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O colégio
GASPAR - Mas que lesma! Vamos chegar tarde.
LUCAS - Olha o grande mal! O colégio é tão aborrecido!
GASPAR - Como sabes se nunca lá estiveste?
LUCAS - É fácil de supor. Estar metido três horas dentro de quatro paredes, aprender coisas sem se saber para quê, ser repreendido, apanhar pancada de um professor impertinente… Achas isso agradável?
GASPAR - A sala é grande…
LUCAS - Mas abafada.
GASPAR - Qual história!… Depois, nunca se aprende de mais… e é coisa muito divertida, aprender.
LUCAS - Sim, quando é para trabalhar ao ar livre; mas não para quebrar a cabeça.
GASPAR - Nada disso… Além de tudo o mais só nos ralham quando somos mandriões…
LUCAS - Sempre te digo que se não fosse meu pai obrigar-me a ir para o colégio, eu nunca lá entraria.
GASPAR - E ficarias ignorante como um burro.
LUCAS - E que tem isso?
GASPAR - Todos troçaríamos de ti.
LUCAS - Isso que importa? Não seria por esse motivo mais infeliz.
GASPAR - E quando receberes cartas, nem sequer poderás lê-las.
LUCAS - Nunca as recebo.
GASPAR - Mas quando fores crescido?
LUCAS - És tu que as lerás, visto quereres ser sábio.
GASPAR - Enganas-te! Não tas lerei pois não ficarei contigo.
LUCAS - Porquê?
GASPAR - Porque me aborrecerias deveras; não saberás ler nem sequer escrever.
LUCAS - Mas saberei outras coisas. Saberei lavrar, gradar, ceifar, partir lenha, guiar cavalos.
GASPAR - Hás-de ver: tornar-me-ei sábio, farei máquinas, livros, ganharei muito dinheiro, terei operários e viverei como um príncipe.
LUCAS (rindo) - Ah! ah! ah! Que belo príncipe! De blusa e de socos! Ah! ah! ah! Chegamos. Dêem passagem a Sua Alteza!
Lucas abre a porta do colégio, rindo às gargalhadas, e faz entrar Gaspar, repetindo:
- Passagem a Sua Alteza!
Todos se viram; o mestre desce do estrado, apanha Lucas pelas orelhas, dá-lhe um sopapo e empur ra-o. Gaspar escapa-se e vai sentar-se, muito envergonhado por causa do irmão.
Tocou a sineta para regressarem a casa. Os irmãos continuaram a conversa.
LUCAS - Que vida vai ser a tua?
GASPAR - Já to tenho dito. Fazer como o magricela do Sr. Féréor, que era um ferrageiro e tem milhões e fábricas em toda a parte e terra em vários pontos, e solares, e manda em milhares de operários e é tão feliz, que não é possível ser-se mais.
LUCAS - Feliz? Por isso ele grita tanto, e corre atrás dos seus operários como o cão atrás do gato; anda continuamente como o Judeu Errante, não descansando nem em dias santos nem aos domingos.
GASPAR - Não digo menos disso, mas possui milhões e a Legião de Honra, solares e terras em tal quantidade que não sabe o que há-de fazer delas; e todos o cumprimentam e temem.
LUCAS - É certo que o temem mas não gostam dele; e tu és o primeiro a chamar-lhe velho pergaminho, velho avarento, unhas de fome e não sei que mais.
GASPAR - Porque não é bondoso, não dá nada aos pobres e é ríspido para os operários; mas hás-de ver que não farei como ele.
LUCAS (rindo) - Nada disso verei porque ficarás o que és: operário a ajudar o pai a fazer prosperar a fazenda.
GASPAR - Mas eu não quero trabalhar na terra; já to tenho dito, não trabalharei nela.
PAI - Que estão a fazer? Preciso de vocês para apanhar a erva.
Gaspar e Lucas avistaram o pai que os fora esperar ao caminho, e parecia pouco satisfeito com aquela longa ausência.
Lucas correu ao encontro dele.
- Aqui estamos, pai; demorámo-nos, porque eu e o Gaspar vínhamos a discutir.
PAI (com rudeza) - E porque discutiam em vez de andar? Bem sabem que eu sozinho não posso apanhar a erva.
LUCAS - Está bem, pai. Vou já. Gaspar quer ser uma pessoa importante e eu estava a troçar dele.
PAI - Ah! queres ser uma pessoa importante? Ainda és muito novo, meu rapaz. Vai depressa à erva; eu vou buscar os atilhos e daqui a pouco estou com vocês.
O pai entrou no pátio da quinta; Lucas correu para o campo; Gaspar caminhava mais morosamente, repetindo:
- A erva, a erva! Que me importa a mim a erva? Ora é uma coisa, ora outra. Nunca se descansa nesta malfadada quinta. É arreliante, aborrecido!… E o palerma do Lucas que gosta deste trabalho pesado e maçador! Não percebe nada! É tapado como uma porta!
PAI (juntando-se-Lhe) - Olha lá, tens as pernas atadas? Pareces uma tartaruga a andar. Vê teu irmão, lá em baixo, pronto para o trabalho.
GASPAR - É que… tenho de estudar.
PAI - Estudar o quê?
GASPAR - As lições marcadas pelo mestre.
PAI - Quero lá saber do teu mestre e das suas lições! O teu dever é ajudar no trabalho da quinta; de momento não conheço outro. Vamos, anda, mexe-me essas pernas.
O pai empurrou com rudeza Gaspar, que estava maldisposto, mas foi obrigado a estugar o passo como o pai. Quando chegaram ao campo, Lucas trabalhava com afinco e já enfeixara parte da erva.
- Olha Gaspar: a forquilha está ao pé da árvore
- indicou ele ao irmão, que parecia procurar qualquer coisa.
O pai entregava-se já ao trabalho com a sua gente e ainda Gaspar estava a pegar na forquilha.
- Toma cautela - aconselhou Lucas a meia voz.
- O pai está a olhar para ti e parece pouco satisfeito.
GASPAR (em tom carrancudo) - Deixa-me em paz; se não está satisfeito, eu não o estou mais. Todos me aborrecem.
O pai continuava a olhar e notando a manifesta má vontade de Gaspar, abeira-se dele e dá-Lhe uma pancada com a forquilha.
- É para te dar coragem para o trabalho, mandrião! Começa, ou far- te-ei trabalhar mais rudemente do que imaginas.
Gaspar sabia muito bem que o pai não era para graças quando se tratava de trabalho e foi obrigado a entregar- se a sério à tarefa, mas maldisposto e de má vontade; em vez de remover a erva com a forquilha, empurrava-a deixando metade sem lhe tocar. O pai espreitava-o disfarçadamente.
Trabalharam assim perto de duas horas; estava calor; tinham sede. O campo encontrava-se limpo; antes de passar para o outro lado, o pai chamou os seus trabalhadores, a quem disse:
- Está calor; bebamos alguns copos e comamos uma bucha; vamos assim receber a recompensa do nosso trabalho.
Os trabalhadores, contentes com este quarto de hora de folga, agruparam-se junto da grande macieira bem copada que os abrigava do Sol. Lucas acudia, vermelho, a suar. Gaspar ia também tomar o seu lugar, mas o pai repeliu-o com rudeza, dizendo:
- Não ganhaste o teu lugar entre nós, grande preguiçoso; vai apanhar a erva, que apenas empurraste, e quando acabares, virás refrescar-te; mas antes, não.
Gaspar, sucumbido, não se atreveu a retorquir e deixou-se ficar de pé, imóvel, prestes a chorar. Embora não tivesse trabalhado bem nem muito, o suor escorria-lhe pela testa e sentia grande vontade de beber. Lucas, compadecendo-se dele, disse ao pai:
- Perdoe-lhe; já estava cansado do colégio, já tinha calor; por isso é que trabalhou tão frouxa mente.
PAI - E tu não estiveste no colégio como ele? Não tinhas também calor?
LUCAS - Sim pai, mas comigo é diferente. Trabalho menos no colégio do que Gaspar, e suporto melhor o calor e o trabalho do campo.
PAI - Porque tens coragem e entusiasmo pelo verdadeiro trabalho, e ele não passa de um maricas. Merece castigo. Não morrerá por causa disso e melhor trabalhará no futuro.
- Vamos. - prosseguiu, dirigindo-se a Gaspar.
- Faz o que te digo e avia-te.
O tom do tio Tomás não admitia réplicas. Gaspar pegou de novo na forquilha e começou tristemente a sua tarefa. Lucas levantou-se e foi para junto dele antes que o pai pudesse detê-lo.
LUCAS - Não te amofines, Gaspar. Eu vou ajudar-te; daqui a pouco temos a tarefa acabada e ainda chegas a tempo de comer uma bucha e beber um copo.
GASPAR - E tu? Também deves estar fatigado.
LUCAS - Ainda não; de resto, embora o estivesse, sentir- me-ia com forças para te ajudar.
GASPAR - Obrigado, Lucas… Tu sabes o que é o trabalho de uma fazenda! E queres que eu passe a vida a suar a aborrecer-me para apenas ganhar com que viva? Tão tolo não sou eu! Posso fazer melhor que isso e porei em prática a minha ideia quando for maior.
LUCAS - Ouve Gaspar; não há tanta diferença entre a fadiga do lavrador e a fadiga do colégio. Simplesmente, o meu trabalho é bom para a saúde, dá-me forças, apetite e sono; e tu, com os teus livros, cansas a cabeça, tornas- te macilento, dormes mal, sonhas uma multidão de coisas que não se compreendem.
Assim conversando e discutindo; findaram o trabalho. Lucas ouvira várias vezes o pai chamá-lo, mas fingira não ter ouvido, para mais depressa libertar o irmão da tarefa.
- Agora - disse Lucas, rindo - sou todo ouvidos e ouço o pai que quase enrouqueceu a chamar-me… Aqui estamos! - gritou. - Acabámos o servicinho!
Depressa chegaram junto dos outros que se encontravam debaixo da macieira e ambos pediram de comer e de beber. O pai apressou-se a dar a Lucas uma boa fatia de pão e um copo de vinho. Serviu menos abundantemente Gaspar.
TRABALHADOR - Não gostas de virar a erva, meu rapaz?
GASPAR - Não gosto do que cansa e causa calor.
TRABALHADOR - Ah! ah! ah! És fidalgo! E como queres que as coisas caminhem se ninguém quiser cansar-se, suar ou trabalhar?
GASPAR - Eu quero trabalhar mas em livros e escritas.
TRABALHADOR - Ah! Queres ser escrivão. Bonito emprego! Pois eu antes prefiro tornar-me vermelho como um rabanete a trabalhar a terra, do que empalidecer como um nabo, a espiolhar os livros.
GASPAR - Não hei-de ficar pálido de todo. O velho Sr. Féréor é pálido?
TRABALHADOR - Nem por isso. É de um tom violáceo, atirando para preto, à força de queimar o sangue a percorrer as estradas dia e noite para experimentar os fornos. Imaginas que é cor bonita para um cristão?
GASPAR - Não é a cor do Sr. Féréor que quero atingir: é a sua situação.
PAI - E supões, meu pateta, que conseguirás arranjar os milhões que ele tem ganho?
GASPAR - E porque não? Se ele os ganhou, eu não posso também ganhá-los?
TRABALHADOR - Ah! ah! O rapazito é ambicioso!
PAI - És parvo! De que te servirão os milhões depois de morreres?
GASPAR - Hão-de servir-me tanto quanto a si servem a erva e o trigo.
PAI - Lá nisso tens razão, depois de morto; mas durante a vida é melhor.
GASPAR - Como?
PAI - Porque vivo como activo lavrador que sou; não queimo os miolos a estudar nos livros; só me contento com o que Deus me dá e não atormento o coração a desejar os milhões que Deus não quis conceder-me, visto ter-me feito nascer camponês.
Gaspar não se atreveu a responder, porque nada de bom tinha a replicar. Acabou-se a meia hora de descanso e todos se levantaram.
TOMÁS - Agora, rapazes, guardemos a erva que foi enfeixada esta manhã. Tu, Guilherme, vai buscar a carroça grande. Tu, Lucas, ajuda a recolher o gado. Tu, Gaspar, apanha os ancinhos e as forquilhas e vai levá-los para junto dos feixes. E vocês, mulheres e rapazes, vão fazer atilhos ali para debaixo da macieira e apanhar a erva seca para ser ligada.
Todos se dirigiram a executar o trabalho indicado, rindo, cantando e apressando-se. Gaspar suspirava e enraivecia-se contra os trabalhos do campo.
Contudo, era preciso que trabalhasse e que, como dizia o pai, ganhasse o seu pão.
Amanhã - pensava - procederei de outro modo e hei-de ter uma boa hora de descanso, enquanto o pateta do Lucas se derreterá a trabalhar no campo.
Gaspar é rudemente castigado
No dia seguinte, de manhãzinha, o rendeiro chamou toda a sua gente; o tempo estava magnífico.
TOMÁS - Vamos, rapazes, venham todos; toca a trabalhar; as mulheres ficam na quinta para cuidar dos animais e fazer atilhos; é preciso que hoje todos aqui fiquem. Tu, Lucas, vens connosco, e tu, Gaspar, vai ajudar a mãe e às oito horas levarás o nosso pequeno- almoço ao campo.
GASPAR - E depois vou para o colégio?
TOMÁS - Hoje não há colégio, meu rapaz; este trabalho é urgente.
GASPAR - Mas, pai, o mestre vai ficar pouco satisfeito.
TOMÁS - Ora, deixa-me em paz com o teu mestre. Preciso de ti e por isso ficas.
O rendeiro foi juntar-se aos outros enquanto Gaspar permanecia imóvel e consternado.
- Não há colégio! Não há colégio! - repetia. E, contudo, preciso de lá ir; tenho de falar ao Sr. Tapefort.
Reflectiu por instantes. O semblante iluminou-se- lhe enquanto dizia:
- É Isso mesmo!
E correu à quinta, pegou num livro e foi ter com a mãe que batia manteiga.
GASPAR - Mãezinha: o pai disse-me que ficasse na quinta; eu vou restituir ao mestre o livro que me emprestou e volto já.
MÃE - Sim, filho, vai; mas não te demores, pois preciso de ti para me ajudares a bater a manteiga; sinto os braços cansados e não tenho quem me substitua. Foram todos para o campo.
Gaspar hesitou, por momentos. A pobre mãe suava tanto, que causava dó; ele via que a mãe precisava realmente de alguns instantes de descanso; que a enganava sob o pretexto de levar o livro ao professor e que faria bem em renunciar a tal nessa ocasião, mas o amor pelo estudo foi superior a tudo e saiu a correr.
Pobre rapaz! - pensou a mãe. - Como corre para voltar mais depressa! Estou tão fatigada, meu Deus! Sinto os braços entorpecidos.
E entretanto continuava a bater a manteiga que não queria coalhar.
MÃE - É singular! Há mais de uma hora que bato a manteiga e ela não coalha! Gaspar não deve demorar-se; daqui à escola a distância não é grande.
Gaspar, porém, não aparecia, e os braços da mãe cada vez estavam mais cansados. Enquanto ela se atormentava, Gaspar, tranquilamente sentado na aula, escrevia, lia, fazia contas. A aula ainda não estava aberta, mas pedira licença para lá se instalar.
- Porque - disse ao mestre - mais tarde não posso; precisam de mim na quinta; meu pai deseja que eu vá tratar da erva e não quero ficar atrás dos meus condiscípulos.
MESTRE - Mas teu pai vai ralhar-te quando te souber aqui, pois tens que fazer na quinta.
GASPAR - Ah, se lhe desse ouvidos, nunca viria à escola. Diz que são tolices e que não preciso de me mirrar por causa dos livros, que já sei bastante…
MESTRE - Faz o que quiseres. Nos livros aprende-se muita coisa.
GASPAR - Bem sei e é por isso que quero tornar-me sábio como o Sr. Féréor. Ora aqui está uma pessoa que fez fortuna.
MESTRE - Acautela-te, amigo, em quereres subir demasiado! E, principalmente, não desobedeças ao teu pai. Não esqueças que o respeito pelos pais é superior a tudo.
GASPAR - Mas eu não lhes falto ao respeito.
O mestre saiu, deixando Gaspar continuar o seu trabalho e repetindo-lhe que não desobedecesse ao pai e que só aparecesse na escola quando tivesse licença. Gaspar estudou com tanto entusiasmo que se esqueceu da hora, continuando a trabalhar com os outros que chegaram às oito e meia; davam nove horas quando a porta do colégio se abriu e Lucas entrou açodado.
LUCAS - Gaspar, Gaspar, o pai manda-me procurar-te. Anda depressa; está todo zangado e diz que se não lhe obedeces imediatamente, virá ele mesmo buscar-te e te levará daqui, à chicotada.
Toda a aula se movimentou; o mestre mandou Lucas sair, pois alvoraçava a aula.
LUCAS - Mas eu preciso de levar o meu irmão daqui. O pai ordenou-me que o levasse e que, se o senhor aqui o conservasse sem consentimento dele, faria queixa ao inspector.
MESTRE - Vai, vai, meu pobre rapaz; tens de obedecer a teu pai; vai depressa com o Lucas.
GASPAR - Mas senhor professor…
MESTRE - Aqui não há mas, nem meio mas, meu amigo; precisas de obedecer a teu pai, bem sabes. És bom rapaz, muito estudioso e muito inteligente. Hás-de seguir por bom caminho, prometo-te, mas mais tarde, quando teu pai te der licença.
Gaspar levantou-se, a suspirar, e seguiu morosamente Lucas, que, impaciente, batia os pés.
Quando saíam da aldeia, Lucas desatou a correr, dizendo ao irmão:
- Anda, despacha-te, Gaspar. Se soubesses como o pai está irritado! Estávamos à espera do pequeno- almoço que já tardava! Não sabia porque demoravas e parecia pouco satisfeito. Quando viu, porém, que não tinhas ajudado a mãe a bater a manteiga, que foras para a escola, que a pobre mãe estava extenuadíssima, que não podia virar a vasilha e que a manteiga não coalhara, ficou tão fulo, que nós todos trememos. Foi cortar uma vergasta à mata e receio bem que seja para te dar com ela.
Gaspar estugou o passo e pôs-se a chorar.
- Meu Deus, meu Deus! Que vai ser de mim! Quando está irritado não atende a coisa alguma, bate às cegas.
E continuava a correr; Lucas corria mais depressa ainda, esperando acalmar o pai antes que Gaspar lhe aparecesse. Gaspar, porém, perdera tempo em se resolver a sair da aula; caminhava devagar até sair da aldeia. A cólera do pai aumentava em vez de diminuir. Quando os avistou, dirigiu-se-lhes e, sem ouvir as súplicas de Lucas, sem olhar ao terror de Gaspar, sem dizer palavra, agarrou-o pelos cabelos e, com a vergasta que empunhava, deu-lhe tanta pancada, que Gaspar começou por pedir perdão e depois passou a soltar lamentosos gritos que fizeram acudir a mãe e a gente da quinta.
A mãe agarrou os braços do marido e tirou-Lhe a vergasta que tão rudemente fora aplicada.
MÃE - Bateste-Lhe forte de mais. Quando estás zangado nem sabes o que fazes.
PAI - Sim, cheguei-lhe para que o sinta, e, se torna a fazer outra, ainda apanha mais.
Gaspar chorava, Lucas chorava igualmente, a mãe estava pouco satisfeita e as raparigas da quinta agruparam-se em volta de Gaspar e de Lucas para os consolar.
RAPARIGA - Não chores, Lucas; tu não apanhaste.
OUTRA RAPARIGA - Isso não. Não eras tu que fugirias para o colégio com receio ao trabalho.
RAPAZ - Ora, vamos, Gaspar, não é preciso chorar. O caso está arrumado e ele não repetirá a dose.
OUTRO RAPAZ - Não foste o único a apanhar; eu também apanhei e não estou pior por isso.
RAPARIGA - Sem contar que não tinhas razão para correr para o colégio e deixar-nos em jejum.
OUTRA RAPARIGA - E deixares a tua mãe cansar-se com a manteiga, sem lhe dares uma ajuda!
PAI - Já acabaram? O trabalho atrasou-se por causa deste mandrião. Vamos! Agarrem nas forqui lhas e nos ancinhos e voltemos para o campo! Adiante de mim, seu doutor; acabarei por te ensinar o que me parece não saberes e por te convencer de que é bom não me fazeres zangar.
Gaspar caminhava com o mesmo passo do pai; um pontapé fê-lo espertar. Lucas abeirou-se do pai, a quem pediu:
- Não bata mais em Gaspar; já lhe bateu demasiadamente.
PAI - Bati-lhe e ainda lhe hei-de bater mais, se essa for a minha vontade. E tu nada tens a dizer; isto não é contigo.
LUCAS - É comigo é, pois Gaspar é meu irmão e não gosto de o ver sofrer.
PAI - Deixa-me em paz! Se sofre, a culpa é dele.
Lucas não ripostou; chegaram ao campo; todos se entregaram à tarefa, mas sem entusiasmo e sem alegria. Tomás amedrontara toda a gente.
Quando chegou a hora do almoço, notaram, ao sentarem-se à mesa, a ausência de Gaspar.
PAI - Onde está esse mariola? Ainda há pouco vinha ao pé de nós.
Ninguém respondeu; tinham visto muito bem Gaspar meter-se por uma pequena mata que ladeava o caminho, mas não quiseram dizer-lho.
PAI - Almoçaremos bem sem a sua companhia e, se voltar tarde de mais, pior para ele.
Comeram em silêncio; ninguém falava, ninguém ria. Tomás estava contrafeito; compreendia que se excedera e que dera pancada de mais no filho. Findava o almoço quando, pálido e triste, apareceu Gaspar.
PAI - Chegaste tarde, ronceiro. Acabámos; já nada há para ti.
Gaspar não respondeu; ia para se afastar, quando Lucas correu para ele.
LUCAS - Toma, meu pobre Gaspar: o pão que me sobrou e um ovo; guardei-o para ti.
Tomás lançou-lhe terrível olhar e arrancou-lhe o pão que ele oferecia ao irmão.
PAI - Pois atreves-te a dar-lhe de comer quando eu lho recuso?
LUCAS - Parece-me que não procedo mal em dar-lhe a minha parte e, nesse caso, não receio que me castigue.
PAI - Bem sabes que não quero que cada um seja servido à parte, e quando chega atrasado pior um pouco; tem de esperar pela noite.
MÃE - Mas tu não sabes o que atrasou Gaspar. Ora repara como está pálido.
Tomás fitou o filho e indagou em tom irónico:
- Que tens? Estás enraivecido? É essa a tua doença?
Gaspar continuou mudo; a palidez aumentou e caiu sobre um banco. A mãe e Lucas acudiram.
MÃE - Que tens, meu filho?
Gaspar não respondeu e desmaiou.
O tio Tomás começou a assustar-se, mas não se atreveu a dar a percebê-lo: tinha medo de que o desmaio fosse causado pelo castigo da manhã.
Todos se juntaram em volta de Gaspar, que não tardou em recuperar os sentidos.
MÃE - Sofres, meu filho? Que te dói?
GASPAR (com voz fraca) - Tenho fome; desde ontem que nada como.
MÃE - Deus do Céu! Porque não comeste? Depressa, Lucas, dá-lhe um prato de sopa; parece-me que ainda está quente.
Lucas prontamente trouxe a sopa; Gaspar comeu-a com avidez.
MÃE - Mas diz-me, Gaspar, como fizeste para ainda não teres comido até esta hora, três da tarde?
GASPAR - Esta manhã fui para o colégio; depois, fui vergastado; o pai, ainda por cima, obrigou-me a trabalhar; já não podia ter-me nas pernas quando voltei do campo; sentei-me um bocado à sombra, na mata; mas a fome espicaçava-me; levantei-me e pus-me a andar como pude.
- Estás a ver Tomás? - observou a mãe em tom de censura.
PAI - Olha a grande coisa! Não lhe causou grande mal. Dêem-lhe de comer e acabem lá com isso!
MÃE - E ralhares tu com Lucas quando este oferecia de comer ao irmão! É mais caritativo do que tu, e tu, que és o pai do rapaz, tens obrigação de o alimentar.
PAI - E quem te disse que lhe recuso o sustento? Ele não passa de um pateta; eu sabia lá que tinha ido para o colégio em completo jejum! Mas, basta! O tempo urge e o trabalho não luz. Fica com o teu mandrião; eu vou com os outros.
Na manhã seguinte, Lucas pediu licença, ao pai, para ir à escola com Gaspar.
PAI - Perdeste a cabeça, rapaz? Também me vais fazer aborrecer com a escola?
LUCAS - Não, pai; mas o mais importante do trabalho já está feito; só nos resta guardar a erva. O nosso professor não gosta de nos ver faltar; está a aproximar- se a época dos prémios e, se faltássemos muitos dias a seguir, nada teríamos: nem eu nem o Gaspar.
PAI - Visto isso, vai, mas a minha vontade era deter Gaspar; o mestre gosta muito dele e por isso não há perigo de lhe recusar os prémios.
LUCAS - Seja como for. Não leva a bem que os bons discípulos faltem, porque o inspector pode aparecer e querer interrogá-los e que se os que sabem mais não estão, o colégio fica mal colocado.
PAI - Tu bem fazes para me convencer. Ontem não te importavas tanto com o colégio como hoje; tu queres ir ao colégio para que o Gaspar vá também.
LUCAS (rindo) - É isso mesmo, pai. Adivinhou. Mas note que Gaspar sente muito desgosto quando não vai ao colégio; nem pregou olho em toda a noite! E depois, como havia de dormir? Doía-lhe o corpo todo.
PAI (aborrecido) - Está bem, está bem! Que vá! E tu ficas porque conseguiste os teus fins.
Lucas agradeceu e correu a anunciar a boa notícia a Gaspar, que deixara triste, a queixar-se das dores.
LUCAS - Gaspar, Gaspar! Podes ir para o colégio! o pai consente! vai depressa diz ao mestre que eu fico para ajudar na recolha da erva.
O rosto de Gaspar tornou- se radiante; agradeceu a Lucas, comeu à pressa e saiu logo, esquecendo as dores e correndo tanto como na véspera.
Desde então, o tio Tomás nunca mais aludiu ao colégio. Gaspar frequentava-o com regularidade; Lucas faltava todas as vezes que havia trabalho urgente.
Fazia grande arranjo na quinta. Com Gaspar não se podia contar, de maneira que ele aproveitava- se desse desprezo para ler e escrever durante quase todo o dia.
A distribuição dos prémios
Aproximava-se a distribuição dos prémios; os pequenos andavam agora todos inquietos; os preguiçosos, mesmo os que nada tinham a esperar, perguntavam uns aos outros que prémio lhes caberia. Antes da distribuição devia representar- se uma comédia escrita pelo próprio mestre. O teatro estava
armado no pátio. Algumas árvores abrigavam diversas cabeças do ardor do Sol. Na primeira fila de cadeiras e bancos figuravam a autoridade local, o adjunto e as famílias. Os pais chegavam em chusma. Lucas já se instalara num banco com os seus pais. Tendo chegado cedo, haviam escolhido um bom lugar à sombra de uma árvore. Gaspar fora nomeado mestre de cerimónias, para ajudar o professor a manter a ordem, a colocar toda a gente e, finda a comédia, a apresentar os prémios que se iam distribuir. O pátio estava repleto. Chegou a hora: um rufar de tambor anunciou o começo do espectáculo, sendo o pano lentamente descerrado por Gaspar e por outro rapaz, deixando ver uma floresta onde dormia um viajante.
Um ladrão surgiu no horizonte e preparava-se para roubar o viajante, quando um rapaz, que atravessava a floresta e empunhava nodoso cacete, se aproximou com rapidez e, sem fazer bulha, assentou tão forte cacetada na cabeça do gatuno, que este rolou, desfalecido. O viajante, acordando com o ruído julgou a princípio que os dois homens quisessem assassiná- lo; o rapaz, porém, explicou-lhe o caso; o viajante exprimiu o seu reconhecimento, quis dar ao seu salvador um rolo de moedas de ouro, que o rapaz, possuidor de alma generosa, recusou; o viajante leva-o consigo, chega a casa, conserva na sua companhia o rapaz, que é pobre e órfão, e ao qual dá cuidada educação. O rapazito torna-se sábio; amealha fortuna e todos ficam satisfeitos.
Aplausos e bravos se fizeram ouvir mais de uma vez; no fim, chamavam o autor; o mestre apareceu, trazido por seis dos melhores discípulos; uma coroa
desceuentamente sobre a cabeça dele; cumprimentou para a esquerda, para a direita e para o centro, enquanto os entusiásticos aplausos continuavam. A coroa tornou a subir; o mestre cumprimentou pela última vez e saiu, dando lugar aos pequenos que iam receber o prémio pelo seu trabalho.
O palco voltou a encher-se; o mestre reapareceu à frente da autoridade local e do adjunto, para quem tinham sido trazidas duas poltronas. Iniciou-se a chamada:
Prémio literário: GASPAR TOMÁS. Prémio de aplicação: GASPAR TOmÁs. Prémio de bom comportamento: GASPAR TOMÁS.
E assim, consecutivamente, até os prémios serem todos distribuídos. Os primeiros foram todos ganhos
por Gaspar; Lucas não mereceu um único, mas foi preciso arranjar-lhe também um, porque, nos campos normandos, um professor que não desse algum
prémio mesmo aos piores, concitaria contra si os pais e as famílias, que se tornariam
seus encarniçados inimigos. A Lucas, pois, foi concedido o prémio de boa disposição, que deveras o satisfez. A cada prémio descia a coroa sobre a cabeça do discípulo e tornava a subir para voltar a descer em segui da. Quando Lucas, último de todos, descia a recebê-lo a corda partiu-se e a coroa caiu-lhe em cima do nariz. Soaram grandes gargalhadas. Lucas justificou o prémio recebido, rindo de boa vontade com o
acidente. Gaspar vergava ao peso dos livros e das coroas com que fora contemplado. Lucas veio ajudá-lo.
LUCAS - Dá cá, dá cá. A minha carga é leve; posso muito bem ajudar a levar a tua.
GASPAR - Pobre Lucas! Foste pouco contemplado.
LUCAS - Seja como for, gosto do meu prémio; quanto ao prémio de trabalho, sei muito bem que não o mereço.
GASPAR - E como querias obtê-lo, se faltas tanto ao colégio?
LUCAS - Isso é verdade. Todas as vezes que há trabalho urgente na quinta.
GASPAR - Se assim continuas nunca mais aprendes coisa alguma.
LUCAS - Ora! Hei-de saber o que for possível para dirigir a quinta; é o que faz falta ao pai.
- Tens razão, Lucas - disse o pai. - Aproveitarás mais com a quinta do que com os livros. Os que Gaspar ganhou são bonitos, não digo o contrário, mas não dão tanto proveito como cem feixes de erva.
GASPAR - Servir-me-ão para apanhar duzentos feixes de erva onde vocês só apanham cem, e isto já é alguma coisa.
Muitas pessoas vieram cumprimentar Tomás por todas as coroas de Gaspar e riram um pouco do insignificante prémio de Lucas.
- Por Deus! - volveu o pai. - Prefiro, embora não seja melhor, o prémio de boa disposição, de Lucas, a todos os prémios de ciência, de Gaspar.
Por seu lado, Gaspar não estava completamente satisfeito; não podia evitar certas inquietações a respeito do seu futuro. A ambição penetrava-lhe pouco a pouco no peito e tornava-o silencioso e taciturno. Os primeiros êxitos pareciam entristecê-lo em vez de lhe darem felicidade.
Enquanto o tio Tomás conversava com os amigos, um sujeito muito alto, muito rubicundo, muito loiro, abeirou-se de Gaspar.
- Ser você que apanhar todos os prémias?
- Sim, senhor - respondeu Gaspar, modestamente.
FRÕLICHEIN - Ser bonita tal coisa! Três prémias! Seu pai, como chamar- se?
GASPAR - Tio Tomás.
FRLICHEIN - Querer dar-Lhe um palavra.
GASPAR - Ei- lo. É este indivíduo que conversa ao pé da porta.
FRÕLICHEIN - Bela! Bons tardes mein herr Que faz você de seu filha?
TIO TOMÁS - De qual?
FRLICHEIN - O que ganhou todos prémias.
TIO TOMÁS - Quer fazer dele alguma coisa?
FRÕLICHEIN - Querer ensinar mecânique.
TIO TOMÁS - Para que serve isso?
FRÕLICHEIN - Para contramestre!
TIO TOMÁS - Ora, ora! Eu rio-me dos seus contramestres. Entre os do Sr. Féréor não há um único que vá à missa. Gastam o dinheiro no café e maltratam os subalternos. Não, não! Não cedo os meus filhos para se tornarem vadios, fumadores, frequentadores de cafés.
FRÕLICHEIN - Ser pena, pois eu dar bela posição para seu filha.
TIO TOMÁS - AgradeÇo-Lhe, mas preciso dele, conservo-o comigo.
Frlichein afastou-se pouco satisfeito e foi falar ao mestre-escola.
FRLICHEIN - Você ter uma rapaz que eu desejar para mim.
MESTRE-ESCOLA - A quem se refere? Ao que ganhou todos os prémios?
FLICHEIN - Justamente. Querer essa rapaz
para meu serviça.
MESTRE-ESCOLA - É falar com o pai.
FRLICHEIN - Mas o pai não querer dá-la.
MESTRE-ESCOLA - Nesse caso, não pense
mais nisso.
FRLICHEIN - Você talvez poder.
MESTRE-ESCOLA - Nada posso; só o pai é
que pode resolver.
O mestre-escola meteu-se em casa e Frólichein
afastou-se, descontente.
- Não deixar perder de vista esta rapaz. Demónia de pai!
O tio Tomás voltou para casa com a mulher e os
criados. Felicitava Gaspar pelos prémios recebidos.
- Contudo - acrescentou -, empregarias melhor o tempo se fizesses como teu irmão.
LUCAS - Pai, quem é este homem que lhe falou
à saída do colégio?
TIO TOMÁS - É um homem que não conheço e
me pediu que lhe cedesse Gaspar.
GASPAR - Para quê?
TIO TOMÁS - Para te ensinar mecânica e fazer
de ti contramestre.
GASPAR - E quando principio?
TIO TOMÁS - Não principias nada, pois não te
cedo. Imaginas que vou ceder-te assim ao primeiro
que aparece? Queres que te meta numa fábrica com
todos esses mariolas que jogam, bebem, não põem
os pés na igreja e só sabem arruinar a algibeira e a
saúde?
GASPAR - Mas eu conheço muitos que são
bons.
TIO TOMÁS - Bons para arrastar os outros a maus caminhos. Que se te não meta isso na cabeça. Não quero e não cedo.
O tom seco e positivo do pai inibiu Gaspar de responder, mas disse de si para si que tornaria a ver o tal sujeito e o incitaria a insistir, a despeito da recusa do pai. Após alguns momentos de silêncio, Lucas desatou a rir.
- Pelo que vejo, Gaspar, os teus prémios não te alegram; em vez de te mostrares satisfeito, aparentas um ar grave, descontente, que entristece. Não dás palavra.
GASPAR - E que queres que te diga?
LUCAS - Sei lá! Mas quando se está contente não se mostra essa cara.
GASPAR - Tenho a cara de todos os dias.
LUCAS - Nada disso. Quando, por exemplo, Mateus e Julião desceram do estrado, parecia ler-se-Lhes nos olhos a felicidade, embora só obtivessem os segundos prémios, e no fim da distribuição foram beijar os pais. Tu nada disseste nem ao pai nem à mãe; não lhes deste prova alguma de amizade e até, para dizer tudo, tens um aspecto de aborrecido.
GASPAR - Porque me contrariam, porque não me deixam seguir o meu caminho como entendo.
O Tio Tomás voltou-se.
- Que estão vocês a dizer? De que caminho falam?
LUCAS (rindo) - Do caminho do colégio, pai. Gaspar não gosta do caminho que levamos.
TIO TOMÁS - E por onde quer ir?
LUCAS - Não sei lá muito bem. Bem sabe que ele tem ideias diferentes das de toda a gente. Chegámos e vamo-nos regalar com uma torta que a mãe fez esta manhã.
O jantar foi apurado: coelho salteado guisado de legumes com toucinho e a famosa torta acompa nhada de creme; a boa disposição de Lucas fez voltar a alegria, que a taciturnidade de Gaspar fizera desaparecer. Depois de bem comidos e de bons risos, saíram para tomar ar. Gaspar ficou para examinar os seus livros.
Na manhã seguinte, o Tio Tomás recebeu a visita do secretário de Féréor.
- Venho visitá-lo, Tio Tomás, da parte do Sr. Féréor. É para lhe pedir o seu rapaz, aquele que obteve todos os prémios.
TOMÁS - Para que o quer Féréor? Já lá está tanta gente! Que utilidade tem o meu rapaz?
SECRETÁRIO - Era para acabar de instruí-lo e fazê-lo contramestre.
TOMÁS - Não quero metê-lo entre esses mariolas da fábrica; os filhos são meus. Ficarão onde o bondoso Deus os fez nascer.
SECRETÁRIO - Faz mal, tio Tomás, faz mal. Seu filho fugirá contra a sua vontade. Tem ambições e isto não pode retê-lo.
TOMÁS - Veremos mais tarde, quando tiver mais idade.
Lucas entrou, açodado, e disse:
- Está lá fora esse homenzarrão ruivo que se exprime de maneira esquisita e quer falar consigo; esteve muito tempo a conversar com o Gaspar e insistiu em falar-lhe.
TOMÁS - Que entre. Que me quer esse alemão?
FRLICHEIN (entrando) - Bom dia, mein herr. Venho buscar seu filha.
TOMÁS - Estou farto disto! Repito o que lhe disse já: não quero ceder- lhe Gaspar. Conservo comigo meus filhos até terem idade de me deixar.
FRLICHEIN - Ter empenha na rapaz… Ser bom para trabalhar e aprender.
SECRETÁRIO - O senhor é estrangeiro; porque quer levar-nos as crianças mais inteligentes?
FRLICHEIN - Tomo-as à minha conta e educo-as. Mas isso não é com você.
SECRETÁRIO - É comigo, é, sim senhor, porque o meu patrão, o Sr. Féréor, quer ter Gaspar e há-de tê-lo.
FRLICHEIN - Estar enganada. Não o terá. Herr Tomás, dar-lhe trezentas francos por ano quando estiver apto.
SECRETÁRIO - E eu dou-lhe trezentos e cinquenta.
FRLICHEIN - Eu pagar-Lhe a aprendizagem.
Tomás ouvia, de braços cruzados, as ofertas daqueles cavalheiros. E continuava a acenar negativamente.
- Acabou-se! - disse por fim. - Tudo isso é muito bonito, mas eu não quero. Bom dia, meus senhores.
E Tomás voltou para a quinta.
Quando Gaspar passou pelos cavalheiros, cumprimentou-os e percebeu o motivo da visita, porque ambos haviam conversado com ele antes de falarem a Tomás. Nenhum deles retribuiu o cumprimento, tão animados estavam na discussão.
A vaca malhada
Passados alguns dias, ao fim da tarde, Gaspar estava a ler ao pé de uma árvore, enquanto Lucas fazia um cesto. Divertia-se de quando em quando a fazer cócegas no nariz e nas orelhas de Gaspar com as tiras, e ria ao vê- lo tão atento que nem dava pela brincadeira; imaginava que eram as moscas que lhe passavam pela cara e que ele afugentava maquinalmente, continuando a sua tarefa. As cócegas repetiam- se tantas vezes, que acabaram por impacientá-lo.
- As moscas estão insuportáveis, esta tarde - bradou. - Não me deixam trabalhar!
Lucas soltou uma risada.
GASPAR - De que te ris? Achas engraçado que as moscas me importunem?
LUCAS - Não são as moscas, sou eu que te faço cócegas com as tiras do cesto.
GASPAR - Tu? Que estupidez! Livra-te de metocares.
Gaspar retomou a leitura e Lucas o cesto; tinha na mão uma grande tira com que foi acariciar o rosto de Gaspar.
- Outra vez! Já estou aborrecido. Não quero que me toques. Ouviste? Não quero.
LUCAS - Zangas-te sem motivo; agora não fiz de propósito.
- Não recomeces - tornou Gaspar em tom seco e descontente.
Lucas estava muito perto do irmão, tão perto, que uma ponta da tira aflorou ainda a cara de Gaspar, o qual se virou para Lucas e lhe deu um murro.
Lucas arrancou o livro das mãos do irmão e arremessou-o para longe; Gaspar pegou no cesto de Lucas, partiu-o, fazendo o mesmo às tiras.
LUCAS - Andaste mal, Gaspar; o pai mandara-me fazer este cesto, de que precisava para amanhã, e tu despedaçaste-o.
GASPAR - Porque me aborrecias com as tuas cócegas?
LUCAS - Porque te não afastaste de mim?
GASPAR - Tu podias fazer o mesmo.
LUCAS - Não, porque eu tinha de deslocar as tiras, a ferramenta, o cordel e depois porque o teu trabalho não me incomodava; o incomodado eras tu. E agora, que irá dizer o pai?
Gaspar não respondeu: estava inquieto, porque sentia ter feito asneira. Lucas apanhou os destroços do cesto e voltou para a quinta, afim de fazer outro. Gaspar retomou a leitura, mas não dava grande atenção ao livro.
Lucas não contara o desastre acontecido ao cesto; recomeçara outro e apressava-se em acabá-lo para não se dar pelo ataque de mau humor de Gaspar. Enquanto trabalhava com ânsia, Guilherme veio sentar-se-lhe defronte.
GUILHERME - Não me vês, Lucas? Vim aqui trazer um recado para teu pai.
LUCAS - Ah! és tu? Estava tão entretido com o cesto, que não dei pela tua chegada. Que recado vens trazer?
GUILHERME - É uma carta para teu pai. Não sei o que vem dentro. Disseram-me apenas que era urgente.
LUCAS - Espera; vou chamá-lo; está ali a medir aveia para a criação.
Lucas foi ter com o pai e disse-lhe:
- Está aqui o Guilherme com uma carta; diz que é urgente.
O pai pôs de parte a aveia e dirigiu-se a Guilherme.
TOMÁS - Que temos, rapaz? Que me quer teu pai?
GUILHERME - Não sei, Sr. Tomás. Explica na carta o que é.
TOMÁS - Eu não sou muito forte na leitura. Saberás decifrar estas garatujas, Lucas?
Deu a carta a Lucas, que a examinou e a restituiu, dizendo:
- Não sei ler letra manuscrita.
TOMÁS - Exactamente como eu. Corre depressa a prevenir Gaspar; como é sabichão, vai-nos ler isso.
Lucas partiu a correr e foi chamar Gaspar, que deixara perto da quinta. Mas quando lá chegou ti nha desaparecido. Depois de o haver procurado e chamado durante algum tempo e como não o visse aparecer, voltou para trás.
LUCAS - Não o encontrei, pai; naturalmente foi para longe.
TOMÁS - Não há perigo de que volte para tra balhar. Aborrece-me com os seus livros. Está bem,
Guilherme. Diz a teu pai que não posso dar-Lhe resposta alguma. Dar-lha- ei mais tarde.
GUILHERME - Sim, Sr. Tomás. Vou imediatamente, pois recomendou-me que não me demorasse no caminho. Boa tarde Sr. Tomás; até depois, Lucas.
LUCAS - Até depois Guilherme! Vais amanhã ao colégio?
GUILHERME - Não; já não me deixam ir.
Guilherme cumprimentou e partiu.
- Que pena - volveu Tomás - não termos podido decifrar a carta! Se não estivesse tão atarefado, eu próprio iria saber o que o pai do Guilherme me quer. Pois tu ainda não sabes ler?
LUCAS - Mas, pai, só há um ano que vou ao colégio, e falto muitas vezes.
TOMÁS - E o Gaspar, que não aparece! Onde diabo estará ele metido?
Gaspar não tinha pressa de aparecer; julgava que o chamavam por causa do cesto; as costumadas conclusões desses assuntos eram sempre pancada. Gaspar queria deixar abrandar a cólera do pai e resolveu voltar para casa só à hora do jantar.
Quando chegou ao anoitecer, olhou assustado para a cara assombreada do pai, que lhe perguntou bruscamente:
- Onde tens estado, mandrião, vadio?
GASPAR (timidamente) - Andei a passear, a ler, pai.
TOMÁS - Quando és preciso, nunca te vêem. Tinha uma carta urgente para leres; procuraram-te por toda a parte… mas, sempre a mesma história. Quando podes ser útil para alguma coisa, somes-te.
Gaspar nada respondeu; estava amedrontado.
- Olha - tornou o pai. - Aqui tens a carta. Lê-a.
Gaspar pegou na carta e leu:
A vaca malhada que querias possuir e pela qual não te decidiste, parece agradar ao vizinho Camus; vem-ma comprar; dá-me duzentos e cin quenta francos por ela. Se te convém por este preço, vem buscá-la; responde já; se não mandares dizer que a pretendes, não te quero mal por isso. Camus paga- a e leva-a logo.
Teu amigo de sempre,
Guilherme
- A vaca! A vaca malhada! - bradou Tomás. Vendida, levada! E eu ficava com ela pelos duzentos e cinquenta francos! E este negócio falhou, por não saber ler! E tu, Lucas, madraço calaceiro! Não tens vergonha de não saberes ler? Há quinze meses que andas no colégio!
LUCAS - Pois sim, pai, mas são mais as vezes que falto do que aquelas em que lá vou!
TOMÁS - E porque faltas? Porque não fazes como o Gaspar, que nunca falta? Seja assim! Esse sempre aproveita o tempo. Com ele, nunca se está embaraçado! Sabe o que tu nunca chegarás a saber, meu parvo! Ao menos as mensalidades do colégio não ficam perdidas.
LUCAS - Mas é o pai que me manda ficar sempre para trabalhar na quinta! Bem sabe que não é
para mandriar ou para passear que não vou ao colégio: e que eu saiba, o pai nunca se queixou do meu trabalho. Custa muito ser tratado e repreendido como mandrião, quando se faz o que se pode; tanto mais que é para melhor trabalhar que não vou ao colégio.
O pobre Lucas chorou amargamente.
MÃE - Não é justo, Tomás! Lucas diz a verdade. eras tu quem o impedia de ir para o colégio como o Gaspar, a quem ralhavas e barafustavas sempre que o vias partir. Eras tu quem…
TOMÁS - Cala-te! Não me maces com os teus discursos. Não é menos verdade que fiquei sem a vaca malhada e não encontrarei outra igual.
MÃE - De quem é a culpa? Porque não aprendeste a ler?
TOMÁS - Cala-te, já te disse. Não me atormentes os ouvidos… Vamos para a mesa; já é tarde. Gaspar, estuda em casa o tempo que quiseres; não me zangarei por isso.
Gaspar, surpreendido e radiante, agradeceu ao pai e sentiu-se feliz como nunca o estivera havia dois anos. O pobre Lucas continuava a chorar.
TOMÁS - Ainda não acabaste, ignorante? Não te perdoo, porque me fizeste perder a vaca malhada.
O desventurado Lucas quis replicar, mas a mãe fez- lhe sinal para se calar, a fim de não aumentar a injusta irritação do pai. Lucas, um pouco conformado com o amistoso sinal da mãe e com os dos criados da quinta, enxugou os olhos e comeu como os outros. Findo o jantar, Tomás levantou- se da mesa e foi a casa de Guilherme, a ver se ainda podia reaver a vaca malhada.
- É impossível! - volveu Guilherme. - Camus pagou-a e levou-a.
TOMÁS - Porque não esperaste por mim?
GUILHERME - Eu supunha lá que te fazias de importante comigo. Se me mandasses dizer que não tinhas quem te lesse a carta diria ao Camus que voltasse amanhã; estava, porém, muito apressado, e como pensei que a vaca malhada não te conviria pelo preço, entreguei-lha logo.
Tomás não teve remédio senão reflectir sobre os inconvenientes de uma instrução descuidada; e tanto reflectiu, que caiu no excesso contrário e resolveu não só animar Gaspar, mas ainda obrigar Lucas a ir todos os dias ao colégio, até saber tanto como o irmão.
A feira
Avizinhava-se a data da feira. Lucas insinuou ao
pai que levasse lá uma novilha recentemente comprada, a fim de se desfazer dela.
TOMÁS - Vendê-la? Mas mete-se-te na cabeça
que quero vender um animal que adquiri apenas há
um mês ?
LUCAS - Acredite, pai. Não é boa, nunca será
leiteira; venda-a antes que a conheçam na terra. Dirá que veio de Trappe e isso fará com que a venda
bem, pois sabe-se que as vacas de lá têm fama.
TOMÁS - Mas porque achas que não será boa
vaca leiteira ?
Lucas fez-lhe ver todos os defeitos e sinais pelos quais se podia reconhecer que não seria leiteira. O pai hesitou: confiava nos bons olhos de Lucas, mas receava desfazer-se de um animal vindo de Trappe. No entanto, sempre se resolvera na véspera, a ir à feira.
TOMÁS - Lucas: vamos amanhã à feira; levarás a novilha; vendo-a.
LUCAS - Faz bem, pai. Verá que não tem pena
dela.
Lucas levantou-se no dia seguinte, muito cedo, e partiu com o pai. Colocaram-se no recinto da feira, encontraram um poste, onde prenderam a novilha, à
espera de comprador.
- Uma novilha que veio de Trappe - anunciou Lucas a um homem que parecia ser feitor.
FEITOR - De Trappe? As suas vacas têm fama.
- E com razão. A mãe desta novilha é um belo exemplar.
Lucas não mentia, pois a vira em Trappe. O feitor prosseguiu no exame da novilha. Lucas Percebeu logo que o outro não conhecia nada do assunto.
LUCAS - Ora veja este pêlo, esta bonita cabeça!
FEITOR - Sim, sim, mas as hastes são defeituosas.
LUCAS - Isso é conforme a vaca. E esta é da raça mais apurada.
FEITOR - Quanto pedem por ela?
LUCAS - Meu pai é que vai dizer. Pai, está aqui um sujeito a perguntar quanto quer pela novilha.
Tomás olhou, surpreendido, para o filho.
LUCAS - Sim, a novilha da Trappe, este senhor conhece as boas vacas da Trappe e sabe que esta é da mais apurada raça.
Tomás entrou em negociações com o homem, que era feitor numa propriedade perto. Após demorado regateio, o feitor acabou por pagar mais do que ela custara. O feitor entregou o dinheiro, chamou o criado da quinta e levou o animal, radiante por ter adquirido uma pechincha, enquanto Tomás também estava radiante por ter feito o negócio.
Antes de deixar a feira, quis dar uma volta pelo recinto para ver se descortinava algum animal para substituir a novilha que vendera. Ao olhar para um lado e outro, notou uma vaca que lhe fez palpitar o coração: era muito semelhante à tão lamentada malhada.
TOMÁS - Lucas vês ali aquela vaca?
LUCAS (com vivacidade) - É a malhada.
TOMÁS - Ou outra parecida, se não é a mesma. O tio Camus não é tão estúpido, que se desfaça de semelhante animal.
LUCAS - Sempre é bom ver; a mim parece-me ela.
Aproximaram-se e viram logo que era a mesma.
TOMÁS - Lucas, vai ver se é Camus quem a vende, mas não lhe digas nada; não quero demonstrar que tenho empenho na vaca.
No momento em que Lucas ia partir, chegou Camus.
CAMUS - Bons dias, Tomás. Andas à procura de uma vaca para comprar? Vendo-te a minha.
TOMÁS - Eu também tinha um animal para vender: o negócio fez-se e agora ando a dar uma volta pela feira com Lucas.
CAMUS - Não queres esta malhada? Formoso exemplar! Um arrátel de manteiga por dia! Um leite magnífico, um animal que nunca seca.
LUCAS - Até aí sei eu, pois já a vi na casa do vizinho Guilherme.
CAMUS - Ora não metas o nariz onde não és chamado.
LUCAS - É que nós conhecemos a vaca malhada. Meu pai não a quis há um ano.
CAMUS - É verdade, Tomás? Então não percebes nada disto.
TOMÁS - Ora, ouve. Tu que a revendes passado um ano é porque não estás contente com ela.
CAMUS - Pelo contrário, é a melhor do estábulo. Mas eu compro vacas para depois as vender e ganhar alguma coisa.
TOMÁS - E quanto queres pela malhada?
CAMUS - Cedo- ta por trezentos francos, nem menos um centavo.
TOMÁS - Não queres mais nada? Há um ano deste por ela menos cinquenta francos.
CAMUS - Não valia mais do que isso.
TOMÁS - Valia, sim. Mas eu não te pago isso.
CAMUS - Quanto dás, então?
TOMÁS - Para te falar com franqueza, não sei. Não tenho empenho nela e, além disso, pedes muito.
CAMUS - Mas, repara que é a melhor vaca da feira. Como é para ti, abato cinco francos e fica o caso arrumado.
TOMÁS - Cinco francos? Se dissesses quarenta, talvez o negócio se fechasse.
CAMUS - Acredito! Um animal tão bonito! Cedendo-to por duzentos e noventa francos, ainda perco, verdade verdadinha, ainda perco.
TOMÁS - E eu se te der duzentos e sessenta e cinco francos pela vaca, não faço bom negócio.
À força de conversa, de discutir, de regatear, sentiram ambos as goelas secas; contando ganhar alguns francos com isso, foram abancar a um café com Lucas.
Após infindas discussões, combinaram que Tomás ficaria com a malhada por duzentos e setenta e cinco francos e que pagaria a despesa do café.
Por fim Tomás estava de posse da vaca malhada tão chorada. Quando a pagou e a segurou pela corda, já não dissimulava a sua alegria e confessava a Camus como ficara arreliado por lhe haver falhado havia um ano e que não a largaria por trezentos francos. Camus estava desesperado.
- Quem o tivesse adivinhado! Obrigou-me a perder vinte e cinco francos! E o Lucas, que só dizia mal. Isso não é bonito, Lucas! Na tua idade não se deve ser tão manhoso.
Camus bem se arrependeu, enquanto Tomás, todo radiante levava a vaca.
TOMÁS - Corre à minha frente, Lucas, para dizeres à mãe que a malhada é nossa. E a ti a devo; porque, se não insistes em vender a novilha Trappe, eu não teria dinheiro para comprar malhada.
Lucas partiu; Tomás seguiu- o de longe, puxando pela vaca. Não estava ainda a dois quilómetros
da aldeia quando Lucas desapareceu, sempre a correr.
O pobre rapaz vai esfalfar-se - dizia consigo Tomás. - E ainda o humilhei, o injuriei, tratei mal durante mais de um ano! E ele tudo suportou sem um queixume! Pensar eu que, ao cabo desses maus tratos, me fez conseguir a malhadinha! Que miserável sou! Já não quero que vá para o colégio.
Tomás, que sempre se excedia, ora indulgente, ora severo em demasia, estugou o passo para alcançar Lucas e levar-lhe essa agradável notícia. Quando, porém, apareceu na quinta, Lucas já lá chegara havia algum tempo e a mãe esperava o marido e a vaca malhada.
- Lucas, Lucas - gritava o pai, de longe -, estou ansioso por te dizer que já não voltas para o colégio, que empregarás o tempo como quiseres, todos os dias.
LUCAS - Obrigado, pai, mas prefiro, se me dá licença ir ao colégio pelo menos meio dia. Deste modo, poderei ser útil na quinta e saberei ler e escrever.
TOMÁS - O quê? Agora queres saber ler?
LUCAS - Decerto, pai; se soubesse ler teria a malhada há um ano.
TOMÁS - Como quiseres, filho; tens certa razão no que dizes.
Gaspar é desejado por todos
As coisas continuavam como de costume; Gaspar passava os dias no colégio a estudar. Lucas trabalhava na quinta de manhã, e, depois do almoço, ia para o colégio. Gaspar tinha quinze anos. O seu desejo de aprender e vencer mais aumentav A alegria da sua idade já desaparecera. Mal se en tretinha com os divertimentos e jogos dos compa nheiros; silencioso e pensativo, punha-se de parte e deixava-se levar pelas suas ideias ambiciosas. Bastantes vezes as propostas que o pai recusara tão abertamente lhe acudiam ao espírito. Entretanto, nunca mais ouvira falar do alto alemão nem do velho F réor. Nova distribuição de prémios se devia realizar dentro de breves dias.
Nas vésperas, enquanto Gaspar ajudava o professor a arranjar a sala e a rotular os livros destinados aos prémios, a porta abriu-se e viram aparecer a cabeça ruiva e o comprido pescoço de Frlichein.
FRLICHEIN - Então minha boa amiga, haver reflectido em meus ofertas? Chegar o momento de felicitá-la. Quantos anos ter?
GASPAR (sorrindo) - Mais um ano do que o ano passado; quinze.
FRLICHEIN - Brava! Ser bonita idade! Que dizer seu pai?
GASPAR - Nada, mas deixa-me livre, já não me proíbe de estudar.
A cabeça sumiu-se e o mestre pôs-se a rir, dizendo:
- Este endemoninhado alemão não me larga a porta. Se teu pai aceitar as propostas dele, ficarei bastante contente.
GASPAR - Eu também; o que quero é começar.
MESTRE - Para isso precisas de deixar a casa e a terra.
GASPAR - A terra não, se vou para a fábrica de Féréor. Quanto à casa, não me dá grande abalo. Lucas anda sempre pelo campo; minha mãe está atarefada com os amanhos da quinta; meu pai, ora diz que sim, ora diz que não; um dia contraria-nos injuria-nos, bate-nos; no dia seguinte, sem se saber porquê, deixa-nos fazer o que na véspera o fizera zangar.
MESTRE - O que quer dizer que não gostas nem tens saudades de ninguém.
GASPAR - É isso, pouco mais ou menos.
MESTRE - De facto, nunca mostraste ter muito coração. Além disso, Gaspar, visto havermos chegado a este ponto, sempre te digo que há muito que te observo e, para falar com franqueza, não estou contente contigo. Ninguém, decerto, é mais pontual do que tu à aula e tens aproveitado bastante com as lições. Estás muito mais adiantado do que os outros e, contudo, não estás satisfeito como eles. Pensas demasiadamente no fim que pretendes atingir e esqueces os meios por que podes atingi-lo. Lembra-te de que não basta alcançar a riqueza; é mister, principalmente, seguir um caminho recto. Submete-te mais a teus pais, perdoa-lhes as censuras que te façam; respeita e sê grato aos teus superiores e a todos aqueles que se interessam por ti, mostra-te afectuoso e bom camarada com as crianças da tua idade; lembra-te, principalmente, de que o amor de Deus e a caridade são os teus primeiros deveres; de contrário, embora sejas rico comó Féréor, nunca serás mais feliz do que ele; sentirás continuamente que alguma coisa te falta; o teu coração endurecerá; ninguém te estimará se tu não estimares pessoa alguma. Continuarás a procurar a felicidade sem nunca mais a encontrares. Deves sentir que isto é justo; pensa bem.
Enquanto Gaspar conversava com o mestre, Frlichein corria a passos largos para se entender com Tomás e levar-lhe o filho.
Tomás estava em casa; não acertava as contas de um negócio que realizara; faltavam-lhe dez francos que não encontrava. Assim, estava maldisposto quando a porta se abriu e surgiu Frlichein.
- Outra vez o alemão? - rezingou.
FRLICHEIN - Bons dias, herr Tomás. Que ter a dizer de seu filha?
TOMÁS - Já lho recusei duas vezes. Deixe-me os rapazes; isso é comigo.
FRLICHEIN - Mas, herr Tomás. Sua rapaz tem quinze anos. Ser boa idade. Ser bem paga; a rapazar contenta.
TOMÁS (em tom aborrecido) - Não vendo os meus filhos.
FRLICHEIN - Mas, por Deus… Não valer pena zangar. Não lhe desejar mal. Pelo contrária: desejar melhor bem possible. Verá o que eu fazer por rapaz. Será rico como o judeu daqui.
TOMÁS - Aqui não há judeus.
FRLICHEIN - Se dizia judeu é para rir; mim referir à velho Féréor. Eh! eh! eh!
TOMÁS (irritado) - Féréor é tanto judeu como qualquer outro. Não quero que um estrangeiro venha insultar um francês, um homem que faz viver toda a região.
FRLICHEIN - Ora, vamos, herr Tomás não zangar! Que lhe dizer eu? Desejar apenas sua rapaz. ada mais. Dizer que seu filha ir ganhar quatrocentos francos por ano e que se a portar bem, dentro de dois anos, ganhar quinhentas francos, ser vestida, sustentada, etc.
Tomás, abalado com tão vantajosas condições, amaciou e, após algumas dúvidas sanadas, disse-lhe que ia pensar, que falaria a Féréor antes de se resolver.
FRLICHEIN - Diaba! Não ser preciso consultar Féréor. Prometerá muita mas nada fará.
TOMÁS - Isso é comigo. Nada resolverei sem
lhe falar.
FRLICHEIN - Andar mal, andar mal, herr Tomás. Eu querer seu filha já e ele intrujar você… Verá.
TOMÁS - Se me enredar, eu me desenvenciálharei. Boas tardes. Estou com um negócio entre mãos e não posso perder o tempo em conversas.
Frolichein saiu, descontente e inquieto; desejava bastante Gaspar. A inteligência, a perseverança e a boa vontade desse rapaz deviam torná-lo um homem invulgar e, no prazo de três a quatro anos, seria deveras útil na sua fábrica. Queria dar uma lição a Féréor, com quem competia no fabrico de ferros e metais.
Tomás, que era esperto, viu bem o partido que podia tirar desta concorrência.
Cederei Gaspar ao que me oferecer mais - pensou. - As duas fábricas equivalem-se, há bom e mau. Preferia que ficasse connosco, como Lucas, a entrar nessas fábricas com essas mecânicas que nos trituram com as suas rodas e engrenagens, se não há cuidado. Mas visto que absolutamente o
querem…
A distribuição de prémios fez-se como os anos transactos, apenas com a diferença de que, antes do começo do espectáculo, o mestre anunciou que a aptidão, a inteligência e aplicação extraordinárias de Gaspar Tomás o punham fora do concurso e que em substituição de todos os prémios que merecera, apenas lhe fora concedido um prémio excepcional e único, o Dicionário das Ciências e das Artes e um belo volume de Matemáticas Especiais.
Todos ficaram satisfeitos, porque os primeiros prémios seriam ganhos por diversas crianças, em vez de serem conferidos só a Gaspar. Este ficou radiante com as duas magníficas obras que lhe seriam utilíssimas para os estudos que de futuro havia de fazer.
Estava, como sempre, muita gente; aplaudiu-se a comédia, coroaram-se os bons estudantes; conversou-se.
Pouco a pouco os grupos foram-se afastando; só ficaram algumas pessoas que se felicitavam reciprocamente.
Frlichein meteu-se sorrateiramente no grupo do tio Tomás.
FRLICHEIN - Eu desejar felicitar o rapazinha e dar pequena lembrança por esta belo dia.
TOMÁS (secamente) - Obrigado. Gaspar foi-se embora com o irmão e os companheiros.
FRLICHEIN - Recear vir demasiada tarde. Pedir entregar seu filha este lembrança.
E quis meter na mão do tio Tomás um pequeno pacote.
TOMÁS - Que é isto?
FRLICHEIN - Ser pequeno bolsa; pequeno lembrança com qualquer coisa.
TOMÁS (trocista) - Dê-lhe o senhor mesmo, se quer; quanto a mim, nada ganhei no colégio; nada tenho a receber.
O tio Tomás afastou-se, a rir, com os seus amigos, do ar atarantado de Frlichein.
Foi retido no caminho pelo secretário de Féréor.
SECRETÁRIO - Bons dias, tio Tomás.
Deu-lhe vigoroso aperto de mão, prosseguindo:
- Parabéns! Seu filho ultrapassou todos os outros. E que honrosos prémios não recebeu!
TOMÁS - Sim, senhor. Não se portou muito
mal. Tem uma biblioteca.
SECRETÁRIO - E decide-se a colocá-lo, a tirar
ì vantagem da grande inteligência desse rapaz? Que
idade tem ele?
TOMÁS - Quinze anos feitos há dois meses.
SECRETÁRIO - É uma bela idade! Precisamente a idade própria para começar a estudar a
mecânica, matemática, geometria, etc.
TOMÁS - Talvez; nem eu nem minha mulher
temos pressa de nos separarmos dele. Minha mulher, principalmente, insiste em não o deixar partir.
E eu, compreende, não quero desgostá-la.
SECRETÁRIO - E como vai a bondosa tia Tomás?
TOMÁS - Muito bem, obrigado; saiu à frente
com Lucas e Gaspar. Vou ter com ela.
SECRETÁRIO - Posso acompanhá-lo?
TOMÁS - Ora essa; até pode comer connosco.
SECRETÁRIO - Obrigado, mas o Sr. Féréor
está à minha espera. Os negócios caminham lindamente! Bom fabrico; os operários bem pagos; os
rapazes são gente capaz e seguem bom caminho;
hão-de fazer fortuna.
Tomás evita responder; sabia muito bem que o
secretário de Féréor queria proceder de maneira a
que Tomás pedisse um lugar para Gaspar; não queria, porém, depreciar a mercadoria e esperou; por
seu lado também se tornava astuto, no interesse do
próprio Gaspar.
TOMÁS - Mas há outra fábrica que rivaliza
com essa e, segundo consta, também caminha bem.
SECRETÁRIO - Não é tanto assim, meu amigo.
Como havia de seguir bem com um alemão à testa
dela?
TOMÁS - No entanto, parece satisfeito; oferece
quinhentos francos como quem oferece cêntimos.
SECRETÁRIO - Oferece quinhentos francos?…
Então é porque já veio falar consigo…
TOMÁS - Aparece por aí algumas vezes.
SECRETÁRIO - Isso não é bom! Desconfie dele. Acautele-se com esse árabe! É um velhaco que mete as pessoas no coração. Eu sei para que ele quer o Gaspar. Mas livre-se de lho dar, passará uma vida miserável.
TOMÁS - Nada disso; as fábricas são a mesma
coisa.
SECRETÁRIO - Não creia tal. Veja a nossa!
Como está bem montada! Aí é que o Gaspar será
feliz.
TOMÁS - Sei lá! Pagam bem aos operários?
SECRETÁRIO - Isso é conforme; os indivíduos
vulgares não são muito bem pagos; mas tratando-se
de um rapaz inteligente que tem futuro, como o seu
rapaz, o caso muda de figura.
TOMÁS - Nesse caso, quanto pagariam a Gaspar?
SECRETÁRIO - Ora… quinhentos francos.
TOMÁS - Adeus, meu amigo… O alemão
também nos oferecia isso e eu recusei.
SECRETÁRIO - E seiscentos? Cedê-lo-ia por
seiscentos?
TOMÁS - Vou pensar. Preciso, antes de aceitar ou recusar, de falar com Frlichein, que ficou de voltar.
SECRETÁRIO - Nada resolva sem me prevenir.
TOMÁS - Está bem; far-lhe- ei saber quanto me oferece.
SECRETÁRIO - Conto com a sua promessa tio Tomás.
TOMÁS - Sossegue; só tenho uma palavra.
SECRETÁRIO - Bem; não me despeço, pois
breve aparecerei.
O secretário retirou-se e o tio Tomás ficou a rir. - Tenho-os na mão. Gaspar há-de obter boa colocação. Quanto a Lucas, conservá-lo- ei na quinta: vale por um homem. Começa a lavrar menos mal. Só há uma coisa que não consigo que ele faça: trabalhar ao domingo. Quanto a isso, por mais que
insista, prefere deixar perder uma ceifa a trabalhar aos domingos.
Enquanto repousava, reflectindo, com os cotovelos fincados na mesa, e a cabeça nas mãos, a porta abriu-se, dando entrada a Frlichein, que não fez barulho. O tio Tomás continuou a reflectir; Frolichein sentou-se, resolvido a esperar que Tomás despertasse, pois o julgava a dormir.
Por fim, Tomás levantou- se e bradou:
- Olha, é o Sr. Frlichein. Está aí há muito tempo?
FRLICHEIN - Há instantes. Vir lembrar que querer Gaspar.
TOMÁS - É teimoso! Acabei de falar com Férey, o secretário do Sr. Féréor, o qual me apresentou tão boas ofertas, que estou na ideia de Lhe ceder
o rapaz.
FRLICHEIN - Oh! mein Gott! Bom tio Tomás, eu dar-Lhe sempre mais do que esse homem do diaba Eu dar seiscentos francos.
TOMÁS - Féréor ofereceu-me o mesmo.
FRLICHEIN - Mein Goott! O mesma?
TOMÁS - Não resolverei o assunto sem me avistar com Féréor ou com o seu secretário.
FRLICHEIN - Que diaba tio Tomás! Esse judeu nunca lhe dar o que eu dar E, afiançar-Lhe, já dar de mais.
TOMÁS - Está bem, está bem, Sr. Frlichein.
hei-de ver isso.
FRLICHEIN - Quando receber resposta definitiva? I
TOMÁS - Não tenha pressa. Dentro de alguns dias far-lhe-ei saber pelo mestre-escola o que decidir.
FRLICHEIN - Boas noites, tio Tomás.
Acautelar-se com o judeu! Só lhe dizer isto.
Frlichein saiu pouco satisfeito. Além de ter em
mente acabar a educação mecânica de um rapaz tão
inteligente e trabalhador como Gaspar, sabia que o
seu rival Féréor se empenhava em possuí-lo, e ele
não queria que o outro triunfasse.
Na manhã seguinte, o tio Tomás referiu a
Gaspar o que se tinha passado entre ele e Frlichein.
- O secretário de Féréor vem cá hoje; é preciso resolver; por igual quantia, em qual das fábricas queres entrar?
GASPAR - Prefiro Féréor; é daqui, é pessoa conhecida e eu reconhecerei todos os companheiros.
Prefiro entrar para casa deste, pois já tem fortuna feita; a de Frolichein ainda não está bem consolidada… Bem vê, pai, que eu tinha razão em estudar como estudei, mesmo contra sua vontade. Assim, vou ganhar quatro vezes mais do que o Lucas.
TOMÁS - Sim, sim; fizeste bem, mas o Lucas também fez bem, porque a quinta…
Foi interrompido pela chegada do próprio Féréor. Todos se levantaram e tiraram os chapéus.
FÉRÉOR - Tio Tomás, consta-me que hesita em entregar-me o seu rapaz. Anda mal; tem capacidade, gosta de trabalhar, anseia subir; em minha casa estará melhor do que noutra qualquer e subirá mais depressa.
TOMÁS - Mas Frlichein…
FÉRÉOR - Não me fale em Frlichein; é um estúpido, um animal que nada vale, que será metido na cadeia por dívidas dentro de alguns anos. Fico com o seu rapaz por quinhentos francos e prometo-lhe aumentá-lo logo que possa. Encarrego-me da sua manutenção; não precisa de se preocupar com coisa alguma. Bons dias, tio Tomás; bons dias a todos. Tu, Gaspar, anda comigo; vou apresentar-te ao meu secretário Férey.
Gaspar fitou o pai, que não ousou retê-lo, e seguiu o novo patrão.
- Aqui tens - disse-lhe Féréor - uma moeda de cinco francos; é a tua gorgeta. Estás satisfeito ou zangado por te raptar, como faço?
GASPAR - Muito satisfeito; meu pai nunca se decidiria. O senhor assusta-o; não se atreve a resistir- lhe.
FÉRÉOR - Então, temem-me cá na terra?
GASPAR - Parece-me que sim. Quando o esperam na fábrica, estão atentos ao trabalho; não há perigo que se distraiam da tarefa.
Tem olhos de lince e excelentes ideias - pensou Féréor. - Pode ser- me útil.
- Soivrier, aqui está o pequeno Tomás que te trago. Cuida dele. é preciso que trabalhe com Férey e tu lhe ensinarás o que tem a fazer na fábrica; que, sozinho, se ponha ao corrente de tudo. Instala-o junto de ti e dá-Lhe o que for preciso para sua manutenção.
SOIVRIER - Sim senhor; cuidarei dele, como
diz, e incitá-lo-ei.
FÉRÉOR - Sim, sim; há-de ser- me útil e quanto
mais depressa, melhor. Até depois.
E Féréor saiu. Gaspar ficou com Soivrier.
SOIVRIER - Ora vamos, instalemo-nos. Onde estão as tuas coisas?
GASPAR - O Sr. Féréor não me deu tempo de trazer fosse o que fosse; vou à quinta e trago de lá o indispensável.
SOIVRIER - Não, não quero que saias daqui; deter-te- iam. Vou eu mesmo e trago as tuas coisas. Enquanto me ausento vais esticar o arame.
Soivrier levou Gaspar ao esticador de arames, mandou preparar o camto e dirigiu-se à quinta de Tomás.
Lucas aguardava o regresso de Gaspar para saber quando entrava na fábrica de Féréor; ficou surpreendido e penalizado ao ver aparecer Soivrier sozrnho. O pai e a mãe mostraram-se muito descontentes com o rapto do filho.
MÃE - Nem sequer mudou de camisa!
TOMÁS - Nem sei se o emprego Lhe agrada!
SOIVRIER - Sosseguem; virá visitá-los no domingo; despedir-se-ão dele mais à vontade no próximo domingo. Venho cá buscar as suas coisas. Faça
de tudo um embrulho, tia Tomás, e meta-lhe lá os
livros, que lhe são precisos.
MÃE - Eu não sei quais são; nunca os vi.
LUCAS - Sei eu, mãe; de resto, se alguns ficarem, virá buscá-los no domingo.
O embrulho depressa se fez e Soivrier meteu-se
logo no carro. Todos na quinta ficaram pasmados
com a rapidez desta Partida.
COCHEIRO - E assim que o Sr. Féréor faz os
seus negócios: é tudo num ápice.
TOMÁS - Parece-me que tem razão. Vês
mulher? Esperaria, hesitaria e talvez me tivesse resolvido pelo pior. Como Féréor apareceu pessoalmente, não pude resistir-Lhe, nem impor-lhe condições. Levou- mo! Nenhum de nós trocou palavra antes de Gaspar haver partido.
MÃE - Nem sequer o beijei!
TOMÁS - Beijá-lo-ás no domingo; parece-me
que já não está muito longe.
No dia seguinte ao daquela brusca partida, Frlichein, muito esperançado e resolvido a ultrapassar
todas as ofertas de Féréor, o seu rival, entrou de
mansinho em casa de Tomás que acabava de comer.
- Não incomodar-se, excelentes amigas - disse
ao ver que se levantavam da mesa.
TOMÁS - Já acabámos; não nos incomoda
nada.
FRLICHEIN - Eu vir ainda para dizer querer
levar sua rapaz.
TOMÁS - Bem sei; isso calculo eu. Mas, repare, Féréor tinha tanto empenho no pequeno, que me resolvi a ceder-lho; quando quer qualquer coisa há-de tê-la por força.
FRLICHEIN - Mas, tio Tomás, ele não precisar ter seu pequena; bem saber que não ser certo. Seu filha irá para a rua dentro de pouco tempa.
TOMÁS - Contudo, Féréor ainda ontem me dizia…
FRLICHEIN - O quê? O quê? Féréor ter estado cá ontem?
TOMÁS - Sim, senhor. Pessoalmente. Dizia-me…
FRLICHEIN (aterrado) - Mein Gott! Ser intrujado; raptar-Lhe rapaz…
TOMÁS - Já nada há a fazer. Levou-o ontem.
FRLICHEIN (ainda aterrado) - Levado? E deixá-lo levar! Pobre imbecil! E não ir buscá-lo? Não ir detê-lo?
TOMÁS - Não, senhor. Está tudo arrumado. Um empregado veio buscar a roupa.
FRLICHEIN (irritado) - Miserável! porque não esperou por mim? Eu dar mais do que esse gatuna, esse velhaca! E porque me fazer perder tanto tempa a pedir?
TOMÁS - Deixe-me em paz, senhor alemão. Fui eu que o chamei? Já estou farto das suas visitas que não pedi. Sempre lhe recusei Gaspar. Tenho culpa de que se fizesse bajulador para o conseguir? Viva, bons dias, tenho mais que fazer.
FRLICHEIN - Estúpida campónia! Já não querer teu Gaspar, mesmo que pedir-me de joelhos para o levar. Deixar aborrecê-lo em casa do gatuna, do bandida.
TOMÁS - Por quem é, vá-se embora, vá espairecer. Peço- lhe alguma coisa para Gaspar? Quero lá saber da sua cólera! Féréor esmagá-lo-ia como uma pulga se o importunasse.
FRLICHEIN (exasperado) - Uma pulga, uma pulga! Hás-de pagar-mas, patife, mariola.
Frlichein mostrou o punho e saiu ouvindo as gargalhadas de Tomás e de todos os da casa.
- Má peça, este cavalheiro!
TOMÁS - Não foi sorte Féréor ter vindo buscar o Gaspar?
MÃE - E pensar eu que estive inclinada a deixá-lo ir para casa deste brutamontes!
Quando Gaspar veio visitá-los no domingo seguinte, todos lhe formulavam perguntas sobre o que fazia, sobre os companheiros, sobre os contramestres, sobre o próprio Féréor.
GASPAR - Estou bem; sinto-me feliz; os companheiros não são maus; quanto a mim, os contramestres não são lá muito cuidadosos, isso não; deixam às vezes fazer coisas que não deviam fazer-se. Féréor aparece muita vez, mas não se demora; vê tudo por alto e não minuciosamente.
Em seguida a ter contado algumas coisas da fábrica, saiu com Lucas e com o pai para dar um passeio.
Primeiras habilidades
e primeiros êxitos de Gaspar
Lucas ia ao colégio mais frequentemente desde que Gaspar deixara a quinta, pois só a ele tinham para escrever uma carta, assentar as contas, etc. Começava a ler bem, a poder escrever claramente. O tio Tomás nada tinha a censurar-lhe, e na quinta todos viviam sossegados e felizes.
Na fábrica, Gaspar trabalhava com toda a energia, com toda a inteligência. Não era por causa de
Féréor que assim se aplicava, mas, por si próprio, !;; para seu aperfeiçoamento. Contudo, tornava-se deveras útil a Féréor, contando-lhe o que se passava e se dizia. Féréor gostava muito de saber tudo e
ninguém o trazia tanto em dia como Gaspar; por
esse motivo, levava-o muitas vezes para lhe fazer
ver, no próprio local, as coisas de que queria encarregar os contramestres.
- Como se porta o Urbano? - perguntou-lhe, certa vez, Féréor. - Está bem adestrado no trabalho?
GASPAR - Sim, senhor. Há-de aperfeiçoar-se.
Há dias teve uma questão com Cristiano, o contra-mestre. Decerto o senhor soube disso.
FÉRÉOR - Não. Cristiano nada me contou.
GASPAR - O quê? Nada lhe relatou?
FÉRÉOR - No seu caso, procederias assim?
GASPAR - Não. Não haveria pai, amigo ou
namorada que me impedissem de cumprir o meu
dever. Cristiano tem um lugar de confiança e deve
tornar-se digno dele, pondo o interesse do patrão
acima de tudo.
FÉRÉOR - Possuis bons sentimentos, Gaspar.
Interessas-te pelos meus negócios?
GASPAR - Ora essa? Os seus negócios são o
maior interesse da minha vida. E depois, o reconhecimento que Lhe devo torna-me desejoso de me
consagrar completamente aos interesses do meu benfeitor.
FÉRÉOR - Muito bem, Gaspar. Não esquecerei os serviços que me tens prestado. Encontra-te todas as quintas e segundas-feiras, à uma hora, perto da entrada da ponte; é a hora de almoço dos operários. Quando me vires aparecer, atravessarás o bosque e irás esperar-me ao meu chalet de azevinhos, onde ninguém tem o direito de entrar; assim poderemos conversar sossegadamente e pôr- me-ás ao corrente do que se passar.
GASPAR - Obrigado, Sr. Féréor. Os momentos que passo consigo são os mais felizes da minha vida; fazem-me bem ao coração.
Gaspar falava verdade; Féréor era para ele o meio mais cómodo de subir, o único para chegar à situação e à fortuna que queria ganhar a todo o custo, e era para ele da maior importância obter a absoluta confiança de Féréor. Podia, por meio dessas conversas bastante confidenciais, fazer com que o favor e a confiança do patrão se concen trassem nele; era o caminho da riqueza e do poder; só ele devia segui- lo, todos os outros deveriam ficar para trás.
Sentia certos remorsos em denunciar assim os companheiros, mas expulsava-os, dizendo: Quero ser rico e poderoso; demais, apenas digo a verdade; cumpro o meu dever junto de Féréor; o pior é para eles, que não cumprem o seu.
As coisas seguiram regularmente durante quase dois anos. Gaspar aproveitava-se das conversas às quintas e segundas-feiras para obter cada vez mais a confiança, quase amizade do patrão. Por sua vez era espiado por dois contramestres, sem nada desconfiar. Estes nunca tiveram nada a dizer dele. Nem uma falta ao serviço, nem um relaxamento no seu zelo, na sua actividade; nunca uma palavra imprudente,
nunca a mais leve censura contra Féréor. Submissão
perfeita, admiração profunda, dedicação absoluta, respeito constante, tais foram os sentimentos que
Gaspar fazia sempre transparecer por Féréor. Este
homem - que consideravam duro, orgulhoso, egoísta - ficou por fim sensibilizado com as vantagens que lhe ofereciam a inteligência e o afecto de Gaspar. Nunca encontrara tanta dedicação, tão verdadeiro afecto, tão sincero reconhecimento. Por toda a parte vira o interesse pessoal ser superior ao
dever. Este egoísmo tornara-o severo até à dureza, miserável até à desumanidade, desdenhoso até ao
orgulho. Só a desconfiança e o egoísmo lhe imperavam na alma, que nunca se abrira a qualquer sentimento afectuoso. O que via no comportamento de Gaspar, o que sabia dos seus sentimentos dispuseram-no a seu favor. Resolveu dar-lhe uma situação mais independente do que a de simples operário: encarregou-o da direcção de uma oficina de bobinas e de uma vigilância geral nas de arame e latão.
Gaspar honesto, pontual, activo e capaz, dirigiu
de tal modo essas oficinas, que Féréor nunca encontrou um motivo de censura, nada a mudar, nada a
aperfeiçoar. Féréor, generoso uma vez na sua longa
vida, aumentou em alguns anos os honorários de
Gaspar para mil francos, depois para dois mil e, por
fim, para três mil. A cada aumento, Gaspar fazia
transparecer um reconhecimento e uma alegre surpresa que lisonjeavam o amor-próprio do velho Féréor. Gabava continuamente a generosidade, a
bondade do seu excelente patrão; essas palavras,
espalhadas pelos outros, aumentavam-lhe o prestígio.
De vez em quando, as palavras do mestre-escola acudiam ao espírito de Gaspar; não sentia a consciência tranquila. Sabia bem que não tinha bastante afeição pelos pais e que Féréor era para ele apenas um meio de atingir os seus desejos; contra sua vontade, o seu coração seco e egoísta censurava-lhe, por vezes, a sua maneira de proceder para com os camaradas. Todos os dias conseguia novo progresso na confiança do patrão, mas a ambição que o devorava apenas lhe permitia a alegria de um êxito que percebia não estar ao abrigo de censuras.
A herança
Enquanto Gaspar subia vagarosa mas continuamente pelo caminho da riqueza, o tio Tomás e Lucas prosseguiam na sua vida útil e ocupada. Gaspar raras vezes vinha visitá-los: o domingo era o seu único dia de liberdade; Féréor ia igualmente nesse dia ao seu palacete da fábrica; gostava de lá encontrar Gaspar, que não perdia o ensejo de se apossar do espírito de Féréor, a quem acompanhava por toda a parte, sacrificando- lhe com prazer - afirmava - a visita a casa dos pais. Gaspar não mentia, visto o seu fito principal ser a riqueza e a posição. Ficava realmente mais satisfeito em estar às ordens do velho Féréor, que principiava a estimá-lo deveras e de
quem dependia o seu futuro do que em visitar os pais a quem quase não amava e que se lhe tinham tornado inúteis.
A ausência de Gaspar fez compreender melhor a Lucas a necessidade de aprender a ler e a escrever e prosseguiu as lições no colégio até que soube ler correctamente e escrever sem dificuldade.
Certo dia, o tio Tomás recebeu uma carta tarjada de luto. Lucas andava pelo campo; precisava de esperar pela sua volta para saber o que ela continha.
- Lucas, Lucas - bradou Tomás de longe, ao
filho que regressava, vagaroso como um rapaz
cansado. - Anda depressa, Lucas: há aqui uma
carta para ler!
Lucas estugou o passo, e em breve se encontrou perto do pai.
- Aqui a tens, lê depressa. Não sei de quem é
mas vem tarjada de luto.
Lúcas abriu. Era uma carta de um notário a
anunciar-lhe o falecimento de uma velha prima que
casara e os deixara a seguir, havia mais de quarenta
anos, de quem ninguém se lembrava já, mas que não
esquecera a familia e a terra natal e que, não tendo
filhos, legara toda a riqueza ao primo Tomás, a
quem sempre estimara mais do que aos outros.
A surpresa de Tomás foi grande.
- Olha que excelente prima! Agora lembro-me
bem dela: fomos sempre muito amigos. Era eu
quem a defendia sempre que lhe ralhavam. Quando
casou com um negociante do Sul, fiz calar a boca
dos maldizentes que a censuravam por deixar a
terra… E a quanto monta a herança?
Lucas continuou a leitura da carta. Tinha perto de duzentos mil francos a receber, a maior parte em terras, e o restante em dinheiro. O notário acrescentava que o herdeiro devia comparecer o mais depressa possível para tomar posse de tudo e pagar os direitos de transmissão.
TOMÁS - Como hei-de ir? Como posso abandonar a quinta, o meu conchego, para correr atrás de uma riqueza? Tenho muita vontade de mandar dizer ao notário que arranje tudo pelo melhor, mas sem mIm.
LUCAS - Espere, pai, não se apresse. Consulte Gaspar, que lhe dará um bom conselho.
TOMÁS - E se tu lá fosses, Lucas? Ele aparece cá tão raramente! Estaremos mais de um mês sem o ver, se não o formos procurar.
LUCAS - Tem razão, pai; é justamente a hora de almoçar; deve estar em casa; vou lá.
TOMÁS - Pareces-me cansado para lá ires sem comer.
LUCAS - Tinha muito que fazer, pai; a cevada é tão abundante, que nos vimos para acabar a ceifa começada esta manhã.
TOMÁS - Já acabaram? Foi um meio dia bem empregado. Mas não comes antes de partir?
LUCAS - Vou já, de contrário passa-se a hora e, como sabe, não é possível falar-lhe quando está nas oficinas.
TOMÁS - Bem sei isso. Féréor a quem encontrei no outro dia felicitou-me pela sua pontualidade e disse-me que me não inquietasse com o seu futu ro, do qual se encarregava.
LUCAS - Vou comer uma sopa e sigo já.
Lucas engoliu um pequeno prato de sopa e correu à fábrica. Gaspar comia sozinho no seu quarto;
ficou surpreendido com a visita de Lucas.
GASPAR - Que vens cá fazer a esta hora? Há
alguém doente em casa?
LUCAS - Não, não; estão todos bons; venho
consultar-te por causa de um assunto.
GASPAR - E terei tempo? Dirige-te ao mestre- escola, que ele sabe o bastante para te resolver esse
assunto.
LUCAS - Qual história? Trata-se de uma herança de duzentos mil francos. Que queres tu que ele resolva?
GASPAR - Uma herança? Duzentos mil francos De quem?
LUCAS - De uma velha prima falecida em Bordéus e que deixa tudo ao nosso pai. Não sabe como proceder.
- Duzentos mil francos! - repetiu Gaspar, pensativo. - Ouve, deixa cá ficar a carta; vou lê-la
e pensarei no caso e talvez possa evitar ao pai a
maçada de lá ir.
LUCAS - E quando posso vir saber a resposta?
GASPAR - Depois de amanhã, talvez amanhã.
Far-te-ei saber pelo Henriquinho, que passa por
nossa casa todas as tardes ao voltar da fábrica.
Adeus, Lucas, adeus, vai-te embora; estou com
pressa.
LUCAS - Até mais ver, Gaspar. E não te demores, porque o pai ficou atarantado com essa
carta.
GASPAR - Atarantado? Não há motivo para
isso! Duzentos mil francos são uma boa maquia!
LUCAS - Sim, mas ele prefere não ter de lá ir, nem que para isso tenha de fazer qualquer sacrifício.
GASPAR - Tudo te direi. Vai-te embora, pois tenho de ir para o trabalho.
E, sem esperar que Lucas se despedisse, Gaspar correu em direcção à fábrica a fiscalizar a hora de entrada dos operários; os retardatários eram marcados implacavelmente: nenhuma consideração impedia Gaspar de cumprir o seu dever.
Lucas voltou a correr para a quinta. Acabavam de almoçar quando entrou. Os operários voltavam para o trabalho.
MÃE - Pobre rapaz! Estás vermelho e esbaforido! Tens o teu almoço quente! Senta-te, filho, e descansa; pareces-me extenuado.
LUCAS - É verdade que estou cansado, mãe, mas depois de comer, fico bem… Gaspar estava com pressa, não teve tempo de ler a carta do notário; não deu a sua opinião, mas ficou de nos dar resposta amanhã ou depois o mais tardar. Conto que poderá livrar-se da viagem, pai.
TOMÁS - Se tal acontecer, faz-me grande favor e receberá boa recompensa. Foi uma sorte, esta herança! Pensava tanto na prima como se ela nunca existisse.
No dia seguinte, Gaspar estava no seu posto, junto da ponte, à espera de Féréor.
Nada posso fazer sem lhe falar - pensava - e depois, ficará lisonjeado se Lhe pedir algum conselho… Estou cansado, quase não dormi a noite passada. Trata-se de um caso importante para mim; o começo do meu futuro, da minha riqueza.
Não esperou muito tempo. Féréor era a pontua lidade personificada. Assim que a carruagem parou, Gaspar encaminhou-se para o chalet de azevinhos.
Quando se instalaram, Gaspar teve o cuidado de
falar do seu caso antes que o interrogatório de Fédéor terminasse.
FÉRÉOR - E tu, Gaspar, tens alguma coisa de
particular a dizer-me?
GASPAR - Nada teria se não o soubesse benévolo, tão bom para mim e de tão sensato conselho.
Trata-se de uma importância de duzentos mil francos a receber, e aqui tem como…
Féréor apurou o ouvido.
- Duzentos mil francos é uma excelente quantia. Fala depressa; sou todo ouvidos.
Gaspar leu a carta do notário. Quando a acabou, disse:
- É esta a dificuldade. Era preciso que meu pai
lá fosse, mas não quer; transtorna-o muito e depois
não percebe nada do assunto; enganá-lo-iam.
FÉRÉOR - E que pensas fazer? Deves ter
reflectido muito desde ontem.
Féréor fitava-o com o seu olhar penetrante.
Gaspar sentia-se perturbado; tanto podia descer como subir na estima do patrão.
FÉRÉOR - Tens medo, Gaspar?… Prefiro isso… É sinal de que percebes de negócios.
E Féréor acentuou a palavra.
GASPAR - O patrão adivinhou. Tenho medo, mais medo da sua opinião do que de todo o mundo.
FÉRÉOR - Vamos meu amigo, sossega; fala
sem receio e com toda a franqueza. Ouves? Com
toda a franqueza.
GASPAR - Tudo Lhe direi.
FÉRÉOR - Senta-te; calculo que é assunto para demora; coloca-te bem defronte de mim, para te ver bem.
Gaspar sentou-se em frente de Féréor.
GASPAR - Quero fazer um negócio desta herança de meu pai, mas honestamente, sem o enganar.
Féréor sorriu.
GASPAR - Um negócio para mim. Se meu pai fizesse as coisas pessoalmente, metade da herança desapareceria em notários, advogados e papelada. Quero propor-lhe encarregar-me de tudo, de correr com todas as despesas, que devem orçar em mais de cinquenta mil francos, com a condição de que me ceda os direitos à herança, calculada em duzentos mil francos.
Ele guardaria cento e cinquenta mil francos, que lhe entregaria sem mais despesas. Eu ficaria senhor da herança; se ganhar, como espero, pedia ao patrão que tivesse a bondade de empregar esse dinheiro na sua fábrica; seria o começo da minha fortuna.
Gaspar, calou-se, fitando, inquieto, Féréor, que não o largava de vista, continuando a sorrir. Após alguns instantes de silêncio, Féréor agarrou nas duas mãos de Gaspar e apertou-as nas suas.
- Precisamente o que eu faria. É tudo o que há de melhor; ninguém perderá; pelo contrário, todos ganharão.
Gaspar, deveras contente, beijou a mão de Féréor, que sorriu, mas desta feita com benevolência.
FÉRÉOR - Mais uma pergunta. Em que prazo
te comprometias a pagar a teu pai os cento e
cinquenta mil francos?
GASPAR - Dentro de quinze dias.
FÉRÉOR - E onde e como encontrarás tal
importância?
GASPAR - Na sua caixa; conto que terá a
bondade de mos emprestar, tendo como garantia
toda a herança que meu pai cederá logo que a
receba.
FÉRÉOR - E se não tos emprestar?
GASPAR - Pedi-los-ei ao notário de Bordéus,
com a herança para penhor de pagamento.
FÉRÉOR - Está bem, Gaspar; previste tudo, arranjaste tudo: é um negócio bem pensado, muito
bem mesmo. Terás os cento e cinquenta mil francos
quando quiseres e autorizo-te a colocar na minha
fábrica o que te ficar da herança.
GASPAR - Obrigado, patrão, cem vezes obrigado e sempre obrigado. Foi o patrão quem me reécolheu, que me fez instruir, que me educou de modo a ter uma inesperada situação, e agora começa a minha fortuna com essa generosidade, essa bondade
nunca desmentidas.
FÉRÉOR - Sinto-me satisfeito por te prestar tal
serviço. Gaspar, tu, ao menos, não dirás que sou
avarento.
GASPAR (com calor) - Avarento! O mais generoso dos homens! O mais justo e o melhor dos
patrões! Que venham dizer o contrário na minha
cara! E eu, que nunca bati em pessoa alguma, cair- lhe-ei em cima com toda a força que Deus me deu!
- Obrigado, meu amigo - agradeceu Féréor com uma voz quase meiga que Gaspar nunca lhe notara.
E Féréor afastou-se depois de lhe haver apertado mais uma vez a mão.
Gaspar esperou alguns minutos para dar tempo a que o patrão desaparecesse; em seguida, entrou na floresta, saindo pelo lado oposto, e voltou para a fábrica, a fim de receber os operários e distribuir-lhes trabalho. Féréor não tardou a entrar também; examinou o trabalho, aprovou o que se fizera e disse a Gaspar em voz alta:
- Vai a casa de teu pai; diz-lhe o que te recomendei. Está de volta dentro de uma hora; dar-me-ás conta do que se combinou com ele.
GASPAR - Onde o encontrarei, patrão?
FÉRÉOR - Aqui ao lado, no meu escritório.
Gaspar, com o coração cheio de alegria, correu a casa do pai, que estava só com a mãe e Lucas.
GASPAR - Pai, venho pessoalmente trazer-lhe resposta ao assunto da carta do notário. Mas estou com pressa, como sabe. Explico tudo em poucas palavras. Aqui tem o que proponho. É preciso ir a Bordéus, onde terá de ficar até que a herança da prima Danet esteja nas suas mãos. Gastará muito dinheiro e perderá tempo: algumas semanas, alguns meses talvez, mas ficar-Lhe-ão cento e cinquenta mil francos; vale a pena deslocar-se.
O tio Tomás estava aterrado.
TOMÁS - Ir a Bordéus?! Permanecer lá semanas, meses! Morria de tédio e de tristeza! Vê se encontras outro meio. Esse não me agrada.
GASPAR - Ele… havia um meio, mas talvez o pai não aceite.
TOMÁS - Seja o que for. Diz lá.
GASPAR - Seria vender todos os seus direitos à herança mediante uma quantia que lhe seria entregue ao assinar um documento.
TOMÁS - É melhor assim. Quanto seria preciso pedir?
GASPAR - Cento e cinquenta mil francos, que é quanto lhe ficaria se fosse tratar do assunto a Bordéus, porque, desde que a herança é quase toda em terras e moradias, tinha muitas dificuldades a aplanar, muito tempo a perder, muitos adiantamentos a fazer.
TOMÁS - E quem poderia dar-me assim de repente tão importante quantia?
GASPAR - Eu me encarrego disso. Féréor é bom e generoso; não se recusaria a adiantar-ma.
TOMÁS - Féréor? Bom e generoso? Estás a gracejar!
GASPAR - Falo muito a sério.
TOMÁS - Se imaginas poder consegui-lo, dou-te o meu consentimento; faz tudo pelo melhor.
GASPAR - Está combinado. Vou tratar de en contrar alguém seguro e honesto. Até breve.
A hora adiantava-se; estugou o passo, pensando que ainda teria tempo de dar uma olhadela pelas oficinas antes de se dirigir ao escritório de Féréor.
À hora exacta, foi ter com Féréor. Quando chegou, este entrava também.
Gaspar esperou que Féréor o interrogasse.
FÉRÉOR - Então que disse teu pai?
GASPAR - Acabou por consentir.
FÉRÉOR - Conta-me como as coisas se passaram. E não esqueças nada, nem as tuas palavras nem as dos outros.
GASPAR - Assim farei.
E Gaspar começou o relato da conversa havida entre ele e o pai. Quando chegou à defesa da bondade e da generosidade do patrão, este fez um gesto de satisfação; examinou mais atentamente a fisionomia de Gaspar. Quando acabou de falar, volveu:
- Pensas o que estás a dizer?
GASPAR - Com toda a verdade.
FÉRÉOR - Está bem. Arranjaste bem o teu negócio. É conveniente concluí-lo depressa, para não lhes dar tempo de consultar amigos… que os enganariam. Vens esta tarde comigo à cidade; levarás o meu notário; redigirá o contrato na minha presença, copiá-lo-á; amanhã fá-lo-ás assinar por teu pai e será o começo da tua fortuna.
GASPAR - O patrão terá a bondade de pôr no contrato que, depois da mórte de meu pai, o lucro que eu tiver retirado deste negócio me será contado como herança e que meu irmão retomará a mesma importância na fortuna de meu pai.
FÉRÉOR - Direi isso ao notário. O que fazes é generoso; é mais do que honesto. Saio daqui a duas horas; apronta-te.
Féréor despediu Gaspar com um gesto. O patrão permaneceu alguns instantes imóvel e pensativo.
Estimar-me-á, realmente? - perguntava de si para si. - Não é possível! Nunca ninguém me estimou e eu nunca estimei pessoa alguma. Seja como for, é singular! Há seis anos que o tenho aqui e… e… não sinto o mesmo por ele que pelos outros. Se tivesse um filho como ele. Um filho. Enfim. verei mais tarde a forma de me afeiçoar a ele de maneira que a sua fortuna dependa só de mim. e os meus interesses sejam os dele.
Reflectiu durante largo tempo e depois saiu. Quando Gaspar saiu de casa dos pais, Lucas disse ao pai que tivera muita pressa em dar o seu consentimento.
LUCAS - Gaspar vai rápido de mais. O pai devia esperar antes de se resolver.
TOMÁS - Esperar o quê? Para me arreliar e adoecer? Eu já não dormia por causa disso!
LUCAS - Poderia levar ao notário da cidade a carta do de Bordéus e saberia, ao certo, se poderia receber a herança sem lá ir.
TOMÁS (com secura) - O caso está resolvido com Gaspar e não se pode voltar atrás, e eu receberei os meus cento e cinquenta mil francos sem me preocupar com o resto.
Lucas não proferiu palavra; como o pai dissera, o assunto estava resolvido.
De facto, dois dias depois, enquanto jantavam,
viram, surpreendidos, entrar Féréor, acompanhado
por Gaspar e pelo notário.
FÉRÉOR - Não se incomode, tio, Tomás. Deixe-se estar sentado; vamos passar ao quarto
contíguo a fim de tratar do caso que sabe.
O tio Tomás, indeciso, levantou-se, abriu a porta e introduziu Féréor e quem o acompanhava. O notário leu o contrato, de que o tio Tomás não
percebeu palavra, e passou-lhe a caneta para assinar.
- Mas. - objectou o tio Tomás.
- O quê? Que é? - tornou Féréor, com esse tom seco e frio que assustava toda a gente. - Imagina que eu e Gaspar queremos enganá-lo? leram-lhe o contrato! Quer ou não receber imediatamente cento e cinquenta mil francos e renunciar à herança de Danet?
- Sim, decerto - respondeu o tio Tomás, aterrado. - Só queria saber…
- Assine - ordenou Féréor, dando-Lhe a caneta.
O tio Tomás, trémulo, assinou. Gaspar assinou por sua vez e, depois, Féréor.
O notário tirou um sobrescrito lacrado que apresentou a Féréor, que o recebeu, o abriu e contou cento e cinquenta notas de mil francos que deu a Tomás.
- Faça assinar o recibo - disse Féréor ao notário, que entregou a Tomás um papel que este assinou, sem saber o que fazia.
Féréor levantou-se, disse a Gaspar que o acompanhasse e ao notário que ficasse e saiu, depois de dizer adeus com a mão.
FÉRÉOR - Disseste ao notário que desse os passos necessários para te fazer entregar a herança?
GASPAR - Sim, patrão. Está tudo combinado.
FÉRÉOR - Estás feito proprietário; resta saber de quanto. Quero estar ao corrente deste negócio. É mister que esse dinheiro seja o começo da tua riqueza. Principiei com metade e, sem ninguém me ajudar, consegui em poucos anos melhorar; é preciso que faças o mesmo. Estou aqui para te amparar e quero que a tua riqueza seja feita depressa.
Gaspar sabia que Féréor não gostava de demorados agradecimentos nem de transportes de gratidão; assim, limitou-se a tomar a mão de Féréor, a
beijá-la e a dizer:
- Meu generoso benfeitor!
Féréor ficou mais lisonjeado com essas três palavras do que com estiradas frases de reconhecimento
que o maçariam e em que não acreditaria.
O notário, que ficara em casa de Tomás, devia
explicar o contrato, que ele não percebia. Era um
problema para Tomás.
Lucas foi, dos três, quem melhor compreendeu.
Ao ver que as explicações do notário resultavam
inúteis, tomou a palavra.
- Aqui tem o que é, pai. É Gaspar quem faz o
negócio consigo. Vendeu-lhe ou cedeu-lhe toda a
herança da prima Danet, mediante cento e cinquenta mil francos que Gaspar lhe pagou e cujo recibo o
pai assinou. Além disso, Gaspar compromete-se a
informá-lo da importância líquida da herança da
prima, para que eu, Lucas, não fique com menos do
que ele, após a sua morte. Aqui tem o que é.
NOTÁRIO - Muito bem, Lucas. Explicaste tudo perfeitamente em poucas palavras. Nada tem com que se preocupar, tio Tomás; a não ser em colocar o dinheiro. Se isso o embaraçar, fale comigo; colocá-lo-ei com segurança e vantagem.
TOMÁS - Faça tudo pelo melhor; tenho absoluta confiança em si. Eis-me livre desta herança; apenas tenho que me preocupar com algumas missas por alma da minha falecida prima.
O notário entregou ao tio Tomás a cópia do
contrato e saiu.
Adopção de Gaspar
Um belo dia, Féréor trouxe a Gaspar um rapaz dos seus dezassete anos, dizendo-lhe:
- Aqui tens um rapaz para ensinar, a fim de te ajudar na tarefa; é inteligente e trabalhador; deve ser- nos útil daqui a uns três anos. Vais instalá-lo no aposento pegado ao teu, para o viares e ajudares no trabalho.
GASPAR - Sim, patrão. Farei o melhor que puder.
Quando Féréor se retirou, Gaspar mostrou a André o aposento que devia ocupar e disse-lhe que arrumasse aí as suas coisas.
- Virei buscá-lo daqui a uma hora para o levar às oficinas.
Voltou, como dissera, e encontrou-o tristemente sentado na única cadeira que Lhe mobilava o pequeno quarto.
GASPAR - Que tem, André? Porque está triste?
ANDRÉ - Estou desgostoso por ter deixado meus pais.
GASPAR - Que tolice! Se o Sr. Féréor o visse a chorar por causa disso, não ficava lá muito contente.
ANDRÉ - Terei o cuidado de não chorar na presença dele; posso estar triste quando fico só.
GASPAR - Como quiser; contudo, é um disparate.
Gaspar levou-o às oficinas, que pareceram distrair e interessar André. Chegou mesmo a fazer algumas observações muito inteligentes a respeito das engrenagens e da marcha das bobinas.
Este rapaz tem a intuição da mecânica - pensou Gaspar. - Posso aproveitá-lo.
Quando Féréor pediu a Gaspar notícias sobre o seu protegido, Gaspar respondeu:
- Tem aparência de ser bom rapaz e inteligente; o que é preciso é que vença o seu desgosto.
FÉRÉOR (com secura) - Desgosto por ter entrado para a minha fábrica?
GASPAR (sorrindo) - Que quer? O rapazito tem pais a quem estima extremosamente, decerto, pois chora por os ter deixado e prometeu-me que há-de chorar sempre que esteja só.
FÉRÉOR - Bonita promessa! E tu que lhe disseste?
GASPAR (sorrindo) - Que era disparate. Que dizer a um rapaz de dezassete anos que chora por haver deixado o paizinho e a mãezinha?
Féréor sorriu, como única resposta.
FÉRÉOR - Que te disse das oficinas?
GASPAR - Achou- as soberbas. E a propósito das oficinas, fiz uma observação no tocante às bobinas: poderíamos obter mais força e gastar menos água, acrescentando-lhe uma engrenagem, ao sistema actual.
FÉRÉOR - Onde? Não vejo onde se poderia acrescentar.
- Olhe - respondeu Gaspar, desenrolando um desenho da engrenagem que propunha e que estudara após as observações de André.
FÉRÉOR - Foste tu que fizeste isso? Por Deus que a tua ideia é magnífica e havemos de a pôr em prática. Vem à oficina pensar a coisa como deve ser.
GASPAR (timidamente) - Permite-me uma observação?
FÉRÉOR - Fala, fala sem receio.
GASPAR - Não dê a entender que a ideia é minha. Se convivesse com os operários, como eu, e os ouvisse falar à vontade, veria como é importante deixá-los na crença de que tudo quanto é bom, útil, provém apenas do senhor, e que, onde outros não vêem possibilidade de aperfeiçoamento, o patrão vê-a e encontra-a. Perdoe o meu atrevimento e queira tomar conta do desenho da engrenagem.
FÉRÉOR - Aceito-o, meu amigo, e não esquecerei a tua opinião. Está bem assim e ficarei mais à vontade para conversar contigo acerca das minhas ideias e aproveitar as tuas.
GASPAR - Obrigado, patrão.
E fazendo crer que estava grato a Féréor, Gaspar lisonjeava o amor- próprio do patrão e ganhava terreno na sua estima e na sua confiança. Acompanhou-o à oficina. Féréor examinou os maquinismos das bobinas, achou útil e inteligente a engrenagem proposta por Gaspar. Conversou a tal respeito com os contramestres e ordenou a Gaspar que fizesse a experiência.
Este hábil procedimento de Gaspar aumentou muito a confiança e a amizade de Féréor; Gaspar, por seu lado, sentiu desenvolver-se pelo patrão um afectuoso reconhecimento que o surpreendeu também, pois havia muitos anos que apenas agia para seu próprio interesse ao trabalhar para Féréor.
gostarei eu dele? - perguntou a si próprio, ao mesmo tempo que o patrão também se interrogava. Se gosto dele, melhor; estou cansado de viver só para mim, sem estimar pessoa alguma.
As bobinas foram montadas dentro de poucos dias, e todos os operários admiraram o aperfeiçoamento mandado introduzir pelo patrão. Gaspar teve o cuidado de não ouvir as lisonjeiras apreciações dos operários, mas conseguiu que os contramestres lhas repetissem.
- O Sr. Féréor ficar-lhes-á grato - disse-lhes ele - , pois não há inventor que não goste de ser apreciado por peritos no assunto.
De maneira que os contramestres não deixaram de felicitar o patrão pelo seu engenho de mecânica.
Decorreram assim três anos; Féréor e Gaspar cada vez se afeiçoavam mais um ao outro. Gaspar aproveitava-se das ideias inteligentes mas incompletas, de André, e apresentava-as a Féréor, depois de as haver trabalhado e aperfeiçoado; André não dava por nada; não pensava mais nisso depois de haver conversado com Gaspar, que fingia não lhes ligar importância.
Certo dia em que André fora chamado à oficina e Gaspar trabalhava no escritório, o correio trouxe uma carta para André; Gaspar recebeu-a e pô- la em cima da mesa; deu-a a André quando este voltou da oficina.
ANDRÉ (depois de ler) - Singular pedido me faz um negociante de telha da minha terra! Diz-me que, sabendo que o Sr. Féréor fabrica chapas de cobre, deseja que lhe mande meia dúzia, de tamanhos diferentes, como amostra, para telhados.
Gaspar riu em coro com André dessa estranha encomenda.
ANDRÉ - Admira-me que o Sr. Féréor, que fabrica tantas chapas de cobre, ainda não faça chapas para telhados.
GASPAR - Não é trabalho para as nossas oficinas; não se trabalha o cobre como a tela alcatroada.
ANDRÉ - É pena que não se possa trabalhar como tecido.
GASPAR - Como queres que o cobre, que é um metal tão duro, se possa enrolar como o pano?
ANDRÉ - Podiam esticá-lo.
Gaspar e André ainda gracejaram durante muito tempo a respeito dessa ideia; Gaspar, porém, compreendendo que podia tirar daí alguma coisa boa, incitou André a desenvolver o seu pensamento, sempre com ar galhofeiro. Depois Gaspar, querendo fazê-lo esquecer-se, falou-lhe dos pais, da familia, de maneira que André nunca mais se lembrou daquelas coberturas de telhados senão como um disparate impossível.
Gaspar pensou tanto no caso, que, passados dois meses, tinha um plano para fabrico de cobre mais maleável e podendo ser enrolado como um pano.
Féréor chegou, deu a volta costumada, aprovou, como sempre, o que se fizera nas oficinas e meteu-se no escritório; não tardou a chamar Gaspar. Começou por interrogá-lo e ficou satisfeito com as
respostas. A sua última pergunta:
- E não há nada de novo?
Gaspar respondeu:
- Há qualquer coisa; aproveitei algumas ideias antigas do patrão e aqui tem o resultado.
Gaspar colocou diante de Féréor um plano de fabrico, depois um plano de maquinismos que inventara e, finalmente, um esquema dos seus resultados obtidos. Por meio de um processo químico dava ao cobre e ao zinco grande flexibilidade, podendo fabricar-se diariamente milhares de metros de tela de zinco ou cobre.
FÉRÉOR - Que é?
GASPAR - Novo invento, uma fonte de glória e de fama para o patrão; tela de cobre e zinco; e o patrão produzirá tela para cobrir telhados, sem despesa e sem trabalho, pois milhares de metros diários custam pouco.
Féréor não pôde dissimular a sua surpresa e admiração. Quanto mais examinava, mais satisfação demonstrava ainda. Contudo, nada disse. Depois de examinar muito Gaspar, levantou-se, apertou-o nos braços e disse-Lhe em tom comovido:
- Meu filho!
Nunca ninguém tinha visto Féréor comovido e cedendo a um impulso de sensibilidade. Recuperou o seu sangue- frio e prosseguiu:
- Desde hoje és meu filho. Há muito que penso nisso; a tua bela descoberta resolve-me; os nossos interesses serão comuns e estimar-te-ei sem receio de te perder. Queres ser meu filho, herdeiro da minha riqueza, perante a lei?
- Meu pai - redarguiu Gaspar, dobrando o joelho diante de Fédéor. - Continuarei a obedecer-lhe como fiel servidor, a servi-lo como homem feito, instruído por si, pois, se não fosse o senhor, nada seria.
- Levanta-te, meu filho, e vem esta tarde ao cartório do notário; tudo combinaremos.
Gaspar, no auge da alegria, beijou a mão sempre generosa para ele, que acabava de compensá-lo tão magnificamente pelo seu serviço fiel e dedicado de oito anos. Entrara aos dezasseis anos na fábrica; tinha agora vinte e quatro.
FÉRÉOR - Vai visitar teus pais, meu amigo. Vai falar-lhes no assunto e volta logo; não esqueças as oficinas.
GASPAR - Pode ficar sossegado. Todo o meu tempo será, como até aqui, dedicado a si.
Féréor sorriu benevolamente e continuou o seu trabalho interrompido pelo invento de Gaspar.
A ira do tio Tomás
Gaspar correu a casa do pai, que andava pelo campo; a mãe estava na quinta.
GASPAR - Mãe, venho participar-Lhe uma grande e agradável notícia: Féréor quer adoptar-me e venho, por sua ordem, contar-lhe o sucedido.
A tia Tomás ficou tão surpreendida que não pôde articular palavra. Gaspar olhava-a a sorrir e esperava pela resposta.
MÃE - Adoptar-te?! Tornares-te filho de Féréor? Renegares teus pais? Eu não quero. És suficientemente rico por ti próprio para viveres honestamente sem possuires os milhões de Féréor.
GASPAR - Mas, minha mãe, continuarei a ser vosso filho; é para ter o direito de lhe tratar dos negócios em casa dele, que me adopta.
MÃE - Pode muito bem conservar- te, sem te adoptar.
GASPAR - Decerto; mas é mais seguro adoptar-me.
MÃE - Deixa-me em paz. Eu não quero e recuso.
Gaspar esteve quase a arrebatar- se; habituado, porém, a dominar-se, conteve a sua irritação e volveu com frieza.
- Como quiser; o assunto resolve- se de toda a maneira, e, assim, só ofenderá gravemente Féréor. Onde está o pai?
MÃE - No campo. Acautela-te, não te vá receber à pancada e não te expulse a pontapés.
Gaspar encolheu os ombros e saiu, um pouco assustado com a recepção que o pai podia fazer-lhe. Encontrou-o pelo caminho, de volta a casa.
TOMÁS - Até que apareces! Há mais de um mês que não te ponho a vista em cima.
GASPAR - Venho trazer-Lhe uma boa nova pai. Féréor, sempre bom e indulgente para mim, deseja adoptar-me.
TOMÁS - Muito bem; estás na idade de proceder como entenderes. Ficar-me-á Lucas que foi sempre bom filho. Quanto a ti, nunca foste o que eu queria. Tens a tua fortuna garantida; tens os milhões que ambicionavas. Adeus, Gaspar. Já não precisas de mim como eu não preciso de ti; vai-te para casa do teu Féréor e eu vou preparar- me para deixar toda a minha fortuna a Lucas.
GASPAR - Proceda como quiser, pai. De boa vontade cedo a Lucas os meus direitos sobre a sua fortuna, e estou radiante, porque aproveito assim as intenções generosas do Sr. Féréor.
O tio Tomás humanizou-se ante aquelas palavras de Gaspar. Contava com resistência, ira e apenas encontrara serenidade e respeito.
TOMÁS - Sim, Gaspar; não me oponho a que te deixes adoptar por Féréor. Considera-lo como teu protector: sê seu filho. Eu tenho-o na conta de um ladrão que me roubou o filho que Deus me deu e não gosto dele; e só quero vê- lo quando não possa deixar de ser. Vai, pois, ter com o teu novo pai e abandona, por causa dele, teus velhos pais que já não te servem para coisa alguma. Adeus, Gaspar, vai-te embora: a tua presença desagrada-me e até me encoleriza.
GASPAR - Pai: antes de o deixar, peço-lhe a bênção.
TOMÁS - De boa vontade ta dou. Vive muito tempo, sê feliz. Acumula milhões sobre milhões e deixa-nos em paz como bons camponeses, sem te inquietares connosco. Vai ver tua mãe.
GASPAR - Já a vi, pai; recusa falar no assunto.
TOMÁS - Recusa? Pois já vais ver como a faço consentir. Acompanha-me e não fales, diga eu o que disser.
Gaspar acompanhou o pai; entraram na quinta.
TOMÁS - Perdeste o juízo, mulher. Porque recusas a Gaspar a licença de nos deixar para sempre, de viver a seu gosto, de se afogar em ouro até ao pescoço, de nos desprezar, de renunciar a nós? É indigno de que se tenha pena dele. Expulsou-nos do
seu afecto. Pois bem: expulsa-o também para longe do coração e da lembrança.
MÃE (chorando) - Não posso, Tomás: é meu filho.
TOMÁS - O teu verdadeiro filho, o teu único filho é Lucas; Gaspar trabalhou sempre para nos deixar. Concorda depressa e que se vá embora.
A tia Tomás hesitava. O pai volveu, irado:
- Já te disse: dá-Lhe o teu acordo e avia-te… Depressa. Diz que sim, a ver se isto acaba por uma vez!
- Pois sim - tornou a mãe, a chorar. - Vai, meu pobre filho, e sê feliz.
- Virei visitá-los mais vezes do que dantes - volveu Gaspar, beijando-a. - Adeus, mãe; bem sabe que a amo. Adeus pai.
TOMÁS - Adeus e vai-te embora.
Mal ele saíra, apareceu Lucas, que indagou:
- Que tem a mãe? Está a chorar? E o pai tem ar de contrariado e de descontente.
TOMÁS - Tua mãe é uma tola em chorar e eu não passo de um parvo em estar contrariado. Que nos importa que o Gaspar nos renegue? Já não nos tem dado tantos desgostos?
LUCAS - Gaspar? Que fez ele? Veio cá?
TOMÁS - Veio, sim, a correr, todo satisfeito para nos dizer… vê se adivinhas!
LUCAS - Ganhou dinheiro?
TOMÁS - Sim, muito. Mas há melhor do que isso.
LUCAS - O quê? Não adivinho… Ah! já sei! Vai casar-se.
TOMÁS - Isso sim! Não pensa em tal.
LUCAS - Mas diga o que é, pai. Não consigo perceber.
TOMÁS - Escolheu outro pai. Achou que eu era muito bruto, muito campónio, muito vadio.
LUCAS - Percebo agora. O Sr. Féréor adopta-o.
TOMÁS - Isso mesmo. Já viste alguma coisa semelhante?
LUCAS - Ainda bem para ele. É o que pode acontecer- lhe de melhor.
TOMÁS - Pois quê, achas isso bem?
LUCAS - Decerto, pai. Desde menino, Gaspar gostou de estudas; desejou consagrar-se à mecânica; bem sabe que, apesar dos seus esforços, pai, ele apenas tinha amor ao estudo, ao colégio.
TOMÁS - Isso é verdade.
LUCAS - Aos dezasseis anos teve a sorte de entrar para a fábrica de Féréor. Fez carreira graças à sua aplicação, à sua extraordinária inteligência, ao seu zelo, à sua pontualidade. olhe o fruto do seu trabalho, da sua perseverança. E querem-Lhe mal por isso? E zangam-se por esse motivo? Meu pai e minha mãe, consintam que lhes diga que não é justo, não está certo.
MÃE - Parece-me que tens razão, Lucas. Tomás foste mau para Gaspar e para mim.
LUCAS - O pobre Gaspar devia ter ficado bastante triste por ser tão mal recebido quando corria a trazer- lhes uma boa notícia, que julgava regozijá-los.
TOMÁS - Mas isso em nada Lhe altera a sua situação para connosco.
LUCAS - E garante-lhe uma situação soberba e que ninguém pode tirar- lhe.
TOMÁS
