te puseste! De que bandido é que falas?

ROSA - Do que me enfiou um balde pela cabeça abaixo Ah!, Que se o encontro, parto-lhe os dentes! Faço-o tomar banho na panela!…

SR. DELMIS - Ora vê se te calas! Já basta de tolices! Vai já mudar de roupa; estás-me a emporcalhar os móveis e o chão.

Começando a retomar a serenidade, e vendo que o patrão se mostrava deveras descontente, nada compreendendo desta partida que ela não explicava bem, Rosa calou a boca e foi-se lavar e vestir, ficando tanto mais abespinhada quanto é certo não saber a quem atribuir a gracinha. Ainda desconfiou de Inocente; mas, não o vendo a seu lado e julgando-o demasiado tacanho para entender as impertinências que ela dissera à boa da Carolina, convenceu-se de que ele partira com a irmã, não lhe reconhecendo engenho para se vingar tão habilmente, nem destreza para se esquivar tão de pronto, que ela não o visse. Preferiu supor que alguém se tivesse introduzido na cozinha atrás de Carolina, e se escondesse na casa, talvez até na própria cozinha, e se raspasse enquanto ela lhe andava na peugada, de quarto em quarto. Lançou todo o seu rancor sobre a pobre Carolina, e resolveu começar imediatamente com as suas vin ganças; para tanto, ocupou- se durante parte da noite em cortar e coser de novo os vestidos da Sr. a Delmis, estreitando-os para não lhe poderem servir.

No dia seguinte, falou-lhe a Sr. a Delmis do despropósito da véspera, e Rosa explicou-se calma e suavemente. Não podendo impedir-se de rir com a história da irritação da criada, perguntou-lhe, para mudar de assunto, se a Carolina ainda não trouxera a obra.

ROSA - Acaba de a trazer agora mesmo, minha senhora. Se deseja, levo-lha ao quarto.

SR.a DELMIS - Pois sim; quero experimentar o vestido, embora não seja preciso, pois a Carolina é cuidadosa e hábil; está sempre tudo bem. Lá quanto a isso, a verdade se diga: é uma costureira incomparável!

Quando lhe foram levados os vestidos, a Sr. a Delmis experimentou um deles; as mangas não entravam e a cava era estreita.

SR.aDELMIS - Ó Rosa, vê isto; o braço não

entra na manga, que está muito apertada.

ROSA - Pensa isso? É talvez a fazenda que não dá de si. Se puxar um pouco…

SR.a DELMIS - Puxo quanto posso, mas não vai. Se puxasse mais, rebentava a costura.

ROSA - E é verdade! Tem razão, minha senhora. Como demónio foi isso? Carolina, que trabalha tão bem, que nunca lhe estragou nada!

SR.a DELMIS - Deixa-me experimentar o outro. Esperemos que me fique melhor.

ROSA - A senhora bem pode imaginar que a Carolina não lhe ia estragar logo dois vestidos.

A Sr. a Delmis experimentou.

SR.a DELMIS - Ora ainda bem! Neste ao menos

as mangas entram bem… Ah! Céus! O peitilho não une à frente! É impossível abotoá-lo.

ROSA - Carolina enganou-se nas medidas, pela certa. Ou não seria ela quem fazia os vestidos em vida da mãe?

SR.a DELMIS - Quem havia então de ser?

ROSA - Já me tinham dito que era a mãe que cortava e alinhavava os vestidos, limitando-se a Carolina a cosê-los. Sempre julguei falsas essas afirmações; mas, a julgar pelo que sucede com os vestidos da senhora, sou obrigada a concluir que me tinham falado verdade.

SR.a DELMIS - Porque não me avisaste? Só lhe teria dado a fazer um vestido, para ver como ficava. Aposto que os demais também não servem. A culpa será tua, Rosa; estou muito descontente com a tua reserva.

ROSA - Minha senhora, diz-se tanta coisa que não é verdade! Se fôssemos a dar crédito a tudo o que se diz, e a repeti-lo por toda a parte, prejudicar-se-ia muita gente, que tem necessidade de ganhar o seu pão. Não gosto de Inocente, que é estúpido e grosseiro; mas não desgosto de Carolina, e não iria aproveitar-me da sua infelicidade para lhe fazer perder as boas graças da senhora e o seu ganha-pão. A senhora tem sido tão boa para com ela! À senhora é que ela deve todas as suas freguesas.

SR.a DELMIS - Não há dúvida que me saiu muito reconhecida, estragando- me dois vestidos!

ROSA - Talvez os outros estejam bem. Mas a senhora não os pode provar, visto Carolina os ter ainda em casa.

SR.aDELMIS - Mas estes? Como se há-de consertar uma coisa demasiado estreita?

ROSA - A senhora ainda tem o pano que cresceu, do qual pode fazer novos peitilhos e mangas novas.

SR.a DELMIS (encolerizada) - E comprar novos vestidos, não? Cala-te, Rosa; fazes-me perder a paciência com a tua vontade de querer desculpar uma pateta que me enganou fazendo-me crer que sabia trabalhar, quando era a mãe que lhe fazia o mais difícil. Vai-me chamar Carolina.

Rosa não se fez rogada, deitando a correr para casa da costureira.

- A minha patroa manda-a ir lá - disse ela, com ar triunfante e escarninho.

É, com certeza, para me pagar - pensou Carolina, que para ali se dirigiu sem dizer palavra.

- Carolina perdeu a língua! - continuou Rosa

zombeteiramente.

A interpelada lançou-lhe um olhar triste e digno, replicando serenamente:

- O que a menina me dizia não requeria resposta.

Rosa não se atreveu a responder; a suavidade e

tristeza de Carolina ocasionaram-lhe um certo remorso, e as olhadelas terríveis de Inocente faziam recear um ataque em forma.

A primeira a sair foi Carolina. Rosa seguia-a de

largo, preferindo não assistir à cena que supunha ir

passar-se entre a patroa e Carolina.

- A senhora mandou-me chamar? - perguntou

Carolina, entrando em casa da Sr. a Delmis.

SR.a DELMIS (com uma cólera reprimida) - Sim, mandei-a chamar; não calcula porquê?

CAROLINA - Suponho que seja para me pagar, como pedi por intermédio da Rosinha. Sinto incomodar a senhora, mas a morte da minha pobre mãe obrigou-me a despesas, que me levaram as minhas parcas economias, e conto agora com a senhora, que

sempre foi tão bondosa comigo.

SR.aDELMIS - Sim, na verdade; e a menina

paga-me desonesta e ingratamente. Tem razão em vir

receber; é o último dinheiro que recebe de mim…

Aqui tem o que lhe estava a dever antes destes vestidos de agora, que lhe não pago, e peço que me

devolva os que lá tem a fazer.

Carolina ouvia a Sr. a Delmis com uma surpresa

crescente. Estava muda e interdita, procurando explicação para tal descontentamento. Lá se via sobre a

mesa o dinheiro, sem que ela fizesse o mais leve

movimento para falar nem para pegar nele, pois não podia conceber arrecadar o que não lhe era devido. Erguendo os olhos, a Sr. a Delmis ficou comovida

com a expressão de dor estampada no rosto da infeliz menina.

- Leve o seu dinheiro - replicou ela, mais suavemente -; não digo que não lhe pague nunca o trabalho dos últimos vestidos, mas é preciso que a menina os arranje, pois não os posso vestir tal como estão… Mas fale, menina; está-me aí muda como uma estátua.

CAROLINA - Peço desculpa, minha senhora… é que… estou espantada… não compreendo a censura que me faz. Em que pude eu desagradar-lhe?

SR.a DELMIS - Fazendo-se passar por aquilo que

não é, e continuando a receber as minhas encomendas após a morte da sua mãe.

Redobrou a surpresa de Carolina.

CAROLINA - Mas… foi a senhora que mandou lá fazer os vestidos… Após o falecimento de minha mãe preciso, mais do que nunca, de trabalhar… Não posso entender as censuras da senhora.

- Censuro-a de me haver estragado os vestidos, que estão horríveis - exclamou a Sr. a Delmis, com impaciência - e de não me ter prevenido de que era a sua mãe quem cortava, e que a menina apenas sabe coser a obra já preparada.

CAROLINA - A senhora ouviu dizer isso e acreditou! E contudo conhece- me há três anos! Sem embargo, foi acreditar nessa calúnia!… Não pergunto quem me caluniou, pois bem o adivinho. Só o que digo é que nunca a minha falecida mãe pôs a mão na minha costura, pois nem tinha força para segurar a tesoura. Toda a obra que entreguei à senhora, e com que ficou tão satisfeita, foi minha e só da minha

mão… Bem pode calcular que eu não lhe exigirei o dinheiro que me recusa, apesar de ganho honestamente… Tenho a honra de lhe apresentar os meus respeitos ao deixá-la para nunca mais aqui voltar, agradecendo mais uma vez as amabilidades que teve comigo e com a minha falecida mãe.

A Sr. a Delmis ficou, por sua vez, muito surpreendida com as palavras calmas e dignas de Carolina, que se retirou antes de ela a poder reter.

Explicações

No regresso encontrou Rosa, que lhe deu os bons- dias, com ar de troça. Sem olhar para ela, Carolina foi andando e, ao entrar em casa, fechou a porta, e foi ajoelhar-se aos pés da cama vazia da mãe onde rompeu em soluços. Admirado, Inocente perguntou-lhe:

- Porque choras dessa maneira, Carolina? E tentava consolá-la.

CAROLINA (estremecendo) - Estás aí, Inocente?

Eu julgava-me só.

INOCENTE - Diz lá, irmãzinha, porque choras assim?

CAROLINA - Porque a Sr.a Delmis cuida que a

enganei, que não sei trabalhar, que lhe estraguei os vestidos e que era a nossa mãe que cortava. Diz que não me paga o trabalho de toda a semana passada e que não me dá mais serviço.

INOCENTE - É então por isso que tu choras? No

entanto, bem sabes que tudo isso é mentira!

CAROLINA - Pois sim, mas custa muito ser-se

caluniada, quando se é séria.

INOCENTE - Sim, É curioso eu de mim não me

incomodo nada com isso. Quando me disseram uma

vez: Ó Inocente, tu foste às maçãs; faltam-me lá

muitas, eu pus-me a rir, e disse: não roubei coisa

nenhuma; procurem noutra parte o ladrão, pois eu é

que não fui. Se a Sr.a Delmis me dissesse: Ó Inocente, tu cavaste mal a horta; as ervilhas não querem aparecer… eu responder-lhe-ia, sem perturbação:

minha senhora, a cava foi bem feita; se as ervilhas

não nascem, desconfie da Rosinha que, naturalmente, pregou alguma partida. E se me chamasse mau e ingrato, eu responder-lhe-ia sem me afligir:

Engana-se, minha senhora, pois eu sou bom e reconhecido; quem deveria envergonhar-se era a senhora, de ter assim tão maus pensamentos. Se queres, irmãzinha, eu vou dizer à Sr.a Delmis que tu és honesta, que trabalhas na perfeição, que não lhe

estragaste os vestidos, e que, não te pagando o teu

trabalho, é uma caloteira; que, não te dando mais

trabalho, o pior é para ela. Queres que lho vá dizer?

Chego lá num pulo.

CAROLINA - Isso não, Inocente; por favor, não

lhe digas nada; deixa-a lá com o dinheiro. Não me

faltarão freguesas; tenho até de mais. Tenho ainda, para acabar, vestidos e roupa de baixo para a esposa

do adjunto, para a professora e ainda para outras

pessoas.

INOCENTE - Então não choras mais, pois não?

CAROLINA - Não; está prometido. Mãos à obra!

INOCENTE - Ora, ainda bem! Sabes que o

Sr. Abade nos diz que devemos receber de cara alegre o que Deus nos envia. Por mim, estou sempre

contente…

CAROLINA (sorrindo) - Excepto quando te

aborreces à beira da roupa suja.

INOCENTE - Ah!, É verdade que estúpido que

fui dessa vez… mas… reflecti depois, e garanto- te que não perdi o meu tempo.

Inocente a falar e alguém a bater à porta.

- Entre - disse Carolina. - Olha, é o Tomás!

TOMÁS - Peço desculpa, menina; venho do

mando da Sr. a Grébu, a esposa do Sr. adjunto, buscar

os vestidos dela.

CAROLINA - Nem sequer os comecei ainda, Tomasinho; mas vou já tratar deles.

TOMÁS - Não, não é isso, menina; a Sr. Grébu

manda-me levar a fazenda dos vestidos; bem sabia

que a menina ainda não tivera tempo de os acabar.

CAROLINA - Então não quer que lhos faça?

TOMÁS - Assim parece, menina.

CAROLINA - E não sabes a razão?

TOMÁs - Isso não sei. Ia a passar diante da casa

da mulher do Sr. presidente da Câmara, quando fui

chamado pela Sr. a Grébu, que estava lá. Aproximei- me e ela disse-me: Ó Tomás, corre já a casa da

Carolina e pede-lhe os meus vestidos; que tos entregue no estado em que estão, acabados ou por acabar, com todos os retalhos. Quem dera que ela ainda os

não tivesse principiado!

CAROLINA - E a Sr. a Delmis estava com ela?

TOMÁS - Isso não vi; só lá estava a rir-se a

Rosinha; mas ria com tanto gosto, que até eu me pus

a rir, só de a ver. E vin a correr e a rir.

CAROLINA - Bem, Tomasinho. Ó Inocente, vai

ao armário grande do quarto, e traz os bocados de lã

que lá estão; trá-los embrulhados num papel cinzento que está em cima do armário, e entrega-os ao

Tomasinho; olha, não te enganes.

Com a pressa de obedecer à irmã, Inocente foi ao armário, tirou os vestidos depois de bem os examinar, embrulhou-os no papel e fez deles entrega a Tomás.

- Adeus, menina - disse Tomás, com o embrulho nas mãos. - Boa tarde, Inocente.

Mais uma maldade de Rosa - pensou Carolina. - Contanto que me não faça perder assim toda a minha freguesia!

Como tinha muito mais a fazer, Carolina foi, após uns momentos de reflexão, buscar roupa branca para passajar. E a primeira coisa que lhe deu na vista, ao abrir o armário, foi o embrulho dos vestidos da Sr. Grébu.

- Inocente, ó Inocente! - exclamou ela, aterrada. - Que foi que tu deste ao Tomasinho? Encontro aqui no armário a obra da Sr. a Grébu!

INOCENTE - Dei os vestidos em bocados, como

mo ordenaste.

CAROLINA - Mas que vestidos? Eu não tinha

outros; são estes.

INOCENTE - Não foram esses que eu dei, pois esses são novos e os que eu dei eram velhos, aqueles que meteste aqui noutro dia, por estarem em retalhos e não poderem servir para nada.

CAROLINA - Que é que foste fazer! São capazes de supor que os quis roubar. Corre, Inocente; corre atrás de Tomás e volta com ele dizendo- lhe que te enganaste, que os vestidos estão em meu poder.

INOCENTE - Eu vou, irmãzinha, eu vou. Nada de aflições! É uma fatalidade Carolina dizer sempre uma coisa por outra e, depois, o estúpido sou eu!

Assim pensava Inocente enquanto ia correndo. Mas por mais que se despachasse, não conseguiu alcançar Tomás, que chegara antes dele. Ao desembrulhar o pacote, a Sr. a Grébu soltou um grito, dizendo:

- Veja, minha amiga, veja o que ela me envia em lugar dos meus ricos vestidos novos.

Isto dizia ela à Sr. a Delmis, mostrando-lhe três velhos vestidos, em farrapos, que exibia indignada.

SR.A DELMIS - É incrível, isso! É caso para a

mandar prender. Sr. Delmis - prosseguiu -, chegue aqui num pulo; venha, que o caso é urgente.

- Então que foi? - perguntou ele, saindo do seu gabinete de trabalho.

SR. A GRÉBU - O que há é que tenho de mandar já prender a Carolina Thibaut por ladra; guardou

dois vestidos já cortados que lhe dera para fazer, e aqui tem o que me envia em lugar deles.

SR. DELMIS - É impossível! Há-de haver qualquer engano.

SR.a GRÉBU - Que engano pode haver? Pedi-lhe a devolução dos meus vestidos e eis o que recebo. Esta é forte!

SR. DELMIS - Precisamente por ser demasiado

forte é que eu digo que deve haver equívoco.

SR. A DELMIS - És sempre assim; não dás ouvidos

a ninguém, não acreditas em ninguém; no mundo só tu tens juízo; os outros são todos parvos. Eu sustento que houve um roubo e intimo-te, como autoridade, em nome da minha amiga, e esposa do adjunto, a mandares já prender a ladra, que se permite querer ficar com os vestidos da Sr. a Grébu.

Um sorriso, acompanhado de um encolher de ombros, foi a resposta da autoridade. Quando ia a responder, chega Inocente esbaforido, seguido, ou antes, agarrado por Rosa, que o retinha com todas as forças, e de quem ele procurava desembaraçar-se a pontapé e a murro.

As duas mulheres soltaram um grito, seguido de

vários outros.

- Assassino! Assassino! É o irmão da ladra. Está

a esganar a Rosa! Quem acode!

- Calem-se lá - ordenou o Sr. Delmis. - Estão

a sobressaltar a cidade.

- É isso mesmo que nós queremos, visto que te

falta coragem para deter os criminosos - concluiu a

Sr.a Delmis.

- Cale-se, Rosa; largue Inocente e deixe-o falar!

Que queres, meu rapaz?

INOCENTE - Foi a minha irmã que me mandou dizer ao Sr. Presidente que ela se explicou mal, como

lhe sucede tantas vezes comigo. Eis o que me disse:

Vai ao armário, e traz os vestidos já cortados, da

Sr.a Grébu>>. Em face disto, eu entendi que vestidos

cortados eram vestidos em bocados, não é assim, Sr. Presidente?

- Continua, Inocente - disse-lhe o presidente, sorrindo, pois já começava a compreender tudo.

INOCENTE - Pego nos vestidos mais rotos, como

ela me dissera, embrulho-os em papel cinzento, como também me ordenara, e dei-os ao Tomás, sempre

na conformidade das ordens dela. Vai senão quando, depois de ficar um momento como uma estátua, sem

mexer, sem rir, muito pálida, dirige-se para o armário

e exclama: Ai, meu Deus! Tu que fizeste, ó Inocente? Por Deus! Cá estão os vestidos! Inocente, corre depressa. Que vão elas dizer! Talvez julgarão que…

Diz que te enganaste! Que os vestidos estão aqui em

casa… E não sei que mais de ladra… de Tomás… de

alcançar. E então, Sr. Presidente, eu deitei a correr, a

correr, mas o Tomás correra mais do que eu. E

então, ainda para mais, não me vem aquela Rosa

impedir a passagem, a dizer: Não passarás!

Ah! Isso é que entro - respondi. - Isso é que não, - repete. Isso é que sim. Ela agarra-me pelo casaco, e eu atiro-lhe um pontapé; ela responde com um soco. mas que valente murro. Consigo escapar- lhe, servindo-me das mãos e dos pés, só para obedecer à minha irmã, e cá estou.

O presidente, muito divertido com a narração de Inocente, voltou-se para as senhoras, dizendo:

- Qual de nós tinha razão?

Voltando-se depois para Rosa, que ficara à porta, vermelha e arquejante, disse:

- Se voltar a fazer o que fez hoje, Rosa, será imediatamente despedida.

E dirigindo-se a Inocente:

- Leva o embrulho, meu rapaz, e diz à tua irmã que não se aflija, que devolva à Sr. a Grébu o que lhe pertence, e que, se precisar de mim, estou pronto a prestar-lhe qualquer serviço. Tu és um belíssimo rapaz, muito bom… muito honrado. Diz à Carolina que me interesso muito por ambos.

Contentíssimo, Inocente cumprimentou o presidente, a esposa deste e a Sr. a Grébu.

- As senhoras têm ordens a dar-me? - perguntou ele, com a sua maior amabilidade.

- Vai-te embora, e não ponhas mais os pés em minha casa - foi a resposta da Sr. a Delmis.

Inocente olhou para ela, admirado e, sem dizer nada, foi-se embora, depois de uma derradeira sau dação ao presidente.

- Que mal vos fez este pobre Inocente? - perguntou, sorrindo, o presidente.

SR.a DELMIS - Fizesse o que fizesse; não é nada contigo. Não vale mais que a irmã.

SR. DELMIS - Eu julgava a irmã dele da tua

predilecção; tens-lhe dado a fazer todos os vestidos…

SR.a DELMIS - Dei, dei, mas já não dou.

SR. DELMIs - Então, porquê? Será por ter perdido a mãe e por necessitar, agora, mais do que nunca, de ganhar a vida?

SR.a DELMIS - Foi por me estragar os últimos vestidos, de forma a não poder vesti-los.

SR. DELMIS - Pensava que ela trabalhava lindamente.

SR.a DELMIS - Sim, na verdade; enquanto a mãe viveu, pois era ela quem trabalhava e cortava o pano.

SR. DELMIS - Quem foi que te disse isso?

SR.a DELMIS - Foi a Rosa.

SR. DELMIS - Ah! Ah! Foi a Rosa. E como o

soube ela?

SR.a DELMIS - Soube-o por lho terem dito, e acreditou-o depois que viu tão mal feitos os meus últimos vestidos.

SR. DELMIS - Quem trouxe para prova os teus

vestidos?

SR.a DELMIS - A Rosa.

SR. DELMls - Desde quando os tinha ela?

SR.a DELMIS - Havia uns cinco minutos.

SR. DELMls - Ah!… Então o caso muda de figura!

SR.a DELMIS - Que queres dizer com isso?

SR. DELMIS - Pensava que, se os tivesse recebido na véspera, os teria descosido e estragado, só por ódio a Carolina, que ela não pode ver.

SR.a DELMIS - Não pode ver? Pelo contrário, estima-a muito. Ainda mo disse esta manhã. SR. DELMIS - Ah! Sim? Enquanto ia fazendo Carolina perder-se no teu conceito! Os meus relatórios policiais afirmam claramente que ela a detesta e que é má bisca. Estás bem certa de que os vestidos não foram trazidos de véspera?

SR.a DELMIS - Foi ela quem mo disse; não tirei outras informações, como bem podes crer.

O Sr. Delmis não disse mais palavra e, saudando a Sr. a Grébu, voltou para o gabinete.

Ficando sós, as duas senhoras entreolharam-se.

- Qual é a sua opinião acerca disto? - perguntou, por fim, a Sr. a Grébu.

SR. A DELMIS - Não sei… nem sei que pensar do caso. Mas olhe; façamos uma coisa: peguemos nos vestidos e vamos mostrá-los a Carolina, a título de os mandar consertar.

SR.a GRÉBU - Ora, nem mais; vamos lá então.

Fazendo um embrulho dos dois vestidos, a Sr. a Delmis lá foi acompanhada pela Sr. a Grébu. Ao ver entrar as duas senhoras, Carolina, surpresa e aterrada, ergueu-se precipitadamente.

SR.a DELMIS - Nada receie, Carolina; esta manhã ouvi dizer que a menina não sabia confeccionar vestidos, pois era a sua falecida mãe quem os cortava; cheguei a crê-lo ao ver que me não ficavam bem os vestidos que me mandou, e que agora lhe trago para a menina ver se os pode arranjar.

CAROLINA - Muito obrigada, senhora; eu não me atrevia a pedi-los, depois do que a senhora me disse esta manhã.

E, desembrulhando o pacote, examinou os dois vestidos.

CAROLINA - Os peitilhos e as mangas sofreram retoque, minha senhora; foram cortados.

SR.a DELMIS - Como é isso possível, se os provei

cinco minutos depois que a menina mos levou?

Carolina pareceu muito surpreendida.

CAROLINA - Dá-me licença que lhe pergunte quando foi que os experimentou?

SR.a DELMIS - Esta manhã, às dez horas.

CAROLINA - Pois eu levei-lhos ontem, antes das quatro da tarde.

SR.a DELMIS - Eu estava em casa; porque não mos entregou pessoalmente?

CAROLINA - A Rosinha não quis, alegando que a senhora estava ocupada.

- É deveres estranho! - disse a Sr. a Delmis. CAROLINA - A senhora quer ver? Cá estão as costuras desfeitas e os sinais de corte do pano. Veja a senhora como está mal cosido. Não é meu costume entregar a obra tão mal acabada.

SR.a DELMIS - Lá isso é verdade. O seu trabalho

é sempre cuidado e meticuloso.

CAROLINA - Querendo deixar os vestidos, tratarei de os consertar, aplicando-lhes retalhos, o melhor possível. Simplesmente, pedir-lhe-ei o favor de se dar ao incómodo de vir prová-lo aqui.

- Muito bem, sim senhora - disse, sorridente, a Sr. a Delmis. - Já adivinho o que a menina receia… Ó Inocente, a Rosa gosta da tua irmã?

INOCENTE - Não, minha senhora; pelo contrário: não a pode ver.

SR. A DELMIS - Então, porquê, e desde quando?

Inocente contou então à Sr. a Delmis o caso do vestido, a cólera da Rosinha, as suas ameaças a respeito dos vestidos feitos pela irmã. Surpreendida, a Sr. a Delmis ouvia a narração, ora rindo das ingenuidades de Inocente, ora indignada com a maldade de Rosa.

SR.a DELMIS - Eu tratarei de impedir que se repitam esses actos de malvadez, minha pobre Carolina. Vou ralhar-lhe quando chegar a casa.

INOCENTE - A senhora quer que a ajude?

SR.a DELMIS (rindo) - Não, Inocente, não; o que lhe vou dizer só eu o posso fazer. Dir-lhe-ei que trate de arranjar outra casa, se quer continuar com as suas maldades.

E, despedindo-se de Carolina e do irmão, foi para casa na companhia da Sr. a Grébu, que não abriu a boca.

SR. A DELMIS - Admira-me que não tivesse dito nada; supunha que ia dar ordens a Carolina para lhe fazer os vestidos.

SR.a GRÉBU - Prefiro esperar que os seus estejam prontos, a fim de me convencer de que é ela quem os arranja.

SR.a DELMIS - O quê? Ainda acredita no que disse a malvada da Rosa?

SR.a GRÉBU - Um poucochinho; quando tiver uma prova, e essa prova ser-me-á dada pelo modo como vierem os seus vestidos, então ficarei convencida.

As senhoras voltaram a casa. Rosa tinha saído. Pouco depois, recebia a Sr. a Delmis a visita de várias amigas, que a vinham consultar sobre o que deveriam fazer a respeito de Carolina, que estragara os vestidos da Sr. a Delmis, e que os devia estragar todos, pois não sabia cortar.

- Quem lhe disse tal mentira? - perguntava a Sr. a Delmis.

- A Rosa - era a resposta de todas.

A Sr. a Delmis justificava Carolina, destruindo, assim, o mal que lhe queria fazer a inimiga da pobre órfã.

Louça partida

De volta a casa, Rosa foi chamada à presença da Sr. a Delmis, que, depois de lhe comunicar o que soubera, a preveniu de que a não queria mais ao seu serviço; que ia arranjar nova criada. Rosa fingiu que chorava, protestou a sua inocência e deu sinais de ir desmaiar. Entrava nesse momento o Sr. Delmis; vendo a cena, agarrou numa bilha cheia de água e despejou-a toda sobre Rosa, que logo voltou a si e lhe deitou um olhar enfurecido.

SR. DELMIS (com um riso escarninho) - Fique-te de memória, Rosa, este excelente processo de fazer voltar a si a pessoa acometida de chiliques: água fria, até nos sentirmos completamente bem.

Rosa não se atreveu a responder, saindo precipitadamente. Uma vez na cozinha, chorou de raiva e, na sua fúria, deitou açúcar nos pratos salgados, sal e pimenta nos cremes e pastéis, sendo o resto do jantar temperado do mesmo modo extravagante, a ponto de ficar intragável.

A patroa gritava que a cozinheira queria envenenar a família. O patrão foi à cozinha e pregou a Rosa uma valente descompostura, a que esta respondeu atrevidamente, o que fez zangar o Sr. Delmis, que a ameaçou de a pôr imediatamente na rua. Rosa dizia que não se importava; que não se dava naquela casa; que facilmente arranjaria melhor, etc. .

SR. DELMIS - Pois prepare as suas coisas que, de

amanhã em diante, não a quero em minha casa.

ROSA - Com muito gosto e sem saudades; hei-de dizê-las bonitas da sua casa, deixe estar!

SR. DELMIs - Fora daqui, pode a sua língua de trapos dizer o que entender; mas, até lá, exijo que se cale.

ROSA - Não queria mais nada? A língua é minha, e a ninguém dou o direito de impedir-me de fazer dela o uso que entender.

A cena passava-se na copa. Para encurtar razões, o Sr. Delmis puxou a porta e fechou-a, dando duas voltas à chave e sem ligar importância aos gritos nem às ameaças dela, tirou a chave, meteu-a no bolso e voltou para a sala de jantar, onde a esposa e os filhos se vingaram no queijo, na manteiga, nos rábanos e na fruta que escapara ao furor de Rosa.

SR.a DELMIS - Então como explica ela a sua

linda obra?

SR. DELMIS - Explicá-la? Boa! Ainda me cobriu de insolências. Tive de a pôr na rua, o que não obstou a vê- la redobrar de fúria. Lembrei-me de a fechar na copa, onde a vou deixar até à noite, para lhe refrescar o sangue alterado pela cólera.

O Sr. Delmis a acabar de falar, e a ouvir-se um enorme estrondo na cozinha, que era por baixo da sala de jantar.

- Que foi aquilo? - exclamou o Sr. Delmis. E ainda mais!… E continua… mas que será? Parece louça a partir-se.

SR. A DELMIS - Ai! Senhor! A copa estava cheia

de louça! Que é que fizeste, homem? É Rosa a quebrar tudo.

SR. DELMIS - Encerrei a fera no covil, mas vou

pôr cobro aos estragos.

SR. A DELMIS - Pôr cobro? Depois de tudo partido! Minhas ricas chávenas de porcelana florida! Ah!

Sr. Delmis, que ideia a sua de fechar aquela malvada em tal sítio!

SR. DELMIS - Eu sabia lá?… Mas talvez ainda

não esteja tudo estilhaçado; vou já ver.

E o Sr. Delmis, seguido da esposa, e esta dos

filhos, precipitou-se para a copa, cuja porta abriu.

Logo se lhe ofereceu à vista um espectáculo lamentável: pratos, chávenas, travessas, terrinas, etc. , tudo

esmigalhado no chão. De tamanco na mão, Rosa

dava cabo dos poucos objectos que ainda tinham

escapado ao seu furor; de olhos cintilantes, rosto

afogueado, cabelos desgrenhados, braços nus, parecia uma fúria. Ao ver a porta aberta, precipitou-se

para forçar uma passagem.

-Hás-de pagá-las na cadeia! - exclamou o

Sr. Delmis, pretendendo segurá-la pelas saias. A Rosa, porém, dando com o tamanco no Sr. Delmis, obrigou-o a soltá-la e fugiu, deixando aterrados os filhos e a Sr.a Delmis.

- É uma autêntica fúria! - exclamou o Sr. Delmis. - Posso lá deixar impune tal procedimento!

Como autoridade, podia levantar-lhe um auto e

metê-la na cadeia.

Dito isto, subiu ao escritório, enquanto a mulher

e os filhos verificavam os estragos, procurando em

vão alguma coisa que tivesse escapado ao seu furor;

mas nada escapara: tudo em cacos!

- E agora, mamã, que fazer? - perguntou Emília. - Não temos quem nos sirva.

SR.a DELMIS - Agora não há tempo de pensar nisso; quando teu pai vier, falaremos no caso.

EMÍLIA - Entretanto, caso seja da vontade da

mamã, eu e o Jorge faremos o serviço.

SR. A DELMIS - Isso é impossível, queridos filhos.

Pois como havíeis vós de ir ao mercado, preparar as refeições, servir à mesa e arranjar os quartos?

EMÍLIA - Então, mamã, se fôssemos pedir à Carolina que nos viesse ajudar?

SR. A DELMIS - Ora aí está uma belíssima ideia!

Quando o papá voltar ao salão, iremos ter com ele e falar-lhe nisso.

JORGE - A mamã quer que vá ver se já lá está?

SR. DELMIS - Pois sim, meu filho; vai lá, e volta

a dizer-mo num pulo.

Correndo para as escadas, Jorge viu o pai já de volta. Indo ao seu encontro, a Sr.a Delmis lembrou- lhe que seria bom ir a casa de Carolina pedir à boa rapariga que os viesse ajudar, até arranjarem outra criada.

- De muito bom grado - respondeu o Sr. Delmis. - É uma ideia excelente, susceptível de melho ria ainda.

SR. A DELMIS - De que forma?

SR. DELMIS - Propondo a Carolina a entrada para o nosso serviço exclusivo.

SR. A DELMIS - Bem lembrado! Mas, mas Inocente? Que destino lhe dará ela?

SR. DELMIS - Pô-lo-á em qualquer casa ou estabelecimento de caridade, pois não há dúvida que Inocente não pode estar ao serviço de ninguém.

Pegando na sombrinha e no chapéu, a Sr. a Delmis pôs-se a caminho da casa de Carolina. Iam conversando sobre a prisão de Rosa, a que o Sr. Delmis tinha renunciado, embora esta bem o tivesse merecido.

- Ficaria com o futuro estragado - acrescentou ele - preferi, pois, amedrontá-la, sem executar a ameaça.

A chegada dos esposos Delmis causou grande

surpresa a Carolina. Inocente ofereceu-lhes logo cadeiras. A senhora expôs a Carolina a finalidade daquela visita inesperada. Esta respondeu com simplicidade.

-Agradeço muito a confiança com que sou

honrada, mas não posso aceitar, com mágoa o digo, a

amável oferta da senhora.

SR.a DELMIS - Então porquê, diga, Carolina?

Dou-lhe mais vantagens do que as que granjearia

durante o ano com o trabalho mais intenso de costura, aqui em sua casa.

CAROLINA - É que não posso deixar meu irmão, minha senhora. Que seria dele sem mim?

- Não se incomode por causa do seu irmão - objectou o Sr. Delmis -; eu encarrego-me da sua entrada em qualquer estabelecimento de caridade, onde ficará muito bem.

Carolina voltou-se para Inocente, que olhava para ela com tristeza e afeição. Meneando a cabeça, ela respondeu:

- Nunca, senhor; nunca abandonarei Inocente; prometi-o à minha mãe, e hei-de cumprir a promessa; nunca o abandonarei.

SR.a DELMIS - Isso não é racional, Carolina; a sua existência seria bem mais feliz e estaria mais garantida em minha casa. Teria um ordenado superior ao que ganharia na sua. Quando doente, seria tratada como tal, recebendo sempre o ordenado; ao passo que, aqui, uma doença levá-la-ia à miséria: à menina e a Inocente.

CAROLINA - Tem toda a razão no que a senhora

diz; não posso, porém, faltar à promessa feita à minha mãe, nem esquecer que, longe de mim, o meu pobre irmão não podia ser feliz.

INOCENTE (de olhos rasos de lágrimas) - Carolina, ó Carolina! Não me deixes, não vás para longe de mim. Se não te vir, morrerei como a nossa mãe.

CAROLINA - Não, irmãozinho, não me separarei

nunca de ti. Só por morte.

INOCENTE - O caso então seria diferente! Saberia que eras feliz, que Deus te queria na sua glória, e trataria de morrer também depressa, para ir ter contigo.

- Oiça, Carolina - replicou o Sr. Delmis, comovido com a dedicação da irmã e o afecto do irmão

-, há um meio de conciliar tudo: é Carolina entrar ao nosso serviço e levar consigo o seu irmão. Desta forma, cessam todos os obstáculos.

CAROLINA -Com Inocente! Oh! O senhor é

demasiado bondoso e por demais generoso. Não me atrevo aceitar… Receio… Talvez o senhor se esqueça…

SR. DELMIS (sorridente) -Não me esqueço de nada, Carolina; antes penso que Inocente nos será de grande utilidade para muita coisa: servir à mesa, esfregar os quartos, ajudar na horta, fazer recados… Oh! descanse; já vejo o seu receio. Eu explicar-lhe-ei tão bem os recados que lhe der a fazer, que não haverá possibilidade de se enganar.

INOCENTE - Pode lá ser! Eu em sua casa, a comer e a trabalhar ao seu serviço, sem deixar a minha boa Carolina?

SR. DELMIS - Sim, meu rapaz, é essa a minha

proposta. Quereis aceitá-la?

INOCENTE -Eu, de mim, aceito. Aceita também, Carolina; anda, despacha- te, que o patrão pode mudar de ideias.

SR. DELMIS (sorrindo) - Isso é que não, Inocente; não mudo de ideias quando elas são boas; só o faço quando são más.

INOCENTE -Está muito bem! Mesmo muito

bem! Posso dizer que aprovo a sua proposta. Oxalá ela se mantenha! Pode contar com a minha estima e com a de minha irmã, não é assim, Carolina?

CAROLINA - Peço desculpa, senhor, se lhe dou a

impressão de hesitar, mas sinto-me de tal modo reconhecida à oferta, tão generosa, do senhor e da senhora, que nem mesmo me sei exprimir. Será para mim a maior das felicidades o poder manifestar, pelo meu zelo e dedicação, a minha gratidão por todas as bondades do senhor e da senhora.

SR. A DELMIS - Então aceita, Carolina?

CAROLINA - A senhora duvida de que aceito, reconhecida e feliz?

SR. DELMIS - Então, é preciso que entre já, boa

Carolina, porque a Rosa já se foi embora.

CAROLINA - Ela deixou a senhora?

SR. DELMIS - Isto é: fui eu que a pus na rua, por

me haver insultado grosseiramente.

Receosa de agravar a irritação contra a Rosa, Carolina reprimiu a sua surpresa e indignação. Pediu licença para só entrar ao serviço no dia imediato, a fim de arranjar tudo, pôr a casa em ordem e levar aos donos a roupa branca e os vestidos que lhe tinham dado afazér. Os patrões concordaram e despediram-se de Carolina, depois de lhe recomendarem que chegasse cedinho para fazer o almoço. E lá ficou ela com Inocente.

As boas amigas

Depois de fecharem e arrumarem tudo, Carolina empacotou a roupa e os vestidos que devia restituir às freguesas, e lá foi com Inocente, que levava o embrulho, distribuir tais objectos pelas donas.

- Muito folgo - disse a Sr. a Grébu - com a sua entrada para o serviço da Sr. a Delmis, minha boa

amiga, embora eu lhe pudesse arranjar patrão

mais agradável, menos gente, menos trabalho, maior

ordenado, gratificações, e serviço menos pesado;

mas, o mal está feito… mais vale não pensar nisso.

Contudo, se não se derem na casa dos Delmis, têm a

minha a seu dispor. Soubesse eu que se queriam

empregar, não eram os Delmis que os apanhavam, não… Nunca se pode saber o que desejam, tão sornas e metidos consigo eles são!… Não é que desgoste

deles, pois, pelo contrário, gosto imenso desses caros

amigos; mas, lá por gostar deles, não quer dizer que

seja cega. O que se vê escusa candeias… Rosa então

contou-mas bonitas! Enfim, lá se avenham. Deus é

testemunha se me importa a vida deles. Desejo que

seja mais feliz do que foi Rosa, minha boa Carolina.

Mas não se esqueça do que lhe disse: em minha casa, melhor mesada, menos trabalho e uma patroa bonacheirona. Então, adeus; ou melhor, até à vista, assim

o espero.

Carolina e o irmão saíram, depois de terem cumprimentado; ela ia calada.

-Que pensas da Sr.a Grébu e do que nos

contou? - foi a pergunta de Inocente, de olhos fitos

na cara da irmã.

CAROLINA - Não penso nada, nem de tal me

lembrava já.

INOCENTE - Pois eu, por mim, penso cá certa

coisa.

CAROLINA - Então, que é?

INOCENTE - Penso que ela é fraca bisca, falsa, ruim, bisbilhoteira, e que lho direi na cara, se ela vier

engraxar a Sr. a Delmis.

CAROLINA - Rogo-te, Inocente, que não digas

nada. Na nossa nova posição temos necessidade de

muita descrição, sem andarmos a levar a uns aquilo

que ouvimos aos outros. Não vás dizer nada do que ouves; guarda-o para ti e para mim.

INOCENTE - Está bem, irmãzinha, só te falarei a ti. Mas sempre te digo que a Sr.a Grébu é uma…

CAROLINA - Chiu! Estamos a chegar à casa da

Sr. a Ledoux.

Carolina teve de recomeçar a narração, repetindo os motivos de não poder continuar com a obra.

SR. A LEDOUX - Sinto deveras perdê-la, pois é uma boa costureira… É vantajosa, decerto, a entrada ao serviço do Sr. presidente… não porque a casa seja lá grande coisa… serviço muito pesado, crianças insuportáveis… e a fome que lá passou a Rosa! Esses Delmis olham para tudo o que se mete à boca… Ah! É por gostarem de brilhar, de meter figura! A Sr. aDelmis anda sempre com vestidos novos arruinando-se nesse espavento! Contudo, sempre lhe dou os parabéns, Carolina, embora pudesse ter arranjado bem melhor colocação… Se mo tivesse dito… Aqui em minha casa! Que diferença!… Ficará para depois… A menina não fez um contrato vitalício!… Adeus, Carolina. A minha casa está- lhe sempre aberta, não o esqueça. Adeus.

- Mais uma - disse Inocente, à saída, a rir.

-Sempre são de uma amabilidade para com a Sr. a Delmis!

- É de lamentar - respondeu Carolina -, tanto mais quanto é certo os senhores Delmis serem muito bons para todos.

INOCENTE - Quê! Ora, ora!

CAROLINA -Que bicho te mordeu? Porque

resmungas esse ora, ora, ?

INOCENTE - É que… não to queria dizer, mas sempre o faço. Esta Sr. a Delmis não foi lá muito boa para ti há pouco… por causa dos vestidos… sabes?

CAROLINA - É preciso ver que supunha que eu a havia enganado, que lhe tinha dado cabo dos vestidos.

INOCENTE - E porque teve ela pressa em acreditar em tal disparate? Porque não veio entender-se contigo, em vez de dar ouvidos à malvada da Rosa?

CAROLINA - Porque não supunha que a Rosa fosse tão malvada, que mentisse dessa forma.

INOCENTE - Mas podia crer que tu fosses sofrivelmente malvada para a enganar…

CAROLINA - Estás-me a sair muito espertalhão; deves antes ser bondoso e indulgente, perdoando aos que te ofendem.

INOCENTE - Não tenho dúvida em perdoar aos que me ofenderem a mim, embora já não pense do mesmo modo quanto aos que te ofendem a ti.

CAROLINA -Olha, Inocente. Se Deus fizesse como tu, onde estaria a nossa felicidade?

INOCENTE - É que a Deus nunca ninguém lhe ofendeu a irmã.

CAROLINA - Pois não; mas mataram-lhe o filho;

é bem pior!

INOCENTE - É verdade!… De facto, visto entrarmos ao serviço da Sr. a Delmis, que no-lo foi pedir pessoalmente, não ponho dúvida em perdoar-lhe… não há que ver: perdoo-lhe.

Carolina só respondeu com um sorriso e foi a casa da Sr. a Piron fazer entrega, como às demais, da obra que não pudera concluir, por falta de tempo.

- É bem aborrecido! - disse mal-humorada a freguesa. - Era melhor não se ter encarregado de um serviço que não podia acabar! Não é nada correcto, menina!

CAROLINA - A senhora bem pode compreender que não me era possível prever a morte de minha pobre mãe, e muito menos o oferecimento da Sr. a Delmis.

SR.a PIRON - Mas podia fazer esperar a

Sr. a Delmis até estarem prontos os meus vestidos. Nem ela nem a menina morreriam devido a essa demora.

CAROLINA - É que a Sr. a Delmis ficou bastante

embaraçada pela saída de Rosa…

SR.a PIRON - Ai! A Rosa foi-se embora! Muito folgo com isso. Oxalá lhe sirva a lição, para tratar os criados com mais humanidade… Ai! A Rosa despediu-se? E a menina sabe a razão? Conte-me lá isso, Carolina.

CAROLINA - Como não estava lá, minha senhora, não sei o que se passou; nada posso, portanto, contar.

SR.a PIRON - Ande lá, minha boa Carolina, não seja assim desconfiada; pode ter a certeza de que nada direi. Houve escândalo? Foi ela que se foi embora, ou foi despedida? Que disse o Sr. presidente? Soube da saída da Rosa?

CAROLINA -Peço desculpa, minha senhora, mas a verdade é que nada sei do que pergunta.

SR.a PIRON - Ora a tolinha! A fazer-se esquisita, como se já fizesse parte da familia Delmis. Deixe estar que não há-de aguentar lá muito tempo, digo-lhe eu… Uma senhora exigente, avarenta, irritável, vaidosa, insuportável… Faço votos por que se dê bem nessa nova ocupação. Bem fez em saber calar-se; daquela gente havia lindas coisas a dizer! Adeus, menina.

Chegados a casa e tomada uma refeição frugal, recolheram-se depois de terminarem os últimos preparativos e de porem tudo em ordem na casa que tinham de abandonar no dia seguinte.

Inocente dormiu a sono solto, mas levantou-se mal a irmã o chamou, vestiu-se à pressa, a fim de seguir com Carolina para casa dos novos patrões. Lá, ninguém tinha despertado ainda; entraram na cozinha, a fim de começarem os preparativos para o almoço.

- Olha, que desordem aqui não vai! - exclamou Carolina.

- E nós é que temos de limpar tudo! - acrescentou Inocente.

CAROLINA - Vê se arranjas uma vassoura para varrer enquanto eu lavo a louça.

Inocente lá foi para o lado da copa.

- Ai! O que aqui vai! - exclamou, ao ver a louça partida. - Anda cá, irmãzinha. Tudo partido! Porcelanas, cristais.

Tendo acorrido, Carolina mostrou tanto espanto como Inocente.

- Ai! Senhor! Que vai dizer a senhora? Contanto que não cuide que fomos nós que a partimos…

INOCENTE - Nem um prato, nem uma chávena, nem um copo que não esteja estilhaçado! Nem se pode entrar sem andar por cima de cacos.

CAROLINA - Faz uma pilha deles, a fim de desembaraçar a copa; olha, aqui tens uma vassoura.

Meteram mãos à obra, e, graças ao seu esforço e ao hábito de Carolina de gostar de ter tudo sempre limpo, os únicos vestígios de fúria da Rosa era o monte de cacos, que a rapariga desejava mostrar aos patrões.

CAROLINA - Vai buscar água neste caneco. Eu

acendo o lume para a aquecer.

Pouco depois, já o lume crepitava e a água fervia numa cafeteira limpa e luzidia.

A Sr. a Delmis entrou na cozinha.

- Já a trabalhar? - exclamou ela, satisfeita. Foram vocês que limparam a cozinha, já vejo. Pois bem precisada estava.

CAROLINA - Fomos, sim, minha senhora, eu e o meu irmão. Limpámos e arrumámos tudo.

INOCENTE - A senhora quer ver o que está ali na copa? Mas não suponha que fui eu ou Carolina quem partiu tudo aquilo.

SR.a DELMIS - Bem sei; já demos ontem por isso; foi a Rosa, enfurecida por a termos despedido.

CAROLINA - A senhora já sabe que a porcelana e os cristais estão feitos em cacos?

SR.a DELMIS - Eu sei, já vimos. E preciso juntar

tudo aquilo, Inocente.

INOCENTE - Já está, minha senhora.

SR.a DELMIS - Já? Sim, senhores, isso é que se

chama trabalhar!

INOCENTE - É assim mesmo, minha senhora; eu e Carolina somos assim! Sabemos o que fazemos. Cuido que os patrões vão ficar bem servidos connosco.

CAROLINA - Cala a boca, Inocente. É feio a

gente gabar-se.

SR. A DELMIS - Deixe-o falar, Carolina; é preciso

deixá-lo exprimir tudo o que lhe vem à cabeça.

INOCENTE - Vês, Carolina? Tu mandas-me calar; a senhora quer que eu fale. Mas se eu dissesse à senhora tudo o que me vai pela cabeça!… Vi tanta coisa de ontem para cá!…

CAROLINA - Olha se te calas, que estás a aborrecer a senhora.

SR.a DELMIS - Ah! Isso é que não! Pobre rapaz! Fala, fala à vontade.

CAROLINA - Tenho receio de que… abuse da

excessiva bondade da senhora, e. .

INOCENTE -… isto é, tens medo de que eu conte à senhora o que nos disseram ontem as suas amigas…

Bonitas amigas que a senhora tem!

CAROLINA (com aspecto grave, de censura) Inocente, que foi que tu prometeste?

INOCENTE - Verdade seja que prometi e mantenho a promessa, como vês, pois nada disse ainda, como a senhora pode testemunhar, das bisbilhotices

da Sr. a Grébu e da outra Sr. a Ledoux, e mais da

outra… Sr. a Piron: Ah! Ah! Ah!

SR.a DELMIS - Mas que foi? Que houve? Que se

passou?

Carolina fartara-se, em vão, de fazer sinais a Inocente, mas este não olhava para ela e já estava para

retomar a palavra, quando Carolina se apressou a

responder:

- Absolutamente nada, minha senhora… nada

que valha a pena relatar. Quando ontem fui devolver

a obra que não podia fazer, algumas freguesas não

ficaram satisfeitas. Foi o que foi. A senhora bem sabe

que Inocente se diverte com qualquer ninharia.

Achou esquisito que aquelas senhoras se zangassem

e é o que ele pretende contar à senhora.

Inocente tentou falar, mas ficou mudo diante de

um gesto imperioso da irmã. Por mais que a

Sr. a Delmis o interrogasse, não houve maneira de o

fazer sair do silêncio. A pedido de Carolina, a senhora deu-lhe as ordens para o almoço e para o serviço

de todo o dia, explicando-lhe o que havia de fazer e, terminado o almoço, confiou-lhe as chaves da

despensa, da rouparia, e de todos os armários. Inocente ia-as seguindo por toda a parte, maravilhado

com todas as coisas que via, com grande satisfação da

patroa, que lhe permitia meter o nariz em tudo. A

irmã receava qualquer desconchavo ou qualquer ingenuidade;

longe, porém, de se zangar, a Sr. a Delmis achava graça às reflexões de Inocente, incitando-o a continuá-las. Ao ver os vestidos nos guarda-roupas, Inocente não ocultava a sua admiração e espanto.

- Que lindos vestidos! Ai! Que lindos padrões! Que pena que a senhora não seja mais nova! Como lhe haviam de ficar bem!

- Como assim? Achas-me então velha? Nem todos pensam como tu! - disse a patroa, um pouco arreliada.

INOCENTE - Eles não o dizem, é verdade; mas a senhora bem sabe que ninguém diz tudo o que pensa. Verdade seja que a senhora não é tão velha como Anica, criada do Sr. Abade; mas, para usar vestidos tão lindos e tão frescos, eu preferia que a senhora fosse da idade de Carolina.

- Então, que idade me dás tu? - replicou a Sr. a Delmis, esforçando-se por sorrir.

- Suponho que a senhora não deve ter mais de quarenta anos - disse Inocente com ar de ladino.

SR. A DELMIS - Pois muito obrigada! És deveras generoso!… Quarenta anos, não!… Na verdade! Quarenta anos!… Pois só tenho trinta.

INOCENTE - Trinta ou quarenta, é a mesma coisa; digo que a senhora tem quarenta, porque tem a aparência de os ter; ora aí está.

CAROLINA (inquieta) - Que bondade a sua, minha senhora, em escutar as tolices do meu irmão! Que sabe ele de idades das pessoas? Quer ter a bondade de dizer-me se o lugar dos vestidos é ali? Parece-me que estão bastante apertados, o que os amarrotará.

SR. A DELMIS - Isso fica ao seu cuidado, Carolina, pois que entende mais disso do que eu.

CAROLINA - Vou passá-los a ferro, antes de os pendurar. A senhora não deseja pôr esta noite este vestido lilás e verde, que tão bem deve dizer com a tez fresca e os cabelos loiros da senhora?

SR.a DELMIS (com satisfação) - Pois sim, Carolina.

A Sr. a Delmis retomara o seu ar amável. E satisfeita por ter afastado o incipiente mau humor da patroa, Carolina foi continuando a falar dos vestidos e de penteados e ofereceu-se para a pentear à moda, o que a Sr. a Delmis se deu pressa em aceitar. Depois recolheu ao quarto, para se preparar.

CAROLINA -Enquanto penteio a senhora, ó Inocente, tu retiras os talheres e lavas a louça; limpa tudo muito bem e arruma as porcelanas na sala de jantar.

INOCENTE - Pois sim, Carolina; mas olha lá: porque te mostravas tão descontente quando eu falei na idade da senhora?

CAROLINA - É porque nunca se deve falar na idade da patroa, e rogo-te que não voltes a falar à senhora em tal assunto.

INOCENTE - Embora não compreenda a razão, não tornarei a falar em tal, visto que isso te desagrada.

SR.a DELMIS (a chamar) - Carolina, ó Carolina, estou à sua espera!

CAROLINA -Olha a senhora a chamar-me; corre para o teu serviço, e trata de não partires nada.

INOCENTE - Sossega, que não farei como a Rosa… E esta agora de Carolina não querer que eu fale à senhora em idades!… Qual a razão?… Será por ela não ter o juízo próprio da sua idade?… É isso pela certa… mas devia ser mais razoável… embora o não seja mesmo nada… Pois é lá de pessoa ajuizada mandar fazer vestidos berrantes, como se fora uma rapariga nova?! Ora vejamos - continuou Inocente, enquanto examinava os vestidos -, cá está um todo cor-de- rosa, que havia de ficar bem à Carolina! E este azul- claro com grandes peónias! É esquisito, na verdade… Vejamos agora o lilás, que Carolina lhe quer fazer vestir esta noite! Bom para senhora nova! Bonito de mais! - acrescentou, abanando a cabeça.

Terminado o exame, Inocente passou à sala de jantar, tirou os talheres, lavou os copos, os pratos, a louça de porcelana, e, como lho indicara Carolina, arrumou tudo em cima da mesa e do aparador, à medida que os ia limpando. Depois, desceu à cozinha, varrendo e pondo tudo em ordem. Quando a irmã voltou para arranjar o almoço, ficou muito satisfeita, e pediu a Inocente que fosse visitar o abade e lhe desse parte da mudança que se operara na sua posição. Tudo fora tão rápido, que não tivera tempo de o consultar.

Encontro inesperado

Contente por poder dar uma passeata, Inocente meteu- se ao caminho. Quando ia a entrar numa ruazinha que dava para o passal, sentiu abrir, com precaução, a porta de uma granja abandonada, e saiu de lá furtivamente certa pessoa, como a temer ser vista; a porta não lhe deixava ver Inocente. Olhou para a direita e para a esquerda, e ia a precipitar-se para a rua, quando deu com ele. Abafando um grito, quis

voltar para a granja, mas Inocente, que a reconhecera, interceptou-lhe a passagem.

INOCENTE - Ah! É a Rosinha! Que faz aqui escondida? Porque foge de mim?

ROSA -Cala-te, por amor de Deus! Não me queiras perder!

INOCENTE - Perdê-la! Pelo contrário, torno a

encontrá-la.

ROSA - Não é isso o que eu quero dizer. Não digas que me encontraste, que estou nesta granja.

INOCENTE - Ora, porque não havia de dizer? Há nisso algum mal? Tenho a certeza de que a Carolina não se vai zangar.

ROSA - É que, se souberem onde estou, virão buscar-me para me meter na cadeia; a guarda…

INOCENTE - A guarda! Olá! Então fia fino. E

porquê? Que fez a Rosinha?

ROSA - Bati no presidente da Câmara e parti a louça.

INOCENTE - Ah! Foi você que fez aquela linda obra? Pois não há dúvida! Olhe que passei duas horas a apanhar os cacos… e é por isso que a querem meter na cadeia?

ROSA - Pois é; disse-o o Sr. presidente, e eu raspei-me, vindo esconder-me aqui, mas estou com fome. Ia agora a casa do Sr. Abade pedir-lhe um bocado de pão e o favor de interceder por mim junto do Sr. Delmis. Tenho medo da cadeia!

INOCENTE (compadecido) - Tem razão! Pobre Rosinha! É preciso que tivesse sido bem má para a quererem meter na cadeia! Que fazer para salvá-la?

Ia Rosa a responder-lhe quando ouviu passos de homens a chegar à azinhaga, onde se encontravam. Puxando Inocente, com força, internou-se com ele na granja, fechou a porta e foi esconder-se por detrás de

uma alta meda de feno seco que ficara esquecida a um canto. Inocente quis falar.

- Por amor de Deus, não abras a boca, senão estou perdida! - disse ela, em voz baixa e de mãos erguidas.

Inocente deixou-se ficar imóvel e aterrado; os passos avizinhavam-se lentamente. Quando chegaram em frente à granja, os guardas - porque eram eles - sentaram-se na soleira da porta, que lhes oferecia um assento cómodo e acolhedor. Conversavam baixinho; Inocente quis apanhar o sentido da conversa deles, mas só pôdde surpreender palavras desconexas:

- Escondida talvez… no presbitério… deve ter tido medo… boa lição… Rosa dos campos… Rosa dos bosques… Ah! Ah! Ah!, Após um descanso de alguns minutos, os guardas continuaram a marcha; riam, chamando pela Rosa dos campos.

Tornando a ficar tudo silencioso, Rosa saiu do esconderijo; estava a tremer, mais tremendo ainda Inocente.

ROSA - Preciso de comer; já não posso aguentar a fome. Por favor, Inocente, vai-me arranjar um bocado de pão.

Inocente batia os dentes; tremiam-lhe os joelhos; mas, comovido pelo sofrimento da sua antiga inimiga, dirigiu-se para a porta, que abriu depois de ter levantado a lingueta. Ao sair, deu de cara com um guarda.

- Ah! - gritou ele, caindo e ficando estendido no chão.

CABO - Então! Que susto foi esse? Quando se tem medo da guarda, é mau sinal… Ora, levanta lá o nariz, para ver quem és.

Mas Inocente não se mexia, o que levou o cabo a erguê-lo à força.

CABO - Olha! É Inocente! És tu, meu rapaz! Porque é que tens hoje medo de mim? Todavia, nós somos velhos amigos. Que fazias aí fechado na granja? Se calhar, não estavas sozinho, pois não?

E, não fazendo caso de Inocente, o cabo quis penetrar na granja.

- Ó! Não entre! Não entre! - exclamou Inocente, metendo-se-lhe no caminho. - Por favor, não entre!

Mas vendo inúteis os seus esforços, disse:

- Tenha pena de uma pobre rapariga semimorta de fome.

CABO -Uma rapariga! E quase a morrer de fome! De quem falas tu? Ou cuidarás que ando atrás de alguém?

INOCENTE - O quê? Então o senhor não anda à procura da Rosa, a antiga criada do Sr. presidente?

CABO - A Rosa? Então é preciso prendê-la? Sabes porquê? Que fez ela?

INOCENTE - Eu não sei de nada; supunha que o senhor estava com aqueles senhores guardas que se sentaram aqui na soleira da porta e que falavam em prender a Rosa.

CABO - Não, estive em licença. Ao regressar há pouco, saí a fazer a ronda, quando dei de cara contigo. Pelo que dizes, os meus camaradas têm ordem de prisão contra a Rosa, que se escondeu aqui na granja, e que tu me queres impedir de apanhar. Mas prineiro está a obrigação.

Com isto, entra o cabo pela granja dentro e começa a busca.

Enquanto remexia por entre pipas vazias, foi Inocente ocultar com as costas e meda de feno atrás da

qual se agachara Rosa. Como não desse com coisa nenhuma do seu lado, o cabo voltou-se para o sítio onde estava Inocente e, notando-lhe o ar inquieto, dirigiu-se para ele.

- Sai daí, vamos, pois já vejo que ela está aí escondida. Deixa-me apanhar a caça.

Mas Inocente recusava sair, o que levou o cabo a pegar-lhe por um braço e a fazê-lo rodopiar como um pião; ao deslocar o feno, ficou muito surpreendido de não ver ninguém.

CABO - É curioso! Eu ia jurar que ela estava aqui.

INOCENTE (batendo palmas) - Fugiu! Raspou-se! Tanto melhor. Mas por onde é que se escapou?

CABO - Então, ela, na verdade estava escondida atrás deste feno?

INOCENTE - Lá isso estava, não há dúvida; agora por onde ela se safou é que não sei dizer, pois aqui à porta estávamos nós.

CABO - Ah, maroto! Tu és cúmplice dela, pois ajudava-la a esconder-se.

INOCENTE - Eu encontrei-a aqui à porta, como me encontrou o senhor; mas, ao ouvir passos fora, voltou a meter-se dentro da granja, arrastando-me consigo; e antes de eu voltar a mim, da surpresa, ouvimos os seus camaradas - que se sentaram à porta - falar da Rosa; ouvimo-los rir, com vontade, e, depois de descansar, tornaram a partir. Foi então que Rosa me pediu para lhe ir buscar um bocado de pão. Com pena dela, ia a sair para satisfazer-lhe o pedido, quando esbarrei consigo e tive medo; é quanto sei dizer… Mas para onde teria ela fugido? Nem vejo porta nem janela…

CABo - Olha, marcha adiante de mim para casa do Sr. Abade, onde, pelo visto, devem encontrar-se

os meus camaradas; quero saber se é ou não verdade

o que me contaste.

INOCENTE - Pois vamos lá; precisamente, a minha irmã tinha-me incumbido de um recado para ele.

E lá foram. O cabo puxou a porta, mas sem a

fechar de todo.

- Ó Inocente - disse -, vai sozinho a casa do

Sr. Abade. Como estou cansado espero aqui os

meus camaradas. Diz-lhes isto mesmo.

E Inocente lá foi, sem desconfiar de nada. Encontrando o pároco sozinho, perguntou-lhe pelos guardas.

ABADE - Não vi guarda nenhum, meu amigo.

Que tens tu com os guardas?

INOCENTE - Não sou eu que pretendo saber

deles, Sr. Abade, mas o cabo que ficou na azinhaga

da granja é que pergunta por eles.

ABADE - Eles raras vezes cá vêm a casa. Era

para isso que vinhas ver-me?

INOCENTE - Não, Sr. Abade, isso foi um recado

de ocasião. O que me traz aqui é uma incumbência

de minha irmã. Deseja ela que eu conte ao Sr. Abade

o que se tem passado connosco.

E contou-lhe o sucedido, nos últimos dias. O pároco aprovou tudo o que Carolina tinha feito, e disse

a Inocente que achava muito bem e se sentia muito

contente por os saber em casa do presidente Delmis.

- E em casa da senhora, não? - exclamou, sorrindo, Inocente.

ABADE -E… e em casa da senhora também!

Porque estabeleces diferença entre o patrão e a

patroa?

INOCENTE (a esfregar a cabeça) - Porque… é

que… olhe, Sr. Abade, eu não sei explicar mas… não

é bem a mesma coisa… a Sr. a Delmis, sabe… parece

que é preciso estar sempre a adulá-la, a gabá-la… e eu cá para isso é que não sirvo… Tem vestidos, ah! Cada vestido. Se o Sr. Abade os visse, era da minha opinião, e concordava em que ela não se parece nada com o Sr. Delmis.

ABADE (a rir) - Pois claro! Então já viste ho mens de saias? Evidentemente que não, usam sempre a mesma coisa: fato e sobretudo.

INOCENTE - Bem sei… mas não é isso… é uma coisa… como dizer?. Como duas manteigas: parecem iguais… saboreia-se uma e sabe bem; a gente gostava de estar sempre a comer; saboreia-se a outra e… ah! porcaria! tem ranço; põe-se de parte.

O pároco ria cada vez mais, embora Inocente não risse, mas abanasse a cabeça. Por fim, disse pensativamente:

- Carolina não gosta de ranço, mas tem de o comer… e até eu - acrescentou com um suspiro.

ABADE - Ora vamos, Inocente; não estejas para aí a atemorizar-te sem razão; a Sr.a Delmis tem génio, isso tem, mas não se pode dizer que seja má senhora. E, como Carolina é meiga e branda, tudo correrá sem novidade. Adeus, meu amigo, adeus.

E Inocente foi-se embora. Ao tornar a passar na granja ouviu barulho e, como a porta estava aberta, meteu a cabeça e viu com surpresa Rosa estendida no chão, enquanto o cabo acabava de lhe amarrar as pernas e os braços.

Depois de Inocente partir, o guarda, que supunha haver ali qualquer esconderijo, entreabrira a porta devagarinho, entrara sem ruído, estendera-se no chão num cantinho escuro. Depressa ouviu um leve ruído, parecendo provir de debaixo do chão e, pouco depois, viu mexer-se umas tábuas sobre o solo, e aparecer uma cabeça, que se pôs a olhar em redor.

Como não visse ninguém, e julgando-se em segurança, Rosa, porque era ela, acabou de sair do buraco onde penetrara, tapando-o com tábuas, aparentemente pousadas no chão, sem deixar suspeitar um esconderijo; dirigiu-se sem barulho para a porta, e grande foi o susto ao sentir duas mãos a puxar-lhe pelas pernas e a fazê-la cair de bruços. Antes de poder gritar, o cabo, que saíra rapidamente do seu cantinho, atirara-se a ela, amordaçara-lhe a boca para a impedir de gritar, e ámarrara-lhe os pés e as mãos, de que, em legítima defesa, ela começara a servir-se.

- Ó Sr. Cabo - exclamou Inocente -, não lhe faça mal! Pobre Rosa! Tire-lhe o lenço! Não vê que a abafa?

CABO - Lá por isso, meu rapaz, tira-lho tu, se assim o desejas. Ora aí a tens agora bem segura. Onde estão os meus camaradas? Não os encontraste?

INOCENTE - Nem eu nem o Sr. Abade os vimos.

CABO - É muito aborrecido, isso! Que vou eu agora fazer desta rapariga? Não tenho ordem de prisão contra ela! Ora vamos lá, minha linda, quer-me dizer a verdade? Porque é que se andava a esconder?

- Disseram-me que o Sr. Presidente me tinha dado ordem de prisão - respondeu ela, a tremer.

CABO -Mas que fez para isso? Fale, diga a verdade; porque a queria prender o Sr. Presidente?

ROSA - Depois de uma zanga, bati-lhe.

CABO - Bateu no Sr. Presidente! Então, minha amiguinha, está bem arranjada!… Como, porém, eu não recebi instruções, vou desamarrá-la, visto não estarem aqui os meus camaradas, e conduzi-la a casa do Sr. Presidente, que fará o que bem entender.

ROSA - Misericórdia, Sr. Guarda! Não me faça atravessar a cidade! Que vai dizer o povo se me vir atravessar a cidade, amarrada de pés e mãos e acompanhada por um guarda?

CABO - Olhe, pena tenho eu; mas acima de tudo está o dever. O que posso fazér é ficar aqui de guarda; enquanto Inocente vai receber as ordens do Sr. presidente. Vai, Inocente, vai, meu rapaz; vai dizer ao Sr. presidente que a Rosa está aqui, bem segura, com sentinela à vista; que diga o que devo fazer.

E lá foi Inocente a correr; entróú na casa, atravessou a cozinha, como uma seta, sem ligar atenção ao chamamento da irmã, que ficou aterrada com a palidez e a marcha precipitada déle.

- Impossível! - disse-lhe a correr. - O cabo está à espera. É impossível!

Penetrou assim na sala de visitas, onde trabalhava a Sr. a Delmis sozinha, e continuou a andar sem prestar mais atenção à patroa do que prestara à irmã, penetrando, sem bater à porta, no gabinete do Sr. Delmis, que falava com um guarda.

SR. DELMIS (impaciente) - Que desejas tu? Não vês que me incomodas? Estou ocupado.

INOCENTE - Não faz mal, Sr. Presidente. É preciso que venha já comigo à granja da azinhaga do Sr. Abade. Está lá presa e amarrada a Rosa. Manda perguntar o cabo o que deseja que faça dela.

SR. DELMIS - O rapaz está tolo. Que é que dizes, homem?

INOCENTE - Digo que é preciso ir imediatamente, porque o cabo pede a sua comparência.

SR. DELMIS - Então que há? De que cabo falas

tu?

INOCENTE - Lá porquê, não o sei eu. Foi o

Sr. Bourget que prendeu a Rosinha.

SR. DELMIS - Vá ver o que foi, Sr. Guarda; enforcado seja eu se percebo alguma coisa do que Inocente diz.

INOCENTE -Todavia, é bem claro. O cabo Bourget pede a comparência do Sr. Delmis, porque tem a Rosinha presa.

SR. DELMIS - E porque a prendeu?

INOCENTE - Sei lá! Ela está cheia de fome. A seu pedido, eu ia-lhe arranjar um bocado de pão, quando esbarro com o cabo, cujos camaradas já tinham seguido. Voltámos a procurar a Rosa, e nada de dar com ela. O cabo manda-me embora, a casa do Sr. Abade, procurar os camaradas; na volta encontro o Sr. Bourget a amarrar as pernas à Rosa; desato-lhe o lenço que a abafava, e ele diz-me para vir aqui perguntar ao Sr. Presidente o que deve fazer à rapariga. E aqui está!

SR. DELMIS - Vamos lá ver, Sr. Guarda. Há-de

haver um equívoco em tudo isto. Anda connosco, Inocente; guia-nos até à granja.

Pegou no chapéu e saiu pela escada lateral, na companhia do guarda e de Inocente, que ia correndo à frente. Não tardaram a chegar à granja, onde encontraram Rosa, sentada no chão e a devorar um bocado de pão que tinha nas mãos atadas. Junto dela estava o cabo, que não a perdia de vista.

- Que significa esta comédia? - perguntou o Sr. Delmis, ao entrar. - Porque prendeu esta rapariga e por que razão é que me manda chamar por Inocente?

CABO - Se não fosse caso urgente, eu não tomava a liberdade de incomodar o Sr. Presidente. Soube que uns camaradas meus andavam à procura desta rapariga. Como dei com ela, não a perdi de vista. Não sabendo que lhe fazer, mandei pedir ordens, ficando eu de guarda à rapariga, pois vejo que é manhosa e que se raspa, se a perco de vista um minuto.

SR. DELMIS - E porque é que os seus camaradas procuravam esta rapariga? Quem lhes deu tais ordens?

CABO - Isso é que eu não sei. Eu mesmo preciso de explicação, e foi por isso que mandei pedir ordens. A rapariga escondia-se e declarava-se perseguida; tive de a deter provisoriamente.

SR. DELMIS - Porque te escondias tu, Rosa?

ROSA - Para me escapar, pois tenho medo da cadeia.

SR. DELMIS - Mas quem é que te queria pren der?

ROSA - Encontrei a Sr. a Grébu, que me disse: Fizeste-a bonita em casa do Sr. Delmis, Rosinha; ele vai-te engavetar, se te não esconderes. A esta hora já a guarda anda à tua procura. Foi por isso que tratei de me esconder, pois não queria ir para a cadeia.

SR. DELMIS - E o Sr. Cabo, porque andou atrás

dela e a prendeu?

CABO - Andei atrás dela pela informação que me deu Inocente, de que os meus camaradas a procuravam. Prendi- a, porque ela própria me confessou que andava a fugir dos guardas.

SR. DELMIS - Há em tudo isso um equívoco, que é preciso esclarecer, Sr. Cabo. Entretanto, desamarre as mãos da prisioneira, e deixe-a ir em paz… E tu, Rosa, foste tu mesma que te castigaste. Na verdade, eu podia ter-te mandado prender, mas tive pena de ti e perdoei-te. A tua consciência inquieta é a causa dos teus desgostos de ontem para cá.

Primeiras tolices

Rosa lá se foi, envergonhada, sem dizer palavra; e o cabo, a rir do engano, também se retirou com o

guarda, a quem concluiu a explicação incompleta de Rosa e de Inocente. Quanto a este último, voltou para casa com o Sr. Delmis, conversando alegre mente e dando as suas opiniões.

INOCENTE - A causadora de tudo isto, Sr. Presidente, é sem dúvida a Sr. a Grébeu. Não há que ver: é uma tremenda mexeriqueira; bem andará o patrão em desconfiar dela.

SR. DELMIS - Assim faço. Conheço bem toda essa gentinha amiga de minha esposa.

INOCENTE - Bonitas amigas, não haja dúvida! No lugar do patrão, havia de lhas dizer boas.

SR. DELMIS - IsSo é tudo muito bonito! E a minha mulher?

INOCENTE -Então o patrão acredita que a senhora goste de tais amigas? Que gosta delas como eu gosto da minha Carolina? Deixe-se disso!… A senhora não é parva nenhuma!

SR. DELMIS - Olha cá, Inocente, como arranjas tu a saber tanto? Como adivinhas assim?

INOCENTE - Com a minha cabeça e com o meu coração; adivinho, porque sei o que Carolina diria e faria. Vi e ouvi muito no tempo em que essas senhoras faziam as suas encomendas a minha irmã, e quando vinham a nossa casa falar disto e daquilo, de Fulano e de Sicrano.

SR. DELMIS - Ora conta lá o que viste e ouviste dizer.

INOCENTE - Ah! Isso é que não; não posso ir

contra a proibição de Carolina.

SR. DELMIS - Ah! sim? Então obedeces sempre

a tua irmã?

INOCENTE - Cegamente; mesmo quando não

percebo a razão do que me proíbe.

SR. DELMIS - Se Carolina te mandasse fazer uma coisa, e eu outra, a qual de nós obedecias tu?

INOCENTE (raciocinando) - A quem obedeceria eu?… Ora, vejamos… O senhor é o patrão… e Carolina, a minha irmã… Devo obedecer ao patrão… Disse-o Carolina… Ora, espere lá… Já vejo: obedecia a Carolina e não ao senhor!

SR. DELMIS (sorridente) - Muito obrigado. E então porquê?

INOCENTE - Porque uma irmã é sempre irmã, não muda, ao passo que um patrão muda de um dia para o outro. Se me for embora, já deixa de ser meu patrão; não será assim?

SR. DELMIS (a rir) - Bravo, Inocente! Muito bem

pensado.

Iam ambos a rir quando chegaram a casa. O patrão ria das saídas de Inocente, e este, de ver rir o Sr. Delmis. O almoço estava à espera. A irmã ia para lhe ralhar por ter tardado a pôr a mesa; ele, porém, declarou-lhe não ter sido sua a culpa, como lho provaria depois da refeição. Foi, pois, obrigada a protelar as censuras que se aprestava a fazer-lhe. O almoço foi considerado excelente; Inocente serviu-o lindamente; sentia-se orgulhoso dos elogios que lhe fazia o Sr. Delmis; eis senão quando, ao levantar uma compoteira de medronhos, a prendeu no penteado da patroa e a virou, espalhando-lhe o conteúdo na cabeça e no vestido.

- Desastrado! - exclamou ela, erguendo-se da mesa. - Escangalhou-me o penteado e manchou-me o vestido! Pode lá suportar-se?

Inocente olhava para aquilo calmamente.

- Não está nada perdido - disse. - Carolina tornará a arranjar o penteado; quanto ao vestido, também o mal não é grande, pois não é nada bonito… Sim, minha senhora, é verdade! - continuou, ao ver a senhora pronta a responder, enfurecida. - Mesmo nada bonito! Não fica nada bem à senhora! Parece muito mais nova e branca com o vestido de manhã do que com este.

SR.a DELMIS (encoleriZada) - Seu atrevido!

INOCENTE (com surpresa) - Mas, atrevido, porquê? Pois que foi que eu disse? Não será verdade, talvez? Ora pergunte- o ao patrão.

O Sr. Delmis sorria; mas ao apelo de Inocente, ergueu os olhos e deu com o rosto irritado da mulher, e com a cara espantada e algo apalermada de Inocente. Encolheu os ombros e desviou a vista sem dizer nada.

INOCENTE - Vê como o patrão não diz nada? Tivesse eu dito qualquer disparate, logo o patrão mo dizia. Tenho porventura culpa de os penteados da senhora, tão cómicos, se virem esbarrar nas travessas? Carolina que diga se eu lhe toco no cabelo! Nunca o faço, porque ela penteia-se com simplicidade.

SR.a DELMIS - Na verdade, não é possível ter em casa um rapaz tão insuportável!

O marido ia a falar, quando entrou Carolina a perguntar o que tinha havido.

SR. DELMIS - Não foi lá grande coisa. Inocente

esbarrou com a compoteira nos cabelos da senhora e despejou-lha pela cabeça abaixo.

- E o patrão agora está zangado, com certeza!

- exclamou Carolina, assustada. - Foi deveras lamentável! O lindo vestido da senhora todo manchado! Os seus bonitos cabelos encharcados de molho das framboesas! Se a senhora der licença, eu vou arranjar-lhe o penteado e limpar-lhe o vestido; fazendo isso já, as nódoas desaparecem.

Acalmada com a compaixão de Carolina e com o elogio aos seus cabelos, a Sr. a Delmis deixou a sala, acompanhada por ela, que lançou a Inocente um olhar de triste e suave censura.

Inocente, até então impassível, pôs-se a andar, a grandes passadas, de um para outro lado da sala, a bater na testa e a dizer:

- Fiz asneira! Bem o notei na cara de Carolina! Se o patrão quisesse ter a bondade de lhe dizer que não se zangasse comigo. Não foi de propósito; Toda a gente pode esbarrar com uma compoteira, de passagem! Que penteado aquele! Podia eu lá saber que lhe tinham soprado os cabelos, até lhe porem a cabeça do tamanho de um alqueire? Não me parece justo que me lancem agora as culpas; não acha, patrão?

SR. DELMIS - Olha, Inocente, tu não cometeste uma acção má, mas foste desajeitado e impertinente. Ora, não se pode ser nem uma coisa nem outra.

INOCENTE - Isso é fácil de dizer, patrão; eu

queria vê-lo no meu lugar a andar com uma dúzia de pratos e travessas, como eu esta noite, sem partir nada (porque ninguém pode dizer que eu tivesse partido coisa alguma), e só por uma compoteira entornada por cima de um vestido feio (porque ele é

feio, senhor; pode crer no que lhe digo), sobre um vestido feio, digo, e sobre uma cabeça penteada… penteada de